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Crítica: Cães de Guerra

Cães de Guerra, nova comédia do diretor de Se Beber, Não Case! é como uma piada divertida que perde o punch final

Ficha técnica:

Direção: Todd Phillips
Roteiro: Todd Phillips, Stephen Chin, Jason Smilovic
Elenco: Miles Teller, Jonah Hill, Ana de Armas, Bradley Cooper
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 ( 08 de setembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Baseado na história verdadeira de dois jovens, David Packouz e Efraim Diveroli, que fecharam um contrato com o Pentágono de 300 milhões de dólares para fornecer armas para os aliados da América na guerra do Iraque.

Nos últimos anos, tem sido notável o esforço de diretores famosos pelos seus trabalhos no gênero de comédia em obras que fogem totalmente de suas zonas de conforto, como dramas políticos e biografias. Só em 2015, tivemos dois filmes dirigidos por “caras da comédia” que concorreram em alguma categoria no Oscar: Trumbo, de Jay Roach (responsável pela série Austin Powers e Entrando Numa Fria) e A Grande Aposta, de Adam Mckay (de O Âncora e Os Outros Caras).

A dramédia biográfica

É curioso notar também, que o o tipo de filme que os tais diretores mais se interessam são pelos quais eu gosto de chamar de “dramédia biográfica”, as comédias dramáticas baseadas em figuras do mundo real, que se apoiam nos excessos e no estilo de vida destrutivo de seus protagonistas. Agora é Todd Philips, diretor da trilogia Se Beber, Não Case! que decide se “aventurar” no gênero com Cães de Guerra. Logo de início fica clara a influência de Martin Scorsese, em especial seu O Lobo de Wall Street (assim como Trapaça, outra dramédia biográfica que bebia do estilo Scorsese), com sua edição frenética, freeze frames e narrações em off explicando os termos complicados das empresas cujo os protagonistas trabalham. Mas sabemos que Philips não é nenhum Scorsese, e Cães de Guerra acaba se parecendo mais com outro filme no mesmo estilo: Sem Dor, Sem Ganho, pérola de Michael Bay. O que não é necessariamente algo ruim.

Em Cães de Guerra, acompanhamos dois amigos na casa dos 20 anos, David Packouz (Miles Teller) e Efraim Diveroli (Jonah Hill) que moram em Miami durante a Guerra do Iraque e descobrem uma iniciativa pouco conhecida do governo que permite que as pequenas empresas possam participar de licitações de contratos militares nos Estados Unidos. Partindo quase do zero, eles fazem muito dinheiro e passam a viver uma vida de luxo. Mas a dupla passa a ter problemas quando consegue um contrato de US$ 300 milhões para armar o exército afegão – que os coloca em contato com pessoas muito suspeitas, algumas das quais se revelam membros do próprio governo norte-americano.

Uma história de excessos

O destaque na atuação é mesmo de Jonah Hill e seu Efraim Diveroli. Efraim é um sujeito instável, inconsequente e moralmente corrompido, mas a performance de excessos e maneirismos de Hill possui uma presença que torna o personagem uma figura carismática e até divertida. O excesso é literal, já que o aumento desproporcional e brusco de peso de Hill foi – supostamente – apenas para interpretar Efraim, e percebe-se a diferença: com uma aparência nada saudável, Efraim parece uma massa colossal que confere presença e representa o excesso, ocupando de forma intencional metade do quadro em algumas cenas, e o ator merece créditos por atribuir uma certa complexidade ao personagem. Constantemente nos perguntamos se tais características da personalidade de Efraim são autênticas ou apenas uma coleção de maneirismos cuidadosamente compostos justamente para entreter as pessoas, manipulando-as no processo. A risada de Efraim – uma atração a parte – é inteligentemente artificial e forçada, demonstrando um certo cuidado na construção deste personagem.

Miles Teller, no entanto, não alcança tanto sucesso como David, e por mais que o ator inegavelmente possua um carisma e uma certa presença de tela como o típico “cara normal”, ele não possui o timing cômico que seu colega de tela, e a entrega de muitas falas soa forçada. No entanto, as narrações em off do ator conseguem ser dinâmicas graças ao (problemático) roteiro e edição frenética. Para Bradley Cooper (trabalhando no piloto automático provavelmente como favor a Philips, com quem fez a trilogia Se Beber, Não Case!) Ana de Armas (sim, você leu o nome dela corretamente), o que resta é a mais monótona expressão blasé.

Além do costumeiro ” baseado em fatos reais”, o roteiro de Phillips, Stephen Chin e Jason Smilovic inclui pequenos interlúdios, com frases numa tela preta antes da cena seguinte que separam o filme em segmentos, quase em esquetes de fato. Até as músicas pop descontroladas estão presentes, usadas de forma equivocada muitas vezes. E essa narrativa de excessos surtada e frenética, mesmo que acompanhada de um certo Déjà vu e familiaridade (as similaridades com trabalhos do Scorsese são bem grandes como já mencionado) não chegam a atrapalhar e até funcionam muito bem, com momentos excelentes…até a segunda metade. Um filme desse tipo exige ritmo, e se Esquadrão Suicida nos ensinou algo, é que não há truque de edição, firula visual ou música pop que salve um roteiro problemático.

Se em O Lobo de Wall Street Scorsese trabalhava na base do exagero e dos excessos, eles eram ao menos feitos com uma visão narrativa bem definida. Com Philips e seu Cães de Guerra, no entanto, temos uma primeira metade que é eficiente e divertida (mesmo com seus problemas), e uma segunda metade que muda o foco para algo mais dramático e sério, e o ritmo diminui consideravelmente. Como Todd Philips já havia evidenciado em Se Beber, Não Case! partes 2 e 3, ritmo não é seu forte. Há uma palavra essencial em um filme deste tipo, que não existe o suficiente nesta obra: Sátira.

Quando Cães de Guerra se apoia nas sátiras ao exército, guerra do Iraque e no “sonho americano“, ele se sai muito bem. Efraim admite em certo instante que gosta do nome “Cães de Gerra (War Dogs no original)” por ser descolado e cool. Mas, apesar de ser realmente um bom nome, logo percebe-se que Philips também acha tudo cool. Quando o filme começa a gostar de seus personagens as coisas complicam, com uma certa glorificação dos atos de David e Efraim da mesma forma que Sem Dor, Sem Ganho, de Michael Bay fazia. Se Philips encara o material omitindo-se de julgamentos morais, fica claro que o interesse dele reside mesmo nos tais “manos”, e na relação deles.

A idealização do Gângster

Não deixa de ser irônico que o filme abrace a cultura do Gângster moderno- o chamado gangsta, onde os valores foram claramente deturpados (o que não torna este submundo do “glamour” e estilo das ruas menos fascinante). Porém, abraçando (inclusive no belo pôster, referência ao clássico Scarface de Brian de Palma) esse estilo para si, Philips faz mais uma ode ao Gângster moderno (num fascínio pelo conceito partilhado por David Ayer, diretor de Esquadrão Suicida) do que uma paródia ou crítica, e o filme acaba partilhando do amor que Efraim possui por Scarface. Mais do que no pôster, a idealização errônea de tal personagem está por todo lado em Cães de Guerra, com citações, referências, e, é claro, no quadro gigante que encontra-se no escritório de Efraim.

Como uma piada que perde o punch final, Cães de Guerra é divertido em sua maior parte como uma diversão inconsequente, mas é justamente nessa inconsequência que residem os maiores problemas da trama, que não possui um posicionamento moral em relação ao seus personagens e conta com uma falta de ritmo em sua segunda metade. A obra procura estar ao lado de filmes como O Lobo de WallstreetA Grande Aposta mas acaba ficando no nível de Sem Dor, Sem Ganho, o que não é necessariamente algo ruim.

  • Nota Geral:
3

Resumo

Como uma piada que perde o punch final, Cães de Guerra é divertido em sua maior parte como uma diversão inconsequente, mas é justamente nessa inconsequência que residem os maiores problemas da trama, que não possui um posicionamento moral em relação ao seus personagens e conta com uma falta de ritmo em sua segunda metade. A obra procura estar ao lado de filmes como O Lobo de Wallstreet e A Grande Aposta mas acaba ficando no nível de Sem Dor, Sem Ganho, o que não é necessariamente algo ruim.

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