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Diretor de “Contos do Amanhã” fala sobre o projeto ambicioso

PedroMarques_diretor_ContosdoAmanhaQuando contamos sobre o filme “Contos do Amanhã“, que teve suas gravações iniciadas e divulgadas aqui, pudemos perceber que trata-se de um projeto bastante ambicioso. Afinal, o longa da produtora Bactéria Filmes é muito maior que o projeto “Porto dos Mortos“, que teve apenas a finalização e efeitos visuais sob sua batuta.

A trama, que vai mostrar depoimentos sobre um crime futuro que levará a uma cidade destruída, vai precisar de muitos efeitos especiais. Para entender mais sobre o projeto, conversamos com o diretor Pedro Marques. O diretor, que faz sua estreia no comando de um longa, tem experiência de mais de 10 anos em produção audiovisual, incluindo mais de 200 filmes publicitários e diversos de filmes institucionais. Esteve à frente de três programas de TV, e atua como artista digital, colorista e supervisor de efeitos visuais no longa Porto dos Mortos (2011) e motion designer em Xico Stockinger (2012). Confira a conversa que tivemos com ele.

Como surgiu a ideia inicial e o roteiro do filme?
A ideia surgiu numa manhã muito quente de verão em Porto Alegre, há mais ou menos uns dez anos. Levantei cedo, com muita sede e não havia água na torneira. O filtro estava seco e na geladeira não tinha nada para beber. Saí então minha busca por água. O mercado em frente ao prédio estava fechado e precisei caminhar algumas boas quadras com sede e muito calor. Naquele momento pensei na minha fragilidade, pois mesmo com dinheiro em mãos não conseguia encontrar água. Pensei no quanto somos vulneráveis e dependemos de coisas tão simples e tão frágeis como a água. Pensando sobre essa fragilidade, sobre as consequências do aquecimento global, comecei a refletir em como nos organizaríamos caso tudo fosse subitamente modificado por alguma força maior da natureza e como seriam as nossas vidas… Dentro disso, comecei a pensar no que essas pessoas diriam sobre suas vidas no futuro. Quais seriam os relatos dessas pessoas vivendo nesse mundo sem saber do passado que tivemos, se por algum motivo o nosso presente (passado para eles) ficasse tão distante que seria irreal, quase uma fantasia (como é para nós os séculos passados). E foi aí que surgiram os primeiros contos.
Ao longo do tempo fui escrevendo essas histórias e guardando. O primeiro roteiro com o título Contos do Amanhã surgiu há oito anos e era um curta-metragem, o de longa-metragem há quase dois anos.

Há quanto tempo vocês querem filmá-lo e quais foram as maiores dificuldades antes de definir que o filme seria realmente feito?
O projeto existe há uns sete anos mais ou menos. Foi quando o inscrevemos pela primeira vez num edital para buscar recursos para realizá-lo. De lá para cá, o projeto foi amadurecendo e a cada novo edital uma nova reformulação. Com isso ele cresceu de um curta-metragem para uma versão longa, que foi aprovado ano passado. A maior dificuldade que enfrentamos, ao longo desse tempo todo, era a questão de viabilidade técnica. Como o filme fala, em algumas partes, de um futuro, recriar esse universo demanda de técnicas avançadas de pós-produção. E comprovar que isso seria viável sem custar milhões e que poderia ser realizado aqui foi o mais difícil. Para isso fizemos um amplo estudo de técnicas e testes. Rodamos um curta-metragem, com um dos contos, inteiramente em estúdio com chroma key (fundo verde) e cenários feitos em 3D. A partir daí, tivemos uma ideia mais ampla das dificuldades que enfrentaríamos ao longo da realização do longa-metragem e pudemos traçar um processo para conseguir realizar o filme.
O curta-metragem se chama ZERO e ainda é inédito.

Como está sendo a preparação dos efeitos visuais que o filme terá?
Como realizamos uma série de estudos e testes, elaboramos um processo para a realização dos efeitos que se iniciaram ainda na pré-produção. Criamos telas conceito de cenários, interfaces gráficas, objetos, aeronaves, sistemas de transporte, tudo o que servirá para nos guiar ao longo da realização do filme. A partir desses conceitos desmembramos as necessidades técnicas para a realização de cada cena, de cada plano.

A pós-produção pode exigir muitos investimentos. De que maneira o projeto, que é independente, vai conseguir realizar os efeitos necessários para um longa futurista?
Vivemos um momento, na pós-produção, de grandes avanços tecnológicos. Mas esses avanços se dão mais no quesito de acessibilidade das ferramentas e recursos. Softwares que antes custavam dezenas de milhares de dólares e exigiam máquinas sofisticadas, e por consequência muito caras, hoje estão disponíveis a um custo bem reduzido, se não de graça, e rodam em equipamentos que você compra em qualquer shopping center. Acredito que uma das revoluções cinematográficas desta década se dará pela universalização das ferramentas de pós-produção. O mesmo que aconteceu há uns seis ou sete anos com o surgimento das câmeras DSLR, que possibilitaram uma qualidade semelhante ao 35mm mas com 20% do valor. Mas mesmo tendo essas ferramentas mais acessíveis, o que realmente importa é a função do efeito visual dentro da cena. Ele precisa ser inevitável para contar a história.
O que buscamos não é necessariamente uma economia de recursos, mas uma busca pela melhor aplicação dos efeitos, de forma a enriquecer a história e transportar as pessoas para aquele universo. E nada melhor para a criatividade do que algumas limitações, não é mesmo?

O filme será publicado online de forma gratuita logo que estiver pronto? De que forma isso pode ser vantajoso?
Assim que estiver pronto o filme circulará por alguns festivais, depois disso faremos a estreia, que poderá ocorrer de forma simultânea no cinema, TV e internet ou apenas no cinema e depois, liberado na internet. Ainda estamos analisando as propostas. Mas com certeza esse é um dos pontos ousados do projeto. Nossa ideia é buscar o encontro com o público, realizar um mapeamento da audiência em potencial. Sabemos, através de pesquisas e estudos, a potencialidade do mercado, mas não temos um fácil acesso a ele. E através do mercado convencional (salas de cinema, canais de TV), a dificuldade é muito grande. Acreditamos que nesse momento buscar o diálogo com esse público é mais importante. E para isso, nada melhor do que liberar o filme gratuitamente no final.

O que as pessoas podem esperar dos vídeos sobre os bastidores da produção?
A ideia é apresentar as pessoas envolvidas, a equipe e o método de trabalho, a escolha do elenco e sua preparação. Queremos compartilhar ao máximo tudo o que estamos fazendo para realizar esse filme enquanto ele acontece. Diferente de lançar um “making of” depois do filme, queremos fazer isso antes. Claro que sem contar pontos importantes da história, para não estragar a experiência do filme.

Como foi a seleção dos atores para o filme? Quantos são e como eles estão desenvolvendo seus personagens?
O nosso projeto tem como um dos objetivos gerar oportunidades. Para isso, abrimos os testes e divulgamos através das redes sociais. Surpreendentemente, tivemos mais de 700 inscritos. E o que era para ser apenas um dia, virou três. Depois desse teste inicial, selecionamos aproximadamente 80 atores. Entre eles, 27 para os papéis adolescentes. Para esses oferecemos um Workshop de Atuação para Cinema, que foi ministrado pelo Ulisses da Motta Costa, que além de preparador de elenco também é diretor e professor de cinema. Depois dessa fase, fizemos um teste específico para cada personagem, onde os atores receberam um trecho do roteiro com as falas e ações.
Ao final selecionamos 21 atores que se dividem em núcleos do futuro e do passado. A partir disso iniciamos um trabalho de preparação com cada núcleo. O primeiro foi o núcleo de 1999, com os adolescentes. Sob os cuidados do Ulisses eles fizeram uma série de trabalhos corporais, de improvisação, entre outras coisas. Além disso, conversei muito com eles sobre o contexto da história, sobre a origem dos personagens. Coisas que não estão no roteiro mas que são fundamentais para que eles compreendam suas motivações e intenções. Fizemos um trabalho de grande imersão no universo antes de entrarmos nos ensaios com o roteiro.

Que filmes e diretores mais te inspiram para realizar estas filmagens?
Uma grande mistura de tudo que eu gosto de assistir e que de alguma forma ficou marcado em mim. James Cameron e Steven Spielberg me inspiraram muito, principalmente pela utilização dos efeitos visuais a favor da narrativa. Outros nomes, como Robert Zemeckis, George Lucas, Stanley Kubrick, Tim Burton, Michel Gondry, Alex Proyas, os irmãos Wachowski, entre outros, também me inspiram bastante.

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