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Crítica: Sniper Americano

SniperAmericano_posterO novo filme de Clint Eastwood, que entrou para a corrida do Oscar e conquistou bilheteria invejável nos Estados Unidos, é um desses que promove dúvidas não apenas quanto a sua qualidade, mas também quanto à sua ideologia, chegando até mesmo a criar diferentes interpretações quanto ao ponto de vista apresentado.

Na trama de “Sniper Americano“, acompanhamos a história de Chris Kyle, o atirador mais mortal da história do exército americano, cuja vida se tornou famosa após a publicação de seu livro e, especialmente, sua morte trágica, que o tornou um herói nacional nos Estados Unidos.

Comparado a filmes como “O Nascimento de uma Nação” e “Tropa de Elite”, o longa estrelado por Bradley Cooper realmente pode ser elogiado por suas técnicas narrativas e qualidade fílmicas, mesmo que não se concorde com o ufanismo e outras ideias que contém no filme. Tanto o racismo notório de “O Nascimento de uma Nação” quanto o fascismo discutível de “Tropa de Elite” (que, para muitos, é colocado justamente em xeque) geram divergências, mas ninguém discute a qualidade destes longas. Apenas para citar dois exemplos memoráveis.

O fato é que, além das questões políticas, “Sniper Americano” possui diversos problemas em diferentes áreas, embora tenha seus méritos. Se Bradley Cooper e Sienna Miller garantem ótimas atuações, o longa traz cenas de ação bem elaboradas, uma edição de som realmente competente, e boas soluções para um filme que funciona como uma cinebiografia. Afinal, o filme é bem sucedido quando desenvolve as emoções do protagonista de forma a criar identificação, já que exibe Kyle como um ser humano que busca ser forte mas esconde diversas fraquezas.

Além disso, podemos dizer que poucas cinebiografias simplificam alguns acontecimentos com tanta eficiência, apenas para criar maior fluidez na trama. Afinal, a forma como Kyle decide ir para o exército e sua motivação para “derrotar o vilão” podem parecer reducionistas, mas funcionam muito bem como elementos dramáticos.

É uma pena, portanto, que as questões morais e políticas sejam mostradas de maneira tão covarde, especialmente quando se trata de um filme com grande potencial e influência. Ninguém espera que um filme americano dirigido por Clint Eastwood (republicano conservador, como muitos sabem) se preste a mostrar algum ponto de vista dos iraquianos, por exemplo, mas nem mesmo o mais belicista dos americanos deveria tratar a Guerra do Iraque como algo que é apenas culpa dos atentados de 11 de Setembro (curiosamente, o tema é contestado em uma cena do filme Boyhood). Além disso, o longa não hesita em mostrar, por meio da infância de Chris Kyle, que o certo é ser “um homem bom” mas atuar com violência quando necessário, criando assim uma justificativa não apenas para o protagonista, mas também para toda a atuação dos Estados Unidos nas guerras ao longo da história.

No que diz respeito ao posicionamento de Chris Kyle, fica pouco evidente se o filme critica a guerra e sua influência no psicológico dos militares, ou se apenas coloca esta característica como elemento dramático, já que em nenhum momento se destaca o sofrimento do protagonista por matar mulheres e crianças, por exemplo – tanto que ele apenas afirma não poder fazer ainda mais por seu país.

Aliás, por falar em “defender o país”, o filme também é covarde ao não se aprofundar no fato de que Kyle acredita piamente ir tantas vezes combater no Iraque apenas para proteger os Estados Unidos, deixando pouco claro qual o posicionamento das outras pessoas – o que poderia ocorrer caso mostrassem mais do irmão do protagonista, em vez de só exibi-lo dizendo “foda-se este lugar” com lágrimas nos olhos. Ao criar a figura de um “grande vilão” que, na verdade, é profundamente unidimensional, o filme ainda se exime de mostrar que, ao contrário de Chris Kyle, que tem um lar para voltar e permanecer em paz por algum tempo, talvez este não tenha pra onde ir, já que o seu país é que foi invadido – mesmo que ele seja sírio, como o filme mostra.

Mesmo assim, se considerarmos que há ironia aqui e ali no roteiro do longa (eu prefiro acreditar que ela existe quando Kyle diz que os Estados Unidos são o “greatest country on Earth”), é imperdoável que se considere Chris Kyle como um verdadeiro herói nacional, em vez de um ser humano que sofreu as consequências da guerra. Afinal, ele pode ter sido um bom homem e um bom pai, mas isso não o livra de ter falhas e de ter vivido um período complexo, que merece uma visão menos simplista. Fica a impressão de que Eastwood queria criticar algumas coisas, mas tinha medo de não prestar a homenagem que a família de Kyle queria.

Ah, e os bebês! Os bebês… Como assim? Os bebês!!

3/5

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