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Crítica: Cidades de Papel

CidadesdePapel_posterBrasileiro_cartazMuitas vezes, encontramo-nos vivendo em uma sociedade que nos separa em grupos preconcebidos e nos obriga a seguir uma vida padronizada: terminar o colégio, fazer faculdade, casar e viver em uma casa com um jardim florido… e só então podemos nos considerar felizes. É um padrão americano, mas reproduzido Brasil afora, mundo adentro.

Cidades de Papel“, filme de Jake Schreier, conta a história de Quentin “Q” Jacobsen (Nat Wolff), um rapaz tímido e que faz parte da turma dos nerds da escola, tal qual a maioria dos protagonistas criados pelo escritor John Green, autor do livro original (a única obra do autor que não tem o protagonista “nerd” foi a última a ser publicada e a mais famosa, sendo a primeira a ganhar uma adaptação cinematográfica: “A Culpa é das Estrelas“).

Quentin é apaixonado pela amiga de infância Margo (Cara Delevingne), que se tornou uma das garotas mais “populares” ao fim do colégio e com quem, invariavelmente, ele perdeu contato. Em uma noite, ela pede a ajuda de Quentin em uma série de “aventuras”, e some no dia seguinte, deixando pistas para que o rapaz consiga encontrá-la. A partir de então, ele seguirá em uma busca pela garota, por quem nutre uma paixão, ao lado de seus amigos Radar (Justice Smith) e Ben (Austin Abrams), além das garotas Lacey (Halston Sage), amiga de Margo, e Angela (Jaz Sinclair), namorada de Radar.

Diferente de “A Culpa é das Estrelas”, “Cidades de Papel” ocorre de maneira leve, mas não menos interessante. Além de algumas cenas hilárias (graças à química do elenco e ao ótimo trabalho de Justice Smith e Austin Abrams), o filme conta com questionamentos bastante curiosos e bem relacionados com questões presentes na famosa “geração Y”, como a preferência por viver feliz em vez de almejar a felicidade apenas em longo prazo, ou o confronto com as definições calcificadas pelas gerações anteriores.

Margo é a primeira personagem a confrontar o status quo ao seu redor. Apesar de não parecer, devido aos rótulos das turmas da escola, ela é uma garota deslocada, que precisa se encontrar – e, para tanto, precisa se perder. Quentin, guiado pelo amor à garota, se perde e também se encontra neste road movie.

Bem adaptada para as telas, a trama de John Green se utiliza da metáfora que o título contém: as cidades de papel (locais inexistentes criados por cartógrafos como forma de proteção de copyrights). Como pontos possíveis no mapa, mas inexistentes na realidade, estes espaços se tornam ideais para as pessoas que não se encaixam. Aqui, vale destacar que Quentin parece se encaixar muito bem na sociedade: ele tem seu grupo, seus objetivos delineados (até demais), sua adequação às exigências escolares. É Margo quem sacode seu mundo e o ajuda a crescer. Além de fortalecer suas amizades, Quentin aprende em sua jornada que ninguém é um mito ou uma lenda: todos somos seres humanos, repletos de falhas, sonhos, desejos. Ele também aprende que a felicidade é feita de momentos.

John Green não se tornou “porta-voz” dos jovens à toa: ele compreende o que eles sentem, reproduz o que eles pensam, e os atinge em cheio com suas histórias. Com uma direção segura e excelentes diálogos, “Cidades de Papel” transporta para a tela a mesma simplicidade do livro. Trata-se de uma aventura de crescimento que não inova e nem se propõe a ser grandiosa, mas é honesta e cumpre o que promete. Há, aqui e ali, mudanças em relação ao livro, mas nada que cause qualquer ruptura com a ideia original. Se os personagens de Wolff, Smith e Abrams extraem momentos divertidos, Cara Delevingne consegue carregar sua personagem de mistério e verdade no olhar, com muita ajuda de suas sobrancelhas grossas.

Ainda, o roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber não trata o espectador adolescente como se ele fosse um sonhador irresponsável ou apaixonado irremediável. Cada um é de um jeito, cada amigo é único, e toda história de amor juvenil, um dia, acaba.

No fim das contas, o espectador sai do cinema com a sensação de que, talvez, todos nós sejamos marionetes com cordas que um dia se quebrarão ao morrermos. Mas antes disso, temos a nossa juventude. Temos o aqui. Temos o agora. Isso já nos permite ser, a todo momento, felizes… e é desta maneira que saímos do cinema após “Cidades de Papel“.

 

4/5

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