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Crítica: A Assassina (2015)

A Assassina, representante de Taiwan no Oscar,  é um deslumbre visual. Excelência no quesito.

Ficha técnica:
Direção: Hsiao-Hsien Hou
Roteiro: Cheng Ah, T’ien-wen Chu, Hsiao-Hsien Hou e Hai-Meng Hsieh
Elenco: Qi Shu, Chen Chang, Yun Zhou, Fang-yi Sheu, Satoshi Tsumabuki
Nacionalidade e lançamento: Taiwan, China e França, 2015 (05 de maio de 2016 no Brasil)

Sinopse: na China medieval, no século IX, Nie Yinniang é encarregada, pela própria mestre, de matar o governador da província militar de Weibo. Mesmo para uma assassina treinada nas artes mais milenares não será fácil tirar a vida do próprio primo e antigo amor.

 

Vocês provavelmente viram Mad Max: a estrada da fúria. Grande vencedor (em se tratando de quantidade) do Oscar de 2016. Carros tunados e uma mega ação à parte, Mad Max lembra muito A Assassina. Explicando: ambos tem no visual o maior esplendor, o som constante e bem marcado,  o design de produção é rico e imersivo e uma história “simples” contada através dos elementos visuais e da ação.

Antes de falar da história em si tenho que ressaltar a fotografia de A Assassina. O longa começa com um prólogo em preto e branco. Mas apenas essas duas dão uma vida e uma expressividade assustadoras… mal eu sabia o que estava por vir…

O tom é muito marcado pela matiz de cores precisamente escolhida, puxando para um vermelho-dourado. A variedade de ambientes e sensações que somos expostos transcende 90% do que vemos por aí. De fato a qualidade dos cenários em si já impressiona: floresta, montanha, névoa, ambientes interiores das casas… tudo está simplesmente perfeito. Todavia, o trabalho do diretor de fotografia Ping Bin Lee nos brinda com cada cena sendo um deleite para os olhos. Coloco como uma das grandes injustiças do Oscar: a fotografia de A Assassina não estar concorrendo (falo mais sobre o Oscar daqui a pouco).

Já os ouvidos não ficam menos contemplados. A trilha e o som como um todo ajudam a narrativa mais do que a história em si. Cada som, desde pássaros, espada e até passadas, são completamente audíveis. A mixagem também fez algo impecável e digno de nota.

A Direção de Hsiao-Hsien Hou é detalhista e muito cuidadosa. Notadamente vemos um esforço em proporcionar uma obra de arte. O local onde a câmera é colocada muitas vezes soa “errado”, mas o efeito causado é inacreditável. Não à toa que ele levou o prêmio de melhor direção em Cannes no ano passado.

Algumas cenas “param’. Esse recurso faz com que possamos apreciar aquele quadro de forma mais atenta e vamos degustando aos poucos aquelas imagens. Em alguns momentos esse elemento, apesar de eficaz, cansa um pouco. Em Anomalisa e 45 Anos, por exemplo, a lentidão fica melhor justificada. Infelizmente o ritmo de A Assassina fica truncado dificultando o andamento da história.

Mas do que o filme fala?  Nie Yinniang foi entregue, ainda criança, para uma monja. Yinniang desenvolveu inigualáveis habilidades com a espada. Mas, segundo a mestra dela, o lado “humano” de Nie a atrapalha. Como forma de prová-la/puni-la a mestre designa Yinniang para uma missão: matar o primo.

Na parte da ação, as lutas beiram o exagero em alguns momentos, mas seguram no limite. Na realidade a coreografia pode incomodar alguns pela falta de um espetáculo maior. Contudo, inegavelmente, a movimentação é bela.

A obra traz um universo que o publico ocidental talvez não esteja tão acostumado, o longa está em poucas salas e acredito que nas mais alternativas. Quem gosta de dramas psicológicos que desenvolvem os personagens de forma expositiva não deve apreciar a construção de A Assassina. As motivações, caracteres e camadas dos personagens estão transpostos para um segundo plano e se realizam mais visualmente na cabeça do público: nós temos que preencher certas lacunas.

Mas certas linguagens são universais. Tendo isso em mente, A Assassina funciona muito bem como expressão cinematográfica. O filme foi o representante de Taiwan no Oscar deste ano. A categoria de melhor filme estrangeiro me decepcionou um pouco. Vários filmes de qualidade ficaram de fora da lista final. Notadamente o nosso Que Horas Ela Volta? e A Assassina tinham lugar certo (poderiam sair 5 Graças e o Lobo do Deserto, por exemplo). E ambos são melhores que o vencedor da categoria O Filho de Saul.

Já que a Academia não o reconheceu devidamente, não repita aquele erro: vá ao cinema e contemple uma obra de arte.

[o trailer não faz totalmente jus e tem alguns spoilers, não recomendo]

https://www.youtube.com/watch?v=nZmnM_N1oss&ab_channel=imovision

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