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“O Paciente Inglês” – (1996)

Pois se a morte fosse o fim de tudo, que imensa vantagem não seria para os desonestos, com a morte, livrarem-se do corpo e da ruindade muito própria, juntamente com a alma? Agora, porém, que se nos revelou imortal, não resta à alma outra impossibilidade, se não for tornar-se, quanto possível, melhor e mais sensata (Platão, Fédon, 107c-d).”

O impacto emocional que a morte provoca é de fato uma constante. Está implícito nos ensinamentos de Sócrates a crença na imortalidade da alma. À respeito dos problemas do além: ou a morte é um sono sem sonhos – e também sem pesadelos, o tempo não parecerá mais longo do que uma única noite. A morte pertence à vida como ela vive em torno dela, é um ciclo vicioso e sem fim.

O tema da morte concerne, em certa medida de forma temática ao filme O Paciente Inglês. O incontrolável, principalmente no decorrer de uma guerra, se faz por certo. Contudo,  é possível reter o previsível quando nos damos conta ou nos confrontamos com um simples diálogo entre o aviador do deserto e um ancião do local quando este descreve ao som de um avião decolando uma montanha no formato das costas de uma mulher. A beleza poética se dá por iniciada então. A fotografia peculiar envolta de uma orquestra regendo o movimento dos aviões no ar como da arte de um amor via olhar, de um avião para o outro de cima para baixo, nos dá a sensação livre e leve de estarmos vivos quase que num ápice do respirar quanto ao cume do não sonoro, do não respiro.

O jogo da amarelinha traz recordações. O barulho e os deslocamentos diante daqueles números pintados à giz num chão de cimento, como um pincelar de uma nota nova ou um despertar de um sono, faz acordar lembranças naquele aviador melancólico, porém apaixonado pela mulher que o conquistou, quando imagina através dos sons que ouve pela janela, àquele olhar um tanto acalentador e de charme que um dia conhecera. A tempestade de areia foi o tempo do toque, do acolher entre os desconhecidos que de flertes à carícias e histórias, tornaram-se cúmplices quando sorriam, se olhavam, lhe davam presentes. “Eu sou a ‘K’ do seu livro? Eu devo ser” –  Katherine pergunta afetuosa. O toque das mãos em seu queixo, de leve, reflete a resposta que desejava, que junto ao silêncio, a noite preenchera de carinho.

Ainda está com areia no seu cabelo”.  O beijo se deu de forma acentuada. O torpor que os uniu desde a tempestade, como da troca mínima de espaço dentro de um carro coberto de areia, se deu por completo naquele quarto de hotel. É possível estar feliz e infeliz ao mesmo tempo?

Nós morremos contendo uma riqueza de amores e tribos, sabores que provamos, corpos em que nos afundamos e onde nadamos como rios de sabedoria, personalidades em que subimos nos agarrando como árvores, temores onde nos ocultamos como cavernas. Desejo que tudo isso fique marcado no meu corpo quando eu morrer. Acredito nessa cartografia – ser marcado pela natureza, não apenas pôr o nosso rótulo sobre um mapa, como os nomes de homens e mulheres ricas nas portarias dos edifícios. Somos histórias comunitárias, livros comunitários. Não somos propriedade única de alguém nem somos monogâmicos no nosso gosto e na nossa experiência. Tudo o que eu queria era andar em uma terra onde não tivesse mapas.” (Michael Ondaatje)

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