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⚓ “Âncora do Marujo – O último reduto das transformações” 🌈

À luz do dia, o vai e vem de transeuntes.

À noite, o neon de luzes, cores & sonhos.

As primeiras imagens do documentário me fizeram voltar no tempo…

De dia Lembrei quando era criança e acompanhava minha mãe na peregrinação pelo centro da cidade nas manhãs de sábado. O vai e vem de corpos, o cruzamento de vozes e uma parte da cidade que eu conhecia e adormecia, antes do sol se pôr.

De noite Fui conhecendo de longe e com um olhar mais curioso e menos pueril, “outra cidade”. De fuso horário peculiar, só acordava quando a noite caía e dormia no revelo do dia seguinte.

Na arte Quando fui ator de teatro, interpretei uma transformista. “Montava”, pintava, subia no salto, mudava o tom de voz, mas ainda assim, uma parte de mim insistia em ficar ali. Hoje, percebo com clareza (e isento de qualquer frustração) que antes das alegorias, precisamos nos despir de nós mesmos e só depois ir de encontro à personagem.

É numa das ruas abandonadas da Avenida Carlos Gomes, centro de Salvador e de todas as mazelas socioeconômicas de uma metrópole, que está ancorado o último reduto da cena transformista da cidade. O “Âncora do Marujo” vai além das funcionalidades de um simples bar, onde os clientes bebem, comem e conversam. Seu palco simboliza a resistência da cena cultural gay e a luta por visibilidade artística em um cenário demarcado por preconceitos e olhares clichês.

 

O documentário do cineasta baiano Victor Nascimento, lançado em 2015, acerta ao mostrar o espaço cultural (tratá-lo simplesmente como um estabelecimento comercial minimiza sua importância) não apenas como título da obra, mas também como pano de fundo da narrativa. O “Marujo” é retratado como parte fundamental na construção das histórias reveladas. Suas mais genuínas personagens partilham do mesmo protagonismo das performáticas artistas que por ali nascem e passam.

 

As relações de poder instituídas nessa gama de contexto comercial, artístico e humano, advêm da simbiose entre o dono do bar, seus funcionários e as transformistas que se apresentam semanalmente. Relações que, conforme depoimento do próprio “Seu Fernando” (dono do estabelecimento) são construídas por um viés hierárquico e de respeito, amaciado pela relação de afeto que se fortalece em meio às adversidades.

 

A rede afetiva é tecida nos depoimentos de cada uma das personagens. Na intensidade e peculiaridade de cada discurso, percebemos a representatividade social, política e religiosa do “Marujo”, a importância do seu legado histórico para artistas, funcionários e público, e as transformações que isso provoca de maneira intrínseca, subjetiva e/ou compartilhada.

1.) A diferença na recepção do show transformista no meio hétero e no meio homo – erroneamente chamado de homossexualismo -, e a supremacia da mulher em torno do processo da montagem artística no fio da navalha entre uma representação caricata e realista no discurso do ex-transformista David Winter.

2.) Do peso da idade no seguimento da profissão e a simbiose entre a personagem e pessoa na fala do ex-transformista Carine Bergman (foto).

Os dois “desabafos” traçam uma interessante linha do tempo da profissão, e como o “ser transformista” vai muito além da roupa, do salto, do makeup e deságua em algo mais profundo e pessoal. Esse é um dos pontos mais emocionais do filme. O recorte singelo que a narrativa consegue fazer das personalidades do universo transformista de Salvador – incluindo os seus bastidores -, e por consequência do contexto que compõem esse universo esquecido e marginalizado.

O imaginário de promiscuidade enraizado por séculos na indústria da prostituição é um dos fatores que contribuem diretamente no fomento ao preconceito envolto à atividade transformista e as profissionais que vivem dessa arte. Essa ignorância associativa é desmistificada a partir do momento em que as personagens se desconstroem, suas alegorias caem e a essência do indivíduo, camuflado em cada nome fictício, ganha a oportunidade de dialogar com o mundo.

1.) O relato da transformista Larissa Bravo, cujo nome real é Nilson, que trabalha na padaria, onde todos tem consciência da sua profissão e a respeitam como tal.

2.) Registro do processo de transformação de Scarleth Sangalo (foto) em frente ao espelho, na convergência reflexiva da transformista e de Júnior (seu nome verdadeiro), que confidencia pensamentos e incertezas.

A narrativa peca justamente em não concentrar seu recorte documental no escopo humano e aprofundá-lo por um olhar mais incomum. A riqueza de algumas artistas esbarra num recorte superficial e na ausência de um naturalismo dramatúrgico sob o discurso da alteridade e empatia. Outro ponto negativo do filme é tom apelativo de reality show adotado nas sequências que mostram o dia a dia das artistas no camarim do “Âncora”.

O trabalho artístico sai de cena e dá lugar a uma guerra de egos, briguinhas de bastidores, troca de farpas, tudo meio que inflamado pela câmera e pela “ingenuidade” de algumas das transformistas em atrair ainda mais holofote e repercussão à sua história.

Apesar dos ruídos no discurso narrativo, o “Âncora do Marujo” é um documentário que contribui de forma essencial e representativa no movimento de afirmação/diversificação da cena audiovisual baiana, da religiosidade local (por todo seu sincretismo simbolizado no cortejo do “Marujo”) e das discussões que envolvem a diversidade sexual sob as expressões de uma arte libertária e do respeito mútuo.

Link no Youtube para assistir o trailer do documentário: https://www.youtube.com/watch?v=7uzvrzrYsW0

 

Próximo Texto: Entrevista com o cineasta Victor Nascimento

(diretor do documentário “Âncora do Marujo”). 

Dia 23/09, às 20h, no Cinem(AÇÃO).

#RochasEmCores 🌈

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