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Crítica: Spotlight – segredos revelados

Spotlight, filme que estreou dia 07 de janeiro no Brasil, narra a história de uma equipe (a Spotlight) de um jornal americano que, no começo dos anos 2000, investiga denúncias de pedofilia cometidas por padres na região de Boston. Em pouco tempo eles veem que a amplitude da questão é muito maior do que eles haviam imaginado. Baseado em fatos reais, Spotlight mexe com dois temas bem sensíveis: violência sexual contra crianças e religião, mais especificamente a católica. local
A ressalva é importante: não é um filme que crítica a fé individual, mas sim a instituição. A Igreja é mostrada como cúmplice dos atos praticados e, muitas vezes, como agente ativo. Há também críticas ao sistema jurídico e ao jornalismo (neste último acho que pegaram um pouco leve, mas é bastante compreensível diante da abordagem em tela). O Jornalismo aliás, é o carro-chefe do filme. Temos uma aula como raras vezes vemos no cinema (e até na faculdade).

A direção é do Tom McCarthy e o roteiro é também assinado por ele junto com o Josh Singer. O McCarthy como diretor ainda não tinha feito nada de espetacular (teve o bom O Visitante, mas também dirigiu o Trocando os pés…). Mas tudo muda aqui nesta obra-prima: ele consegue imprimir um tom muito acelerado e ao mesmo tempo, tem paciência para nos mostrar a história que ele quer contar. Inclusive dando, em alguns momentos, a sensação de uma falsa lentidão. O senso de urgência é constante e tão bem trabalhado quanto o drama. Podemos, portanto, sentir o ritmo frenético da redação de um jornal e também absorver as descobertas feitas pelos personagens.

Apesar de ser um elenco numeroso não é difícil sentirmos empatia e compramos a verdade de cada um. Temos, na linha de frente, Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Brian d’Arcy James, Liev Schreiber, todos excelentes separados e funcionando principalmente juntos. O bom tempo de tela permite pelo menos uma grande cena para cada um. E mesmo os personagens secundários nos trazem um raro vigor e diálogos muitos precisos.

As poucas cenas de humor (que são alentos necessários aqui), são desencadeadas, no geral, por um sorriso de incredulidade pelo que está sendo mostrado, já que o ar grave do que nos é evidenciado pesa bastante (há duas cenas, mais para o final do filme, envolvendo crianças que explicitam bem esse ponto, momentos sublimemente construídos).

Há uma lembrança, pela forma como o caso é tratado, com o que vemos em “Labirinto de Mentiras” (que estreou no Brasil no final de 2015 e está na briga para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro). Mas, mesmo o filme alemão sendo uma obra bem digna, Spotlight é bem superior em todos os sentidos. Vale também a comparação, também, com As Sufragistas, onde temos uma excelente história (a briga das mulheres para exercerem o direito ao voto), mas que foi um tanto desperdiçada. Já em Spotlight os aspectos técnicos funcionam em prol da história a ser revelada.

O filme está presente no Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme de Drama, Direção e Roteiro e deve ser indicado ao Oscar de 2016 em todas, até agora é o meu favorito para levar o prêmio principal nas duas premiações. Além das categorias mencionadas, há um monólogo do Mark Ruffalo que não seria exagero ele ser lembrado devido àquela passagem (além do curioso fato de vermos o Hulk confrontando o Birdman).

Spotlight é um filme que deixa o público tenso e gera uma boa sensação amarga ao sair do cinema. O entretenimento pipoca é deixado de lado. Mas ainda assim, ouso dizer que é uma obra que merece muito ser vista por todos. Assistir na telona não traz grandes benefícios, tal como em Star Wars, Mad Max ou Os Oito Odiados, mas recomendo irem sim ver no cinema o provável vencedor do Oscar de 2016.
Esta é primeira crítica que escrevo para o Cinem(ação) e espero contribuir com outras tantas e de filmes excelentes como este.

[Atualização, 14/01/2016, pós-indicação ao Oscar: o filme foi indicado para melhor filme, direção, roteiro original, montagem, ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e atriz coadjuvante (Rachel McAdams)]

  • Nota Geral
5

Resumo

Roteiro primoroso, atuações fortes e uma direção precisa compõem os principais elementos do favorito ao Oscar de 2016.

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