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Crítica: A Bruxa

A Bruxa é uma experiência agradavelmente desagradável. Quem gosta de terror não irá se arrepender.

Ficha Técnica: 
Direção e Roteiro: Robert Eggers
Elenco:  Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2015 (03 de março de 2016 no Brasil)

Sinopse: uma família de puritanos recém chegados aos EUA vive em um local isolado. Após ocorrer um incidente eles passam a ter que lidar com fenômenos estranhos que põe em cheque os valores e a relação entre eles.

A sinopse pode dar a entender que o filme é mais um terror clichê e genérico… de fato há uma certa familiaridade em alguns pontos da história, mas a forma como ela é contada faz o longa valer a pena. E isso se dá, pois temos vários elementos que são destaques aqui: roteiro, atuação, fotografia e trilha e uma direção muito competente.

A Bruxa é bem dividido em três arcos de praticamente meia hora cada (o tempo total  é de 1h32). Sabe aquela boa e velha fórmula de começo, meio e fim? Vemos claramente o que deveria estar em cada lugar da história mostrado certinho na tela.

A primeira parte do filme estabelece onde e como aquela família vive e o drama que eles passaram. Mas evidencia, principalmente, o fervor religioso e a criação rígida que os pais impõem aos 4 filhos. Nos é mostrado também um pouco da personalidade de cada um e como lidaram com o problema do início do filme.

Após uma conversa entre os pais, quando eles decidem tomar uma decisão que vai afetar o destino de um dos filhos, há o início do segundo arco, onde há o desenvolvimento de fato da história.

A história que já era instigante ganha corpo e nos envolve ainda mais. Há um mérito de conseguir mesclar o crescimento dos caracteres daquelas personas com a ocultação de alguns detalhes que servem bem para manter o suspense. Não sabemos os rumos que aquela história vai tomar e ficamos tensos/ansiosos para descobrir.

A marca do primeiro terço do filme é o terror/horror. Há duas cenas que já mostram a que o filme veio. Já na parte seguinte, como falei, o thriller prepondera. Contudo sem perder aquela áurea anterior.

Na parte derradeira, iniciada após um momento extremamente bem filmado e forte na história, o filme se perde um pouquinho, mas nada que comprometa o todo (provavelmente não irá decepcioná-los). Todavia a excelente cena final teve um detalhe que me incomodou um tanto. Mas os momentos que a precedem (e ela em si) são angustiantemente bem trabalhados.

Tal como no filme Boa Noite, Mamãe, não há o uso abusivo de jumpscares (só lembro de um e muito bem aplicado, o susto ali foi bem-vindo), o terror é sugerido – o que dá mais medo ainda. A mensagem é construída com outros elementos, como a fotografia em uma paleta de cores mais escuras, mesmo em ambientes claros e abertos, ou então na trilha sonora…

A trilha, aliás, vale um comentário à parte: ela está permeando o filme inteiro de uma forma extremamente bem convincente. Não é óbvia e não antecipa os sentimentos das cenas. Ela está ali como componente do todo e não querendo chamar a atenção para si. E isso é possível, dentre outros fatores, pois a história se sustenta bem.

As atuações não descem o nível da trama e seguem a toada do filme. Trejeitos, voz, explosões de raiva, dissimulação, medo… tudo é transmitido com muita precisão. Compramos muito fácil a verdade dos personagens. O menino mais novo, verdade seja, é um pouco inferior aos demais. Mas a atuação do Harvey Scrimshaw, que faz o Caleb – irmão do meio-  é muito madura e empurra o filme para cima. Anya Taylor-Joy, que faz a Thomasin, também se sustenta bem em vários tons que a personagem exige e a atriz merece elogios.

Com todos esses destaques não posso deixar de citar o maestro disso tudo: Robert Eggers, diretor e roteirista do filme. Com um orçamento baixo, cerca de um milhão apenas (acredite, para um filme isso é baixo), ele faz um trabalho incrível ao compor todo cenário de uma forma convincente (e assustadora) e traz um bom texto, harmonizando-o com todos os outros elementos (cada oração realizada por aqueles personagens traz uma carga dramática impressionante).

A Bruxa estreia nesta semana (quinta, dia 03 de março) e já promete (e creio que cumprirá com louvor) ser um dos melhores filme de terror do ano.

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