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Crítica: O Filho de Saul

O Filho de Saul está indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e é o grande favorito ao prêmio.

Ficha técnica:
Direção: László Nemes
Roteiro: László Nemes e Clara Royer
Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont
Lançamento e nacionalidade: Hungria, 2015 (04 de fevereiro no Brasil)

Sinopse: Saul é um judeu húngaro que é obrigado a trabalhar para os nazistas nos campos de concentração. Após identificar o corpo de uma criança ele resolve passar por cima de tudo para honrar os ritos judaicos.

Não sei se o fato do gênero estar saturado afetou a minha boa vontade com o filme. Acho que não, já que Labirinto de Mentiras, que ficou no top 9 do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, também trata fatos ocorridos no Holocausto e considerei uma obra muito melhor realizada. Ressalva inicial dada vamos à análise…

Temos aqui a história de Saul, judeu húngaro, que se tornou prisioneiro/trabalhador forçado nos campos de concentração da época do holocausto. Ele tem a ingrata tarefa de limpar os ambientes onde os judeus são mortos nos famosos “banhos”. Saul cuida também da remoção dos pertences e dos próprios corpos em si. Ele se depara com o corpo de um menino e decide tentar dar para ele um enterro digno, segundo as tradições judaicas.

Géza Röhrig, que interpreta Saul, faz um excelente trabalho ao mostrar um homem taciturno, ele fala muito pouco o filme todo – mas o faz de forma precisa. Além de evidenciar uma forte determinação, a ponto de arrancar suspiros do público, no sentido de “não acredito que ele vai continuar tentando”.

As cenas dramáticas com a morte dos judeus, notadamente no começo da trama, não são mostradas de forma explícitas e vemos os corpos após o momento fatal com a nudez preservada na maior parte do tempo desfocando as partes íntimas (opção interessante).

O diretor László Nemes utiliza a câmera na mão em vários momentos. Entramos nos ambientes a partir daquele ângulo que pega a nuca do personagem e sem cortes (plano sequência). Isso dá uma sensação de que somos jogados naqueles locais e vamos os conhecendo pelos olhos de Saul. Ressaltando a sensação claustrofóbica e labiríntica daquele lugar. Mas o artifício fica cansativo na terceira cena, principalmente quando há uma certa tremida na câmera. Há também o uso de closes para marcar o foco no drama de Saul (também realçado pela razão de aspecto da tela, mais quadrada aqui – outro ponto que nos gera claustrofobia).

Há vários outros personagens na trama, mas sem grande profundidade, tendo papeis apenas funcionais. Apesar de tipos bem marcados, tem-se uma certa confusão sobre as patentes de cada um e quem manda onde e por quê.

Um outro ponto que me incomodou muito foram as conveniências. Volta e meia o nosso protagonista se coloca em uma posição difícil e vem aquela mãozinha para ajudar, o deus ex machina (onde aparece um elemento externo para salvar o dia) é muito presente aqui. Inclusive na cena final há uma ironia (muito boa, aliás) que perde força pelo uso desse recurso.

O Saul daria um ótimo personagem secundário para compor uma trama maior. Portanto, acho que o corte feito aqui, que sim há um quê de originalidade, foi infeliz. Da forma como foi realizado não gera tanta empatia. E a pouca simpatia que temos é devido a ele ser o protagonista e do outro lado estarem os nazistas. Mas se os ideias dele fossem colocados como antagonistas do filme, o público trocaria o adjetivo destemido por insano, devido às consequências que os atos dele geram.

Holocausto é um coringa no cinema: ficamos facilmente tristes, choramos e nos compadecemos quando vemos aquele tema em tela. Mas isso não pode ser suficiente para sustentar uma obra. Mesmo aqui onde a proposta nem é tanto o holocausto em si, mas a religiosidade e determinação de um homem, temos um certo ar de já vimos isso antes, mesmo tendo algo de original.

Sobre o Oscar, O Filho de Saul deve levar na categoria que está concorrendo, já que está abocanhando tudo nas premiações pré-Oscar, como por exemplo o Globo de Ouro (porém devemos lembrar que Ida nem de longe era favorito ano passado e acabou surpreendendo). Mas com tantos outros filmes bons na categoria – e que sequer ficaram na lista final – A comédia O Novíssimo Testamento (belga), o já citado Labirinto de Mentiras (Alemão) e o nacional Que horas ela Volta? – dá um certo gosto amargo ao pesarmos que aqueles são superiores ao somente mediano drama Húngaro.

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