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Crítica: Trinta

Trinta_poster_cartaz_MatheusNachtergaeleEm um período repleto de cinebiografias de grandes personalidades brasileiras, “Trinta” é um filme necessário para o país. Afinal, embora menos conhecido que alguns músicos ou líderes religiosos que ganharam as telas do cinema nacional, Joãosinho Trinta teve importância inigualável para a cultura popular brasileira, e o filme de Paulo Machline demonstra isso muito bem.

É curioso notar que, mesmo no país com a maior festa popular do mundo, a cultura erudita é tida como algo superior. Paulo Machline é inteligente ao deixar claro ao espectador não apenas que uma ópera e um desfile de carnaval são parecidos, mas também que ambas as produções culturais podem se completar. É fato que o autodidata João Jorge Trinta precisou passar pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro antes de fazer história no Carnaval carioca, mas sua visão de mundo jamais atingiria tanta gente se ele não se vinculasse às comunidades de pessoas que dão suas vidas aos desfiles.

Ao contrário de filmes que optam por traçar um panorama geral da vida do biografado (como “Tim Maia”), “Trinta” se assemelha muito mais ao também recente “Somos Tão Jovens”, cuja narrativa é voltada a mostrar a formação e os primeiros passos de uma grande personalidade. Machline também opta por iniciar o filme com saltos temporais, de forma a criar expectativa e prender o público, mas na segunda metade da projeção trata de deixar a narrativa linear. Assim, o filme começa com a saída do carnavalesco Fernando Pamplona (Paulo Tiefenthaler) da Salgueiro, e o surgimento da oportunidade para que Joãosinho (Matheus Nachtergaele) ocupe o cargo. Em flashbacks, o filme mostra a chegada de Joãosinho ao grupo de balé do Theatro Municipal, um pouco de seus conflitos com sua família – devido à sua sexualidade – e sua amizade com Fernando Pamplona e Zeni (Paolla Oliveira).

Como filme-homenagem, “Trinta” é eficiente e emocionante: volta-se para o crescimento profissional do protagonista, deixa de lado eventuais defeitos do ser humano retratado, e tem uma trama que segue num crescendo que termina de forma bastante apoteótica, como em um carnaval. Dois dos momentos mais inspirados da direção possuem relação com a trilha sonora: quando Joãosinho vai conhecer um barraco de escola de samba, a música erudita do teatro começa a dar espaço, gradativamente, ao som do maquinário ruidoso que ecoa pelas paredes do local. Mais tarde, quando se apresenta o samba-enredo do carnaval naquele ano, a música instrumental da trilha sonora também vai cedendo espaço gradativamente ao samba. De certa forma, o filme estabelece a grande diferença que há entre a ópera e o carnaval: o primeiro já nasce harmonioso e melancólico, enquanto o segundo precisa de muito ruído, desgaste e suor para só então reverberar as notas musicais, que em vez de tranquilas, exaltam alegria a cada batucada.

Com direção de arte e fotografia extremamente eficientes, o filme garante algo que já era esperado: a atuação refinada de Matheus Nachtergaele, que se aproveitou do fato de o longa ser um processo de transformação de Joãosinho para mostrar de forma sutil as mudanças na maneira de se portar. É uma pena que o roteiro não permita aos outros atores explorarem mais nuances além daquelas previstas em seus personagens.

Ao conhecer um pouco mais sobre a vida do artista João Jorge Trinta, é possível entender que nem tudo que está no filme foi transposto da realidade. Isso apenas prova que o ficcional é necessário para traçar o recorte escolhido pelos idealizadores. Assim sendo, “Trinta” presta uma bela homenagem a um importante artista da nossa história e uma arte fundamental da nossa cultura.

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