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Crítica: Mãe só há uma (2016)

Mãe só há uma trata de temas importantes, mas de forma narrativamente ineficaz.

Ficha técnica:
Direção e roteiro: Anna Muylaert
Elenco: Naomi Nero, Daniela Nefussi, Matheus Nachtergaele, Daniel Botelho,  Lais Dias, Helena Albergaria, Luciana Paes
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 21 de julho de 2016

Sinopse: o adolescente Pierre é informado que foi roubado na maternidade. Em meio a descobertas do próprio corpo ele tem que lidar com uma nova família e o afastamento da mulher que o criou durante 17 anos.

“mãe é quem cria”, provavelmente você já escutou ou disse essa frase. O quão verdade é esse pensamento depende de cada um… Em Mãe só há uma a questão da legitimidade materna é posta frente a uma mulher que raptou duas crianças, criando-as durante anos, e as famílias biológicas. Outro assunto de relevo aqui é a descoberta da identidade por um jovem e como lidar com múltiplas sensações e as visões dos outros – este segundo muito mais em voga na trama.

Anna Muylaert dirigiu 7 longas. Notadamente o de maior sucesso foi o Que Horas Ela Volta?, no ano passado. A diretora costuma abordar temas marginais e dar voz às minorias. Em Mãe só há uma não é diferente. Cabe ressaltar, como curiosidade, uma certa ironia no título. Já que o Que Horas Ela Volta? foi traduzido, em vários países, como “Second Mom” [Segunda Mãe].

Mas diferente do longa de 2015, aqui as discussões são só jogadas em tela. Identidade, pertencimento e preconceitos são penteados no filme – sem nunca ter um sustento narrativo. Infelizmente os três assuntos são abordados superficialmente. A sensação é que a temática engole a história e que faltou perícia em Muylaert para conduzir o que tinha nas mãos. Tudo é apresentado, mas não introduzido de fato. Falta desenvolvimento e cenas que ajudem nas transições – a montagem aqui é bem problemática.

Acompanhamos Pierre, cujo nome original é Felipe, um jovem de 17 anos, que toca em uma banda de rock, é sexualmente ativo e bissexual, gosta vestir cinta liga e vestidos, além de pintar as unhas e usar maquiagem para se fotografar no banheiro. A relação com a mãe e a irmã parecia normal para a idade. A notícia que ela não deu à vida a ele rompe aquela estrutura familiar.

Então basicamente temos a história da construção da persona Pierre/Felipe. Os caracteres dele são mal construídos em momentos que poderiam ter um peso dramático. Salvo uma cena no boliche, o confronto interno e com os pais é a todo tempo amenizado. Muitas vezes ele parece destacado do resto – a intenção poderia a dele ser um estranho no (novo) ninho. Porém, acaba distante até do público.

As questões sexuais do personagem alternam entre uma naturalidade delicada, como na cena com o parceiro e a última cena do filme, e fica meio forçado ao usar closes para ressaltar o que já estávamos vendo. A ausência de uma evolução mais natural também enfraquece o todo. No fim, grosso modo, ele apesenta uma pseudocomplexidade.

Parte desa questão ocorre pela inabilidade do jovem Naomi Nero, no longa de estreia dele. Ponto positivo é que ele não parece ser duas pessoas, mas apenas uma com características duais. Contudo, o ator derrapa tanto nos momentos mais contidos, quanto naqueles que exige um pulso mais firme. O desleixo que o personagem quer passar não fica natural na atuação de Naomi.

Já Daniela Nefussi interpreta as duas mães do garoto. A inteligente sacada de Anna Muylaert possibilita confrontarmos a figura das duas mulheres e ver como elas são iguais e diferentes, para os espectadores e, claro, para Pierre/Felipe. Agoniada, irritadiça, protetora e um desnorteio materno marcam ambas as personagens. Os irmãos mais novos, Daniel Botelho e Lais Dias, também são instáveis, mas derrapam menos que o protagonista. Matheus Nachtergaele tem nas primeiras aparições uma presença esquisita, abaixo do que normalmente apresenta. O último longa dele Big Jato nos tinha brindado com um primor interpretativo. Há, contudo, uma cena em um provador e outra no boliche que mostram a conhecida capacidade de Nachtergaele.

A câmera de Anna continua dinâmica. Promove algumas movimentações de forma a situar o público no ambiente, mas de um jeito meio torto, mostrando um plano a partir de outros cômodos, como se fôssemos observadores dos acontecimentos – sem poder interferir ou ser cúmplices. A primeira cena na casa é com um enquadramento no chão e com planos detalhes em objetos. Há também um desfoque nos personagens em um jantar, reforçando o desconforto que o momento causa, só aliviado quando o protagonista se levanta.

As músicas tocadas me incomodaram bastante. Nenhuma delas pareceu consonante com o momento. E me refiro a toada e nem tanto às letras. A montagem, como falei, também não foi acertada. Percebemos algumas barrigas e cenas “inúteis”. Diálogos de necessidade e qualidade duvidosos. Os momentos no colégio, judô do irmão e com a irmã na antiga casa parecem levar a lugar algum, ficando soltas e vazias. Por vezes o roteiro se pauta em palavrões além da conta para expressar a raiva dos personagens, outro ponto fraco.

Quem esperava em Mãe só há uma uma qualidade semelhante com o Que Horas Ela Volta? irá se decepcionar. Não vou dizer que se parece com outra diretora, pois o estilo está lá, mas feito de forma quase amadora. E, sem ecoar o longa anterior, Mãe só há uma, pela fraqueza com que o tema é trazido, soa um puro desperdício.

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