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Crítica: Nise: O Coração da Loucura

Nise: O Coração da Loucura trata de pessoas, arte e de como a arte as tornam mais humanas

Ficha Técnica:
Direção: Roberto Berliner
Roteiro: Flávia Castro, Mauricio Lissovski, Maria Camargo, Chris Alcazar, Patrícia Andrade, Leonardo Rocha, Roberto Berliner
Elenco: Glória Pires, Claudio Jaborandy, Flavio Bauraqui,  Roney Villela, Charles Fricks, Felipe Rocha, Augusto Madeira
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 21 de abril de 2016

Sinopse: parte do trabalho de Nise da Silveira (1905-1999), uma psiquiatra brasileira que revolucionou os procedimentos médicos daquela área. Nise ia contra os tratamentos mais invasivos, como lobotomia e eletrochoque, em pacientes com distúrbios mentais. Ela se apoiava em métodos mais humanos, focados na terapia ocupacional.

Ainda hoje algumas casas de tratamento de pessoas com distúrbios mentais tem reclamações de maus tratos e, por vezes, deixam os pacientes a própria sorte. Os caminhos que os médicos percorriam na década de 40 eram ainda mais tortuosos.

Engenho de Dentro, RJ, em 1944, Centro Psiquiátrico Nacional. Este é o local e época focalizada neste longa dirigido por Roberto Berliner. A escolha do tom mais para o sépia realça bem as intenções do diretor e nos transportam para aquele momento a ser retratado.

A Dra Nise volta a trabalhar na clínica em questão, após anos afastada. Ela se assusta com o descaso em que o hospital se encontra e se depara com médicos apoiando e se orgulhando de métodos agressivos (há até espécies de “rinhas” onde os profissionais apostam em brigas entre os internos). Nise se recusa a compactuar com tais atividades e é “renegada” ao setor de terapia ocupacional (até então jogado às traças).

Com um espírito aguerrido e uma vontade de revolucionar aquele ambiente, Nise tenta uma abordagem mais humanizadas com os clientes (ela rechaça o termo paciente, para ela os médicos e enfermeiros é que tem que ser pacientes e servir aos clientes).

Ela sofre resistência de muitos, mas tem o apoio de alguns. Principalmente de Almir. Ele, simpatizante das belas artes, auxilia Nise a introduzir o elemento artístico naqueles pacientes/clientes. O resultado é exuberante e encantador.

Cada universo que nos é mostrado, a partir das características dos personagens é o ponto forte do longa. É estabelecida uma forte empatia com o público e isso é feito de uma forma que foge do melodrama e de soluções fáceis. Eles são apresentados de forma orgânica e tem um certo desenvolvimento, considerando a proposta.

Por personagens entenda aqueles tratados por Nise. Já que alguns outros, como alguns médicos (vilanizados de uma forma bem maniqueísta) e o marido de Nise, Mário, que tem um arco pouco explorado e se mostra desnecessário à trama. A relação entre eles aparece na trama em alguns pontos e quebra o ritmo e não acrescenta.

Na parte técnica Nise: O Coração da Loucura traz uma boa fotografia, uma direção que não perde tempo e conta a história de uma maneira direta e de modo correto, um design de produção que ajuda na imersão para o local e época. Segue imagens da Nise de Silveira:

Mas o grande destaque vai para o som. Há três aspectos que merecem nota: a música cantada, as melodias que embalam as cenas e a forma como isso interage com a história. A emoção que o som nos transmite não é óbvia e nem antevê a ação. E mais de uma vez é utilizado o recurso de o som se iniciar em uma cena e transpor para a seguinte, causando um efeito peculiar.

O roteiro, no entanto, fica monotônico e não tem grandes complexidades. Não é difícil saber onde a história vai nos levar e o tratamento superficial dado a alguns personagens deixa um gosto meio amargo. Há também menções ao conflito entre os conservadores (postos como reacionários) e a visão de Nise (tratada como comunista). Outro elemento que poderia ser retirado sem prejuízo à história, tal como a questão familiar da personagem.

Existem também alguns furos, principalmente sobre a questão financeira e o cotidiano das atividades desempenhadas. E pode se passar uma certa ideia simplificada do dia a dia em uma clínica. Por vezes senti falta de um porém, algo desse um peso dramático maior.

Voltando a um dos pontos centrais do longa: a arte como instrumento para o melhor desenvolvimento humano. Os momentos de descoberta são sublimes, ficamos encantados com cada quadro e cada pincelada. O respeito às idiossincrasias e conseguir extrair o melhor de cada um são boas mensagens que recebemos com clareza e nos fazem refletir.

A Nise, bem interpretada pela Glória Pires (a atuação dela é segura e conduz a trama de forma correta), foi aprendiz de Carl Gustav Jung, um dos maiores expoentes da área. Sobre o trabalho de Nise ele disse: “fica claro que eles são tratados por profissionais que não tem medo do inconsciente”. Ressaltando o aspecto de colocar em forma de arte o que se passava nas mentes dos pacientes de Nise.

Este drama biográfico é um convite à alteridade. Nem sempre se colocar no lugar do outro e entendendo as especificidades deles é uma tarefa fácil. Como a própria Nise nos ensina: “há dez mil modos de percorrer a vida e de lutar pela sua época”.

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