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Crítica: Interestelar

“Não adentre gentilmente nesta boa noite”

Em 7 filmes, Christopher Nolan conseguiu se firmar como um dos melhores diretores da atualidade, realizando obras inteligentes, com enredos intrigantes e tramas muitas vezes confusas. Amnésia abriu as portas da indústria para ele, Insônia firmou seu nome, e depois de Batman Begins, sua liberdade na Warner já era moderada. Realizou então, o subestimado O Grande Truque e a obra que considero sua obra-prima: O Cavaleiro das Trevas. Após o inacreditável hype e prêmios em torno do filme, Nolan tinha quase que total liberdade para realizar seu próximo projeto: um suspense de espionagem sobre sonhos, que demorou 10 anos pra ser escrito. Um projeto arriscado que pega uma trama complexa e disfarça de Blockbuster. Liberdade total da Warner. Nascia assim mais uma “pequena” obra -prima do diretor: A Origem. Com seu nome como sinônimo de qualidade, Nolan não conseguiu exatamente superar o hype construído em torno da franquia para a conclusão da Trilogia Batman com O Cavaleiro das Trevas Ressurge (e como poderia? a expectativa dos fãs era imensurável), mas ainda assim realizou uma obra coesa que fazia jus aos outros filmes e encerrou sua trilogia com um final digno.

O que restava, a Nolan, então, como cineasta? um curto período após o lançamento do último filme da trilogia Cavaleiro das Trevas, Chris anunciou seu próximo projeto: ele iria dirigir uma ficção científica a partir de um roteiro escrito pelo seu irmão. O projeto envolvia buracos de minhoca, viagem no tempo e a teoria da relatividade de Albert Einstein, com homenagens à “2001- Uma Odisséia no Espaço”. Promissor certo? A comparação com Odisséia no Espaço, uma das maiores obras do cinema ajuda com a animação dos fãs. Porém, é como diz o ditado, quanto maior o salto, maior a queda. Mas vamos falar mais sobre o projeto:

Originalmente, foi escrito por Jonathan Nolan, irmão de Chris, para Steven Spielberg. Quando Spielberg pulou fora do projeto, Christopher decidiu colocar algumas de suas ideias no roteiro, tornar o projeto mais “seu’. Isto funciona em parte com Interestelar. E é perceptível quais são os momentos “spielberguianos” que permaneceram. A relação entre pais e filhos é comum na filmografia de Spielberg, assim como o núcleo familiar a distância (e posto a prova com algum evento cataclísmico).

Em Interestelar, acompanhamos Cooper (McConaughey), um ex-piloto da NASA que, numa Terra moribunda (onde a humanidade se sustenta apenas das fazendas e plantações de milho e quiabo há anos), deve se juntar a uma equipe de cientistas da NASA para desbravar o espaço em busca de um novo planeta habitável para a humanidade. Enquanto isso, temos a relação do mesmo com sua filha, Murph, enquanto a narrativa permeia por questões científicas, filosóficas e levanta questões sobre amor. no Elenco estão também Jessica Chainstain, Anne Hattaway, Mackenzie Foy, Michael Cane, Casey Affleck, Wes Bentley entre outros.

O filme é um desafio para Nolan, já que o diretor não tem familiaridade com a maioria dos elementos vistos aqui. Os filmes do cineasta são inventivos, complexos e, acima de tudo, racionais (para o bem e para o mal, devido a tendência de se auto explicar). Quando o diretor tem que lidar com emoções, ou “melodrama”, a pieguice muitas vezes impera, como na infame cena em que Hattaway fala sobre como o Amor (sim, com A maiúsculo) é quantificável. Algo parecido ocorre com outro “gênio” do cinema contemporâneo: David Fincher. Ao abordar histórias racionais, o diretor se sai muito bem (“Clube da Luta”, “SEVEN”, “Zodíaco”), mas ao tentar fazer algo que depende de reações emocionais, como em “O Curioso Caso de Benjamin Button” percebe-se sua deficiência. É claro, a obra com Brad Pitt e Cate Blanchett não chega a ser ruim, mas funcionaria melhor nas mãos de, por exemplo, um Robert Zemekis e seu Forest Gump 😉

Esta comparação de diretores foi proposital, já que Nolan busca influências de Kubrick, Spielberg e Tarkovsky. As homenagens visuais a 2001 de Kubrick são muitas. E por falar em 2001, vale ressaltar que as comparações com o filme de Kubrick são válidas. O próprio Nolan já afirmou que alguns momentos de seu filme homenageiam a obra-prima do cineasta. Comparações a Kubrick, clima existencial e filosófico; um filme que quantifica o Amor… A impressão que fica é que Christopher Nolan quis fazer de tudo e acabou se enrolando nas próprias pretensões. Enquanto os dois primeiros atos são sólidos (apesar de problemas de exposição no primeiro ato), o terceiro quase desmorona o filme, com suas divagações existenciais (que não é algo ruim, porém foi feito de forma apressada e um tanto… Deus ex Machina).

Tecnicamente, porém, o filme é excepcional. Há os problemas de mixagem de som confirmados por muitos dos espectadores americanos. A trilha sonora de Hans Zimmer muitas vezes sobrepõe as vozes dos atores, dificultando a compreensão dos que vêem o filme sem legendas. Por falar em Hans Zimmer, a trilha sonora composta por ele é uma das melhores de sua carreira (o problema com a mixagem da mesma no filme não tem nada a ver com sua composição), com órgãos de igreja que remetem ao sagrado. As atuações no geral são sólidas. Os momentos de pieguice são culpa do roteiro, que não se aprofunda nas motivações dos personagens fora do núcleo Cooper/Murphy. Há também um cameo surpresa e muito bem vindo feito por um certo ator de uma certa trilogia de espionagem…

No fim, a impressão que fica com Interestelar é que Nolan quis fazer demais e perdeu o foco. O diretor merece aplausos pela ambição, mas se o foco fosse maior, teríamos uma obra melhor. Com atuações competentes (McConaughey está excelente) e tecnicamente excepcional, o filme peca pelo seu roteiro “defeituoso”, com problemas no terceiro ato que beiram ao ridículo. Nada que estrague os dois atos iniciais, no entanto. Interestelar é “o filme que salvará a humanidade, será um 2001 contemporâneo e será a cura da fome”? não, mas ainda assim é uma obra que vale o ingresso por incitar a discussão filosófica e científica.

E qualquer obra comercial que levante tais questões hoje em dia merece aplausos.

No Podcast Cinem(ação) #112, a equipe do site discute os temas do filme com spoilers: https://cinemacao.com/2014/11/21/podcast-cinemacao-112-interestelar/

  • Nota Geral:
3

Resumo

No fim, a impressão que fica com Interestelar é que Nolan quis fazer demais e perdeu o foco. O diretor merece aplausos pela ambição, mas se o foco fosse maior, teríamos uma obra melhor. Com atuações competentes (McConaughey está excelente) e tecnicamente excepcional, o filme peca pelo seu roteiro “defeituoso”, com problemas no terceiro ato que beiram ao ridículo. Nada que estrague os dois atos iniciais, no entanto. Interestelar é “o filme que salvará a humanidade, será um 2001 contemporâneo e será a cura da fome”? não, mas ainda assim é uma obra que vale o ingresso por incitar a discussão filosófica e científica.

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