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Crítica: Joy: o nome do sucesso

Joy: o nome do sucesso foi indicado ao Oscar na categoria melhor atriz para a Jennifer Lawrence.

Ficha Técnica:
Direção e Roteiro: David O. Russel
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Edgar Ramirez, Virginia Madsen, Dascha Polanco
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2015 (21 de janeiro de 2015 no Brasil)

 

Quando Perdido em Marte foi classificado como comédia no Globo de Ouro muita gente torceu o nariz. Mas eu ri muito mais na aventura espacial do que em Joy: o nome do sucesso (para não falar nas animações como O Bom Dinossauro e Snoopy). Alguns podem alegar que o filme é uma comédia dramática… aí as coisas complicam ainda mais. Há pouca ou nenhuma carga dramática aqui.


O filme começa com uma narração da avó de Joy, esse recurso perpassa o longa em momentos pontuais. Não chega a incomodar, mas acrescenta pouco ou nada. A história poderia ter fluído sem esse recurso. A apresentação dos personagens é caricata e o desenvolvimento é pior ainda. O que, já sendo um desperdício por si só, é ainda mais desastroso tendo em vista que temos, dentre os três atores principais, 14 indicações ao Oscar.


Praticamente metade do filme é destinada a mostrar os conflitos da família de Joy e as tentativas frustradas dela obter êxito com um produto que ela criou (um esfregão, que parece ser bem útil aliás). Pouca coisa funciona aqui. A caótica casa que ela vive abarca tipos como a mãe viciada em telenovelas que mal sai da cama, o ex-marido que vive no porão – apresentado em um flashback bem esquisito-, a avó que se limita a dar dicas no sentido “confie em você” ou coisa do tipo, um casal de filhos – o menino sem função na trama (diferente da menina que mesmo não tendo grandes momentos fez uma atuação digna), uma meia irmã vilanesca e o pai, que por um tempo também vive no porão, e que tem tantas características que fica difícil até de enumerar: raivoso, trabalhador, preconceituoso, teimoso… o que poderia denotar uma complexidade é só falta de identidade mesmo. Além de Joy, é claro, uma mulher batalhadora, destemida, criativa e mãe preocupada (ela apresenta outras características, mas injustificáveis no roteiro).

 

Tal como a protagonista, o filme em si tem várias boas ideias, mas não sabe como vendê-las para o público. Quase nada que nos é trazido tem profundidade. Começa mostrando uma cena de uma novela onde os atores e o texto são dignos de um Framboesa de Ouro (trofeu dado aos piores momentos do cinema). Pensei que poderia ter grandes reflexões sobre, mas temos referências nadas sutis perpassando o filme como um todo e nenhuma que possa fazer o telespectador rir, se emocionar ou pensar… além de todos aqueles adjetivos que elenquei sobre os personagens só servirem ao clichê ou à ausência de sentido.

Quando vai para a segunda metade vemos que a primeira parte não foi tão ruim. E sentimos saudade das tentativas (eles tentaram?) de nos fazer rir e daqueles momentos com a família maluca. Há um suspense completamente desnecessário no surgimento do Bradley Cooper em tela, com um movimento de câmera injustificável. Quando parece que a trama vai engrenar (juro que me ajeitei na cadeira confiando que ia dar certo) temos um festival de cenas inverossímeis e absurdas (e não de um absurdo divertido) que faz você pensar: “isso não poderia acontecer desta forma”. Há duas cenas que a Joy invade locais distintos. Em um esperava-se ter um mínimo de segurança e não há qualquer manifestação contrária. Na outra, até tem uma consequência, mas todo o caminho é de uma conveniência incrível e de uma construção pobre – o pior é que o momento é bem importante para a história. Além de conhecermos facetas da personagem que não há elementos anteriores que possam explicar tamanha perícia.

O roteiro do David O. Russel é fraquíssimo. Além do que já foi colocado, vale o destaque (negativo) para momentos expositivos demais, um desenrolar óbvio e sem vigor e problemas de identidade. A câmera também não ajuda. Há um artifício de mostrar o rosto de cada personagem em cena (usado umas duas vezes) que poderia até funcionar, caso a expressão deles não fosse a mesma ou completamente esperada. A escolha do diretor foi infeliz não só neste momento, diga-se de passagem. Algo na edição também me incomodou. O ritmo do filme não é um problema (as duas horas, ainda bem, passam rápido), mas a montagem das cenas parece não foram bem acabada em alguns momentos.


Quanto às atuações destaco a Dascha Polanco, que faz Jackie (amiga da Joy). Ela serve bem como escada para a protagonista e é um personagem que faz sentido e uma das poucas coisas sóbrias da trama. Robert de Niro está mais para o que apresentou em Entrando Numa Fria ou Um Senhor Estagiário do que O Poderoso Chefão ou Touro Indomável. Bradley Cooper faz a cara de Bradley Cooper de sempre, salvo quando atuou em Sniper (onde ele dá um peso ao personagem frio e perturbado). Eu gostaria de dizer que a Jenifer fez algo brilhante e que a indicação ao Oscar foi merecida, mas….. bem, ela de fato transparece de modo correto sentimentos variados e tem alguns momentos que vemos um bom trabalho. Mas várias vezes isso cai por terra. Sei que seria uma indicação improvável, mas a nossa Regina Casé se mostrou muito mais competente, expressiva e consistente. Exemplifico a minha crítica à atuação de Jennifer com um momento no qual ela é apresentada a algo incrível e a reação dela é um grandiloquente: “nossa…” e com uma expressão tão insossa que lembrarei de Joy como o nome do fracasso.

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