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Crítica: Chico Artista Brasileiro

Chico Buarque, gostem ou não do estilo musical e questões políticas à parte, é um dos artistas mais renomados do nosso país.

Ficha Técnica: 

Direção: Miguel Faria Jr.
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 26 de novembro de 2015

Sinopse: documentário que nos traz boa parte da vida e obra de Chico Buarque de Hollanda.

De antemão já elenco dois problemas aqui: a falta de legenda abaixo dos nomes das pessoas que dão depoimentos (tudo bem que a maioria é bem conhecida, mas custa colocar: “irmã”, “neta”, “cantor”, etc?) e, o mais grave, a abordagem é bem chapa branca (algo costumeiro em filmes do gênero). Quis colocar logo as duas coisas que me incomodaram, pois só irei falar bem daqui pra frente.

Quem é fã vai, claro, deleitar-se com os clássicos cantados na voz de Chico e de outros vários artistas que fazem participações para lá de especiais: Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Adriana Calcanhoto, Péricles, Edu Lobo… sempre entrando em momentos muito pertinentes com a história narrada e dando um vigor ao que nos é mostrado.

Mas o documentário vai muito além, não é só um grande show. Pincela alguns momentos desde a infância até um tempo bem recente. Boa parte da história narrada pelo próprio Chico Buarque na atualidade e com muito bom humor e em uma cadência característica.

O sucesso desde jovem, principalmente com a música “A Banda”, o casamento com a atriz Marieta Severo (apesar de não dizer o motivo do término), os tempos difíceis em Roma – enquanto o Brasil vivia o início da ditadura – e até o Chico ator de cinema (bem canastrão, diga-se passagem) são alguns dos pontos retratados no longa.

Todavia o pulo do gato é quando ele fala de algum assunto, por assim dizer, “filosófico” ou de como é o processo de criação. Uma das primeiras falas é ele dizendo que tudo é memória. E a diferencia da imaginação, sabendo que ambas se confundem. Ótimo jeito de começar uma biografia, não?

Muito bonita a maneira que ele explica como lidou com a solidão após o término de 30 anos de casado. E também quando ele fala do Tom Jobim e do Vinícius de Morais, ressaltando a genialidade dos companheiros, elucida que quando tentam imitá-los tendem a falhar. Que a solução é ser muito bom, mas de forma original. Para quem sabe, dessa forma, ecoá-los de alguma forma.

O período de censura no Brasil é bem focalizado. São mostradas as letras originais e os motivos dos vetos praticados pelos os censores. Quando Chico vai para Roma e é questionado pelos repórteres locais sobre o que está ocorrendo no Brasil, fica claramente desconfortável e se esquiva das respostas dizendo que não pode falar sobre o assunto. Mais tarde ele explica que algumas letras da época foram feitas com raiva, e confessa que isso não era bom. Inclusive que algumas músicas hoje perdem força e não fazem mais sentido.

Sobre o processo de criação das canções ele nos relata que, a priori, elas não são autobiográficas (tem até um hilário momento onde ele é perguntado se ele seria gay. Chico responde que ele não é, mas algo como o eu lírico dele é gay, mulher, jovem e tantas outras coisas). Posteriormente, porém, ele declara que vai associando as letras com momentos da vida dele e descobre o motivo de escrevê-las. Ele separa, de forma bem didática, a forma como a melodia e a letra são construídas na cabeça e a origem de ambas. E admite que quanto mais sabe sabe mais difícil está de produzir.

Há uma narração feita pela saudosa Marília Pêra ao longo de todo o documentário que é a melhor coisa aqui. Nos é mostrado o lado escrito de Chico (inclusive com ele nos dizendo que se considera mais escritor do que músico). E o desfecho desse ponto, no final do filme, conduzido de uma forma muitíssimo emocionante. Não vou dizer o que acontece, mesmo um pouco óbvio acho que vale a descoberta na hora.

Exibido em pouquíssimas salas e nos últimos momentos em cartaz, Chico Artista Brasileiro é uma obra bem dirigida pelo Miguel Faria Jr (que já fez outros documentários biográficos) e principalmente é uma aula de boa música com uma narrativa deliciosamente professoral – no melhor sentido da palavra.

E para terminar um trecho de “Meu Caro Amigo”:

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

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