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Crítica: Ida

por Bárbara Pontelli

Lançamento: 2014

Direção: Pawel Pawlikowski

Roteiro: Pawel Pawlikowski/ Rebecca Lenkiewicz

Eleito o vencedor do Oscar 2015 na categoria de “Melhor filme estrangeiro” e ainda trazendo um intrigante enredo, resolvi conferir o longa polonês Ida.

Ambientado na Polônia, déc. 60, o filme possui como protagonista Anna (Agata Trzebuchowska): uma bela jovem que fora acolhida por um convento, ainda bebê, e fora criada/ educada para tornar-se freira. O drama no entanto tem início, justamente, quando chega o momento do juramento dos votos de castidade e Ida (mais tarde Anna descobre que chama-se Ida e possui origem judia) atende ao pedido de sua mentora que a manda visitar sua tia – única parente viva – antes do tão esperado momento. Embora contrariada, Ida faz sua mala e sozinha ruma para a casa de sua tia Wanda (Agata Kulesza) a qual sequer chegou a conhecê-la. Wanda é tudo aquilo que Ida fora ensinada a ser o oposto: desbocada, aproveita bem a vida….sempre com um cigarro e um drink nas mãos. O encontro das duas poderia ser cômico se não fosse trágico. Após o primeiro encontro, ambas partem em busca do paradeiro dos pais de Ida, ou seja, encontrar onde os corpos de seus pais foram enterrados, mortos em virtude da ocupação nazista. Será durante essa jornada que Ida viverá um outro lado da vida que não imaginava experimentar… a jovem aprendiz de freira terá contato com todos aqueles sentimentos, sensações e situações que só poderiam existir para além dos muros da Igreja em que crescera. Mais do que uma busca pelos corpos dos pais, a nossa protagonista também está em busca de si mesma.

Certamente, Ida é um filme super interessante. Porém, a beleza deste filme está mais nas imagens que na trama …no drama em si. Em primeiro lugar, o filme em preto e branco indica o semblante trágico que paira durante todo o longa: seja na vida sem cor que Ida carrega; sejam nas lembranças e nas feridas da Segunda Guerra, cujas quais, sempre estão presentes – de uma forma ou de outra – e atingem todos os personagens. A escolha dos atores também foi de um golpe de sorte ímpar. Agata Trzebuchowska foi descoberta em um café e este foi seu primeiro trabalho … um ótimo trabalho! Uma pena que a atriz (que na verdade não é atriz e sim uma universitária) já afirmou que não pretende atuar novamente. Entretanto, particularmente, considero Agata Kulesza o maior destaque do filme. A atuação de Kulesza é excelente e consegue ir ainda mais além. A atriz expressa com muita força o papel da tia deprimida. Impossível não sentir o drama que essa mulher bonita, inteligente e – sobretudo – triste, carrega. Perdoamos o fato de ela ter ignorado a existência de sua sobrinha órfã ainda bebê no convento. Conseguimos compreendê-la e perdoá-la pois o fardo que ela carrega é maior que tudo. Na tentativa de redimir-se com a sobrinha, foca todos seus esforços no pedido de encontrar o paradeiro da irmã e do cunhado mortos. Enfim, na minha opinião é dela o maior destaque em termos de atuação.

Outro ponto forte em Ida é o conjunto do enquadramento, fotografia, iluminação… a harmonia dessa seleção ficou muito bem traduzida em um filme visualmente muito bonito. É possível sentir o drama apenas ao observar. As palavras não se fazem necessárias – tal como é perceptível os diálogos enxutos e econômicos. Ida é um filme belo em detalhes visuais. A escolha de diferentes tipos de enquadramentos: ora explora o plano aberto de modo a evidenciar os cenários desoladores; ora explora um enquadramento plongée… cada cena é rodada de um diferente ângulo. O impacto visual é certeiro e nenhuma imagem está lá por acaso. As palavras dão lugar à inexpressividade tão expressiva de Ida … o desespero/ tristeza estão sempre presentes nos olhos de tia Wanda.

Embora um longa recheado de drama, em diversos momentos achei bastante cômica a dupla que se formara: tia Wanda e Ida. Não dá pra negar que ficou no mínimo engraçado uma tia bêbada e uma aprendiz de freira como personagens principais.

Enfim, Ida é um belo filme; um prato cheio para aqueles apreciadores da beleza de detalhes visuais. Particularmente, ainda prefiro roteiros longos, complexos e filmes pra teorizar, digamos assim. Então embora não seja exatamente o meu estilo, reconheço a importância e o encanto de Ida! 🙂

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