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#EspecialCineclubes: Ator e diretor, Bertrand Duarte fala sobre seu trabalho na DIMAS e no Cineclube Walter da Silveira.

Muito mais do que celebrar o centenário desse grande cinéfilo e pesquisador de cinema, Walter da Silveira (1915-1970), o Cineclube Walter da Silveira – iniciativa da Diretoria de Audiovisual (DIMAS) da Fundação Cultural do Estado da BahiaFUNCEB – revitalizou a cena baiana, promovendo um fluxo maior de público na região central da cidade de Salvador, e reascendeu a cultura cineclubista implantada na década de 50 pelo próprio Walter com a criação do Clube de Cinema da Bahia – CCB.

Em 2015 foram exibidos gratuitamente 06 (seis) grandes clássicos da cinematografia mundial. Em julho, abrindo a temporada de 2015, foi exibido “Pierrot Le Fou” de Jean-Luc Godard, em seguida: “Barton Fink – Delírios de Hollywood” dos Irmãos Coen, “Rashomon” de Akira Kurosawa; “Estrada Perdida” de Davi Lynch”, “Um dia, um gato… de Vojtech Jasny” e “Ondas do Destino”, filme de 1996 do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, encerrando as sessões do ano.

A alteração do dia de exibição (de quarta para sábado) foi estratégica, amplificou o alcance de participação no evento que, atrelada aos diversos lançamentos e a construção de uma grade periódica e atrativa – contribuiu para o aumento de visitantes. O saldo de público nesses meses foi bastante positivo, visto que, em comparação com 2014, o aumento de espectadores foi significante, cerca de 35%.

A manutenção dessa plateia cativa – e em franca ascensão – é resultado de um esforço mútuo entre os envolvidos. Além da exibição gratuita (que reforça o discurso inclusivo), o diálogo direto pós-filme com a participação de realizadores e estudiosos, revela o interesse de um público fiel participativo, uma das principais características dos cineclubes.

Criador do Cineclube Walter da Silveira e à frente da DIMAS desde maio do ano passado, o ator, diretor e publicitário Bertrand Duarte, conversou com a coluna “Rocha)S(“ e contou – com exclusividade – um pouco do desafio de gerir um órgão cultural do Estado, no trabalho de criação da sua equipe e dos novos projetos que estão por vir.

 

1.) Em seus respeitáveis 30 anos de carreira, você brilhou nos palcos, fez trabalhos importantes na TV, foi sócio de uma agência de publicidade, interpretou papéis emblemáticos no cinema e em maio de 2015 foi empossado como novo diretor da DIMAS (Diretoria de Audiovisual) da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Aceitar o convite da Fernanda Tourinho (Diretora Geral da FUNCEB) foi um desafio que de alguma forma provocou certo receio ou desconforto por te levar do papel de artista ao de gestor cultural?

O desafio é sempre interessante. Porém, a minha atividade como gestor foi iniciada há muito tempo. As minhas primeiras incursões no teatro, no início dos anos 80,  eu era o próprio produtor do meu grupo, o TEATRAMPO. Cuidava tanto da produção executiva, quanto da comunicação e do marketing das nossas montagens.  Em 1986 fui convidado pelo Secretário de Projetos Especiais da Prefeitura de Salvador, Roberto Pinho, para coordenar o projeto BOCA DE BRASA. O BOCA, consistia em identificar talentos naturais nos bairros periféricos e apresenta-los em palcos móveis. Não era uma coisa aleatória. Desenvolvemos toda uma sistemática para levantar e revelar esses talentos. Muitos desses artistas foram beneficiados por esta exposição e entraram para o mercado da música, da dança e até do teatro e se profissionalizaram. Depois, como fundador de uma agência de publicidade que até hoje está no mercado, permaneci como CEO do negócio por 18 anos, onde prospectei e atendi a clientes das áreas privada e pública. Coordenar e dar diretrizes em minhas atividades laboriais e artísticas sempre foram uma coisa natural em minha vida. Meu primeiro emprego, aos 15 anos foi na área administrativa e isso foi uma grande escola de gestão, que nada mais é do que um entendimento da administração acompanhado de um olhar holístico sobre o que você está regendo.

 

2.) Entre os principais projetos implantados na sua gestão está o “Corte Seco”. O programa apresentado por Heraldo de Deus e Lis Schwabacher e exibido na fan page da DIMAS no Facebook, faz um panorama da cena audiovisual baiana trazendo entrevistas, notícias de lançamentos, e curiosidades dos filmes e das produções em cartaz. Divulgação e visibilidade são um dos caminhos para uma maior reverberação do Cinema na Bahia?

A TV DIMAS  é o canal do audiovisual da Bahia. As gestões anteriores já vinham criando conteúdo e conversando com pessoas – principalmente os diretores – que produzem vídeo e cinema no estado. Sentimos que precisávamos nos impor um desafio de falar sobre o que acontece nessa área, toda semana, exceto os momentos onde isso não é possível como o Carnaval, etc. Deu certo. Somando todas as edições já ultrapassamos 80 mil visualizações. O CORTE SECO também é nossa ferramenta de divulgação da nossa programação da Sala Walter  e a prova que o audiovisual da Bahia, mesmo com todas as nossas defasagens em relação ao sul-sudeste, está de vento em popa.

 

3.) Como funciona o processo de criação da sua equipe?

Temos vários departamentos na DIMAS: comunicação, produção, administração, memória, programação,
duas salas de cinema, espaços multiuso para os nossos eventos e para apoio a eventos de terceiros. Procuro motivar a minha equipe mostrando o que o resultado de uma ação provoca de positivo sobre a nossa imagem e o que isso vai gerar de referencial para cada um nos seus currículos. Gosto do modelo não verticalizado de gestão onde qualquer um pode apontar algo que está errado ou contribuir com suas sugestões. Mas sou direto e muito exigente quando os processos emperram por algum tipo de negligência. Lidar com pessoas requer atenção redobrada e muito diálogo.

 

4.) Qual o papel dos Cineclubes Baianos – em especial o do Cineclube Walter da Silveira – na afirmação e representatividade da cultura cineclubista local e nacional?

Os Cineclubes são células de culto ao cinema e também o canal  para que pessoas que nunca tiveram contato com a sétima arte, possam vivenciar essa experiência. A responsabilidade em torno do que mostrar é que é o xis da questão. Temos um manancial de excelentes filmes brasileiros e precisamos mostrar para os brasileiros que só assistem a TV, que não leem livros e que sequer vão ao teatro, que existe um cinema nacional vivo e identitário. Um cinema que espelha a nossa gente e a nossa cultura nas mais variadas matizes. Portanto, o papel dos cineclubes é também de formação de novas plateias e de tentar tirar do ostracismo cultural crianças, jovens e velhos que ainda não chegaram diante de uma tela de cinema. Infelizmente no Brasil isso é uma realidade. 

 

5.) No último cineclube do ano passado um trecho da sua fala me chamou muita atenção. Em linhas gerais você citou as cobranças por parte do público e as dificuldades de exibir filmes brasileiros nas sessões. Em sua opinião essas dificuldades são reflexos de algo específico da indústria cinematográfica brasileira ou é um problema restrito a questão de direitos autores e/ou de exibição?

Os filmes brasileiros estão em sua maioria – ligados a direitos autorais controlados pelos seus produtores, depois que estes saem dos contratos com as distribuidoras. Então fica muito difícil negociar individualmente com cada um desses produtores. Estamos tentando estabelecer acordos com eles, mas, no caso do Estado, não podemos fazer essa compra aleatoriamente e temos que obedecer a critérios e regras estabelecidos para compra de direitos pelo Governo. Ainda não chegamos a um consenso sobre o assunto e estamos tentando também a liberação gratuita de alguns desses filmes, uma vez que as exibições no Cineclube Walter da Silveira são gratuitas e a finalidade é cultural e educativa. No caso dos filmes estrangeiros, temos parcerias com o MAM e muitos cineastas estão em distribuidoras que fazem parte de contrato de distribuição que o Governo constantemente renova.

 

6.) E as sessões do Cineclube da Walter já têm data para voltar? 

O próximo Cineclube Walter da Silveira – o primeiro de 2016 – será no dia 27 de fevereiro, às 17:00h com a exibição do filme “O Jogador” do norte-americano Robert Altman. Este filme aborda a decadência das grandes produtoras de Hollywood no final dos anos 50. Achamos interessante fazer um paralelo com a decadência do chamado Star System da era de ouro de Hollywood e as perdas substanciais pelas quais os grandes players de comunicação do Brasil estão passando com o advento da internet e o que ela vem gerando de mudanças nos hábitos do consumo de conteúdo no país. Vai ser uma discussão bem interessante depois da exibição.

 

7.) A DIMAS tem algum novo projeto em desenvolvimento?

Sim. Estamos com uma unidade do Cineclube Itinerante Walter da Silveira praticamente pronta para levar cinema aos Centros Culturais do interior da Bahia e às escolas da rede pública. Esta unidade também terá uma sinergia com o movimento cineclubista do Estado e pretendendo ir a lugares onde eles ainda não chegaram. Sem dúvida, será um desafio muito interessante.

 

8.) A classe de profissionais do audiovisual da Bahia reclama de um hiato de dois anos sem a publicação do edital da DIMAS para produção de filmes. O que tem a dizer sobre isso? 

Desde a minha chegada na DIMAS, buscamos desenvolver entendimentos entre a classe do audiovisual e o Secretário Jorge Portugal, no sentido de  pauta-lo quanto as atualizações e a realidade do setor. Buscamos caminhos, inclusive, para aumentar a verba até então aplicada. Enviamos carta de intenção para a ANCINE e optamos pela linha de apoio e fomento contida no PRODAV2. Esta linha de financiamento para o cinema nacional, coloca o dobro do que os governos estaduais e Prefeituras das capitais se comprometerem em aplicar. Dentro de alguns dias, acredito, teremos uma excelente notícia para o setor, pois teremos uma verba recorde, nunca antes aplicada, que vai transformar a nossa realidade. 

 
9.) E além da DIMAS, quais as novidades do ator de Bertrand Duarte para este ano?

O ano de 2015 foi muito movimentado para mim também nos sets de cinema de diretores como Edgard Navarro, que está em fase de finalização do seu novo longa “Abaixo a gravidade”. Pelo que fiz no set e pelo desafio do personagem é uma das minhas grandes expectativas. Mas também aguardo ansioso por dois trabalhos que fiz com Bernard Attal, que me encantou pelo modo como me dirigiu. Um destes trabalhos com Attal é uma pequena e divertida participação na comédia “A finada mãe da madame” e o outro, já bem mais profundo, foi o personagem do Rei Creonte numa versão contemporânea, para um documentário-ficção sobre o assassinato de um jovem na periferia de Salvador que teve grande repercussão. O filme ainda não tem título definitivo, mas acho que fiz um belo trabalho de interpretação ao lado da atriz Paula Carneiro que interpretou a personagem Antígona. Aguardo também, a estreia em Salvador do filme “A noite escura da alma” de Henrique Dantas, também um documentário-ficção sobre a tortura durante o regime militar na Bahia, que já esteve em dois festivais e foi muito bem recebido. E no momento faço uma participação na primeira fase da nova novela das 21 horas da Globo, “Velho Chico”, de Benedito Rui Barbosa, onde faço o papel de Osório, um influente fazendeiro que contracena com o coronel da região, interpretado por Rodrigo Santoro.

 

10.) Algum recado especial?

Sim claro. Se liguem na programação da Sala Walter da Silveira. Toda semana tem lançamento de filmes internacionais, a preços populares, com o mesmo conforto das outras salas de cinema da cidade. Além da nossa programação cult com o Cineclube Walter da Silveira, uma vez por mês, promovemos várias mostras especiais enfocando atores e diretores É programação de primeiríssima linha, garantida!

 

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