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Crítica: À espera de Um Milagre (The Green Mile – 1999)

Recentemente recebi um crítica de um amigo. Foi algo assim: “Pô cara! Você só critica estréia de Blockbuster! Você tem que escrever sobre filmes diferentes!” De imediato ele me deu uma dica de um filme… Porém não é “À Espera de um Milagre” ( The Green Mile – 1999), era outro… mas de certa forma vi razão no que ele disse. De tudo o que escrevi para o Cinem(ação), o texto que teve mais visitas até hoje foi uma crítica sobre o filme “Os Miseráveis” de 1998. Como é um filme no qual pouca gente escreveu sobre… bem… achei interessante copiar a ideia e escrever sobre outro filme da mesma época, e também quero começar o primeiro texto do ano falando sobre coisas boas…

Bem… talvez não fale “apenas” sobre coisas boas… afinal, este é um filme que mostra muitos, mas muitos erros que os seres humanos cometem (apesar de ser um ótimo filme, destes que são até mesmo obrigatórios na vida de um cinéfilo). Mostra a forma brutal que a sociedade em geral (principalmente as pessoas que viveram a grande depressão econômica após 1922) trata as diferenças e o desconhecido. Mas também mostra delicadeza, atenção, cuidado, compaixão…

Vamos começar pelo lado bom! Não… não vou começar a falar sobre o personagem John Coffey (vivido pelo falecido Michael Clarke Duncan) e sim, vou falar do excelente ator (5 indicações ao Oscar de melhor ator, vencendo duas delas, em dois anos seguidos), diretor, e pai de Colin Hanks: Tom Hanks. Hanks pai é um profissional de excelência comprovada, não há como negar, e neste filme ele faz o papel “do cara que você quer ter como amigo”: Paul Edgecomb. Paul é o chefe do pavilhão de execução para condenados à cadeira elétrica em uma cadeia dos E.U.A. Dono de uma moral muito sólida, se um senso de ética consolidado, e de um bom coração. É a pessoa que mantêm a ordem na Milha Verde (nome que dão para o corredor da morte da prisão em questão), mas não com a força, e sim com respeito, dedicação e uma delicadeza sem fim. Quando é preciso, ele usa a força, claro, mas quando isso acontece, você dá muita razão ao homem. O principal destaque é a forma que ele vê o corredor da morte. Ele entende que todos os que estão ali já aprenderam suas lições, sabem que o futuro é curto, e que a vida… bem… a vida não faz muito sentido quando a morte é certa e com data marcada. Edgecomb faz de tudo para que os últimos dias da vida de um ser humano sejam dias bons. Além disso, é o narrador da história.

Agora sim, John Coffey (pronuncia “coffee”, como “café em inglês”, mas se escreve diferente). Seria o personagem principal do filme, se não fosse a presença de Edgecomb. Imagine um cara grande… muito grande… grande o suficiente para deixar o amortecedor de um caminhão no todo encostado no eixo (como mostra uma das primeiras cenas do filme). Ao mesmo tempo que fisicamente era um monstro, o homem tinha uma alma de criança. Uma bondade e uma inocência sem fim. Diferente de Edgecomb, que sabe lidar com a maldade humana, Coffey não sabe isso. Como é tecnicamente uma criança, ele não tem malícia: Ele entende o que é sexo, mas não tem habilidade para lidar com o lado mal da humanidade: a pessoa ideal para carregar um “poder” um “milagre de Deus” que permite a cura de várias doenças, associado à uma sensibilidade sem fim, até mesmo sobrenatural. Além disso, Coffey tem um “defeito” (grave para os E.U.A. da década de 20): ele era negro.

Este “defeito” (que até hoje gera conflitos que deveriam ser coisa do passado distante nos EUA mas não é), associado à falta de malícia e a inocência de Coffey faz com que ele seja preso acusado de estuprar e assassinar duas meninas, duas irmãs brancas e loiras… Ele conhece Edgecomb no corredor da morte após ser julgado, e este último fica fascinado com com Coffey. Não é para menos, apesar da aparência “monstruosa” John é a personificação da bondade, e de tudo o que é bom. Tudo o que pode fazer leva Paul a pensar “tenho o direito de matar um milagre de Deus?”.

É neste ponto que pensamos “o que leva um milagre de Deus para o corredor da morte”? E é nesse ponto que entra o lado mal do filme… Uma sociedade que ainda vê os negros como uma ameaça, e o verdadeiro culpado pelo crime como um amigo da família. Um advogado que faz uma analogia que coloca negros no mesmo patamar de cães domésticos… Mas os principais personagens, as duas personificações máximas do medo, da ganância, da raiva sem sentido, e da ignorância de forma geral são “Percy Wetmore” e “William ‘Wild Bill’ Wharton”.

“Percy Wetmore” (papel de Doug Hutchison) pode ser considerado a representação do medo, da ganância e até mesmo da preguiça. Único sobrinho da esposa do Governador do Estado, Percy pode ser nomeado para qualquer cargo estadual, mas quer trabalhar como guarda na “Milha verde”. Para quê? Para ver as pessoas sofrerem. Gosta de mostrar que está no poder por causa do tio. Gosta de humilhar as pessoas. Não tem muita ética ou moral. Age de forma impulsiva. Irrita os guardas e os prisioneiros. Quando necessita de pulso e coragem, literalmente “se borra”. Ele é a antítese de Edgecomb. No fim, é claro, recebe o que merece.

“Wild Bill” (interpretado por Sam Rockwell, o Justin Hammer de Homem de Ferro 2) é um branco, considerado “bonito” para a época, boa pinta mas mau e cheio de raiva. No filme, ele é definido como “garoto problema”. Mas podemos ir mais longe, podemos dizer que ele é o oposto de Coffey. Um cara definitivamente mau. Um rebelde sem causa que  leva isso muito a sério. O único personagem que leva Edgecomb a usar a força, além de usar a sala estofada (que de tão pouco uso acumula tralhas e ratos). Também teve o que merecia.

Para finalizar, resta responder uma pergunta: o que personagens tão simples, uma história quase linear, um roteiro relativamente simples, e um resultado final do filme quase previsível levam o filme a ser quase obrigatório? Um nome (além do nome de Tom Hanks): Stephen King. O filme é a adaptação do livro “The Green Mile” de King. E apesar da simplicidade dos personagens, o filme é comovente. Já classificado no Podcast Cinem(ação) #101 como “O que nos fazem chorar“. Não é difícil de entender o filme, mas o grande destaque dele são os questionamentos que ele nos faz ter.

Como diria o falecido Chacrinha (estou bem velho… eu lembro do Chacrinha…) “Eu estou aqui para confundir, eu não estou aqui para explicar”, que no caso do filme “À procura de um milagre” as perguntas que ele gera, ou ainda a ferida nos E.U.A. (e no Brasil também, por que não?) que ele expõe acabam sendo muito interessantes para quem gosta de um filme mais intelectual. Para quem gosta de um filme emocionante, também está no lugar certo. Difícil é dizer que este é um filme ruim…

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