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Crítica: Aquarius (2016)

"Aquarius", com Sônia Braga, de Kleber Mendonça Filho

Aquarius disputa uma vaga para representar o Brasil no Oscar 2017, mas a categoria que deveria concorrer não é a de melhor filme estrangeiro…

Ficha técnica:
Direção e roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco: Sônia Braga, Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Humberto Carrão, Zoraide Coleto, Carla Ribas
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 01 de setembro de 2016

Sinopse: Clara, após sofrer com problemas pessoais e familiares tem a vida atormentada por uma empreiteira que quer comprar o apartamento dela, último ainda habitado dentro de um condomínio.

Aquarius foi celebrado em Cannes e é um dos candidatos a representar o Brasil no Oscar 2017. Exatamente por esses motivos fui para o filme com uma expectativa alta. Infelizmente não atingida no decorrer da obra. Ao longo da exibição vinha na mente “calma que vai melhorar”… infelizmente não melhorou…

Há, sem dúvidas, muitos méritos em diversos aspectos, mas no fundamental, a história, Aquarius não empolga. Uma falsa sensação de complexidade norteia a trama da protagonista. Um tom raso em como os “vilões” são representados também é problemático. Estes são desumanizados e a intimidação é posta com frases vazias como “você não me conhece”. Enquanto a protagonista é super-humanizada em cenas cotidianas.

A relação de Clara com o edifício-título do longa é compreensível. Há uma confluência entre espaço e memória muito reforçada – até demais em alguns momentos. Mas algumas atitudes soam apenas teimosia e a expõem a riscos. A autonomia, muito bem-vinda em outros momentos, aqui é artificial. Tem momentos que uma ligação para a polícia resolveria. Os fantasmas do passado e a relação dela com os demais personagens ficam tortos. Clara funciona melhor sozinha e isso se deve a um motivo…

A exuberante Sônia Braga. Simples movimentos de cabelo, olhares e passadas aliados a explosões de raiva, sentimento maternal e sedução colocam esta atuação no hall das mais espetaculares que eu já vi. Muitos, inclusive eu, cogitaram Regina Casé como uma candidata ao Oscar no ano passado pelo Que Horas Ela Volta?. Braga traz uma interpretação ainda mais contundente e digna de ser lembrada nas premiações.

Na parte técnica destaco dois elementos, um que não me agradou (ritmo) e outro que funcionou belissimamente (trilha). O ritmo de Aquarius torna a narrativa mais arrastada que o necessário e a troco de nada. Adoro filmes longos que sabem explorar as diversas camadas propostas (Os Oito Odiados) ou que são lentos por algum motivo (45 anos). Aqui há uma sucessão de cenas quase inúteis, como as do primeiro bloco – o longa é dividido em três partes, divisão esta feita com uma notação também desnecessária. Já a trilha encanta na primeira cena e o bom uso das músicas é algo perceptível durante toda a trama. A diegese, dado o gosto da protagonista, torna a musicalidade orgânica e muito compatível com a trama, sendo algo além de um mero adorno.

A direção é a síntese do filme: bons e maus momentos. O ápice é o trabalho com a atriz Sônia Braga (estou quase dando nota máxima para Aquarius só por causa dela). Ele sabe a deixar solta para mostrar todo talento que tem. Em contrapartida, Kleber Mendonça Filho, não consegue extrair o mesmo dos outros atores e nem segura a câmera, em vários momentos redundantes. A cena final poderia ter um impacto outro, muito melhor, se ele não tivesse focalizado em um detalhe. O problema de montagem, claro, também cai na conta da direção. Dava pra tirar uma meia hora sem prejuízo para o todo. Por outro lado, algumas rimas visuais, simbologias e diálogos funcionam muito bem.

Posso estar sendo inocente, mas não senti um viés político tão forte. Há dois momentos que isso fica mais evidente. Em uma reflexão sobre uma empregada doméstica e outro no trato com o antagonista. Fora isso, creio que o peso político é mais pelo posicionamento do elenco e do diretor que pela obra em si.

Aquarius usa alguns clichês e abordagens rasas. É muito mais longo que precisava e tem personagens um tanto soltos em uma história cansativa e vazia. Por outro lado possui um uso singular da trilha sonora e um gênio criativo na figura de Sônia Braga.

Sobre o Oscar, tivemos vários filme nacionais melhores este ano. Big Jato, Ponto Zero, Campo Grande e Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo são exemplos. Este dois últimos na lista final para disputar a vaga. Já Sônia Braga TEM que ser indicada para melhor atriz. Pois se tiverem 5 mulheres melhores que ela este ano é sinal que será o ano mais espetacular da categoria.

  • Roteiro
  • Direção
  • Atuação
  • Montagem
  • Trilha
3.4

Resumo

Aquarius peca em alguns clichês e abordagens rasas, mas é bem sucedido em outras. É muito mais longo que precisava e tem personagens um tanto soltos em uma história cansativa. Mas possui um uso singular da trilha sonora e um gênio criativo na figura de Sônia Braga.

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