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Crítica: Jogos Vorazes: A Esperança – O Final

JogosVorazesAEsperancaOFinal_posterÉ curioso, interessante e louvável que a franquia “Jogos Vorazes” esteja mergulhada em referências de seu tempo. Dos reality shows dissimulados e manipuladores como o Big Brother aos levantes populares contra regimes ditatoriais que acabaram levando a governos ainda piores, a franquia passa por debates sobre a política do pão e circo (o nome do país fictício só não tem o “et circensis” do latim) e ainda traz uma protagonista feminina forte que não apenas simboliza uma revolução como tem uma espécie de triângulo amoroso que deixa em segundo plano diante dos problemas que enfrenta – embora este seja um dos pontos a se criticar no último longa da franquia.

Embora a trama do livro “A Esperança” se enfraqueça diante da quebra da narrativa em dois filmes, este não é o pior dos problemas. Na história de “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”, acompanhamos os momentos derradeiros da revolta do Distrito 13, que se esforça para invadir a Capital, ainda comandada pelo Presidente Snow. Katniss Everdeen, símbolo da revolução, tenta se reaproximar de Peeta enquanto vai à batalha, ainda que mais como uma forma de propaganda da luta do que propriamente a linha de frente da guerra civil na qual se encontra Panem. Ao mesmo tempo em que a narrativa foca demais no relacionamento de Katniss com Peeta e Gale, com beijos e diálogos sofríveis, indo de encontro à maneira com que os filmes anteriores lidavam com esta questão, o espectador acompanha alguns acontecimentos que, ainda que muito fiéis ao livro, se tornam pouco funcionais no cinema: a maneira rápida com que a trama resolve o problema de Gale, o jeito rápido como é mostrada uma importante decisão da presidenta Alma Coin sobre os cidadãos da Capital, e o surgimento de personagens na equipe de Katniss que servem apenas para morrer ao longo da trama, na tentativa de criar uma sensação de urgência, que nunca se concretiza devido à pouca importância que a trama dá a estes (quem se importa com a irmãs que ficam sozinhas no prédio?).

Com momentos muito inspirados, como a sequência de ação que se passa no esgoto repleta de suspense e tensão, além de um design de produção cuidadoso que transforma a então capital colorida em um cenário de destruição, bem como uma eficiente trilha sonora (que não cai na armadilha do clichê), “A Esperança – O Final” deve muito de seus pontos fortes às atuações dos principais atores, que vão do competente ao genial. Enquanto Liam Hemsworth e Mahershala Ali fazem de Gale e Boggs personagens importantes e bem interpretados, vale o destaque para Patina Miller, que consegue dar uma importante força à sua personagem, a despeito do desdém que o roteiro tem por sua personagem, que poderia ter mais destaque. Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore, Jena Malone e Josh Hutcherson são excelentes em suas atuações, mantendo a qualidade que deram a seus personagens ao longo da franquia – e amadurecendo-os conforme o roteiro exige. O destaque mais evidente deve ser dado ao já saudoso Philip Seymour Hoffman, cuja sutileza só é minimizada pelo pouco destaque do personagem – e pela ausência em cenas importantes devido à morte precoce do ator; a Donald Sutherland, que sabe fazer um vilão como poucos; e a Jennifer Lawrence, cuja presença marcante e sutilezas nas mudanças de humor e de olhar apenas reforçam a qualidade extraordinária da jovem atriz.

Na tentativa de agradar aos fãs, o longa exagera na fidelidade ao livro. Dentre os problemas que isso causa, está a pouca ênfase a algumas mortes importantes, especialmente a que causaria mais danos à protagonista – e que no longa parece ser apenas mais uma no momento em que ocorre. O final, excessivamente longo, remete ao da trilogia O Senhor dos Anéis: enquanto funciona bem na literatura, torna tudo longo e enfadonho no cinema, e soa ainda pior neste filme devido à maneira nada feminista com que mostra Katniss, o que vai de encontro à construção da personagem ao longo de toda a franquia – e que, aliada a um monólogo pouco orgânico, faz tudo ficar ainda pior.

Assim, é uma pena que o último filme da franquia Jogos Vorazes, ainda que bom, não mantenha a mesma qualidade dos longas anteriores.

3,5/5

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