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Crítica: Beasts of no Nation

Beasts of no Nation primeiro longa da Netflix pode ser resumido com a citação: “Sol, por que está brilhando neste mundo? Estou esperando para pegar você com as minhas mãos, espremer tanto que não poderá brilhar mais. Assim, tudo será escuro e ninguém terá que ver todas as coias terríveis que estão acontecendo aqui.”

Essa passagem, dita no filme, revela o tom do que vemos aqui. Beasts of no Nation é a história de Agu, um menino (não é marcado um país específico) que tem a infância destroçada devido a uma guerra civil. Ele alterna momentos de criança, como a brincadeira com a televisão “mágica” com a obrigação de fazer coisas que cruéis para pessoas de qualquer idade. Pela temática e pela sinceridade nas atuações, lembra o filme brasileiro: Cidade de Deus (este com um ritmo muito mais convidativo).

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O longa é poeticamente pesado (ilustrado pelo trecho que destaquei no começo), e não alivia em momento algum. A atuação do brilhante menino Abraham Attah, o Agu, não parece uma atuação, mas sim que ele viveu tudo aquilo, o que reforça ainda mais o drama do filme (difícil lembrar de 5 atuações infantis melhores que esta). Já Idris Elba, o Comandante, é um personagem dúbio: paternal e aterrador, com presença muito forte principalmente no segundo arco da trama.

 


A fotografia e a direção (ambas do Cary Joji Fukunaga) funcionam bem. A cinematografia mescla visuais lindos, claros, coloridos em meio às trevas da vida daquele menino, sendo uma cruel ironia. A opção de colocar uma narração em todo filme, feita pelo próprio Agu, funciona na maior parte do tempo. Servindo até de alívio para as cenas e ajuda a conduzir a história sem comprometer ou explicando o óbvio (o filme A Travessia poderia aprender aqui).

Os personagens secundários cumprem bem o papel deles, a maioria com poucos diálogos, mas suficiente para entendermos as motivações e até para nos apegarmos – principalmente dois deles. Os planos-sequências (especialmente um em uma trincheira) são bem utilizados.

 

A última parte do filme é um pouco arrastada, principalmente em relação as outras duas anteriores, com algumas cenas desnecessárias e resoluções meio estranhas. Mostrando uma inconsistência no trabalho de direção. A parte artística é deixada de lado e a obra perde vigor. O filme poderia ter uns 20 minutos a menos. Mas, de certa forma, se recupera nas cenas finais principalmente no diálogo de Agu.

Temos uma história linear de fácil compreensão, contudo não é para qualquer um. O amargor que fica durante e após o longa não é uma experiência agradável. Haja estômago para ver o que está sendo dilacerado diante dos nossos olhos: a inocência de uma criança.

Beasts of no Nation pode se considerado uma das principais ausências do Oscar, talvez a principal. Em algumas categorias ele poderia ter figurado, havia possibilidade dele vir para melhor filme, diretor, ator e fotografia. Mas o maior deslise foi não ter Idris Elba lembrado em Ator Coadjuvante (reforçando a polêmica de não termos atores e atrizes negros nos dois últimos anos da premiação). Foi o primeiro filme feito pela Netflix, e esse pode ser um dos fatores que levaram a academia ignorá-lo. Mas, com algumas ressalvas, foi uma bela estreia do site de streaming.

Segue o trailer, mas ressalto a presença de spoiler. Contudo evidencia muito bem o tom do filme:

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