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Blind (2014)

“Qual é a causa por que os corpos parecem belos à nossa vista e de que nosso ouvido sinta inclinação aos sons belos? Por que tudo imediatamente ligado à alma é de alguma maneira belo? Todas as coisas belas o são por uma mesma e única beleza, ou a beleza do corpo é diversa da beleza dos outros seres? Em que consistem essa ou essas belezas?”. (Plotino)


Plotino (205 d.C. – 270 d.C.) procura responder o que pretendemos dizer quando afirmamos que algo é belo, abordando o tema sob sua reflexão – peculiar ao neoplatonismo – acerca das formas inteligíveis. Será simplesmente a simetria, ou a capacidade de agradar os sentidos, o critério para decidirmos sobre a beleza de algo?
O que dizer sobre nossos sentidos? Acredito que a vida é tão bela que nos dá o direito de vermos, sentirmos, ouvirmos, falarmos, tatearmos. Conseguimos estar próximo de alguém e sentir o cheiro, ver a cor de seus olhos, seus pigmentos mais sutis, contudo, ao passo que nosso corpo se ausenta desses artifícios necessarios ao bem viver, nos tornamos reféns de alguém ou do medo que nos preenche por inteiro.
Estar no escuro deve ser algo muito estranho para quem antes percebia e vivia na luz. Quase sempre percebemos o belo com a vista. Com o ouvido também percebemos as melodias, os ritmos, os silêncios da bela música. É interessante se perguntar: Qual o motivo pelo qual ouvimos um som e por tal o temos como belo? Assim como, ao vermos uma paisagem com um sol se pondo, com a mistura de cores alaranjadas formadas pelas já finadas luzes, como bela? Algo que me apeteça talvez não seja de agrado geral por exemplo. É como o deleite de alguém quando nos olha e assim nos conquista; qual seria o motivo, a razão, o porquê disso acontecer? São muitas questões e não existe aqui a pretensão de respondê-las, contudo, a discussão sobre, o diálogo e o pensamento acerca do tema já nos esclarece o quanto não pensamos sobre o assunto.
É na falta que percebemos o que é de valor. Quando perdemos um amor sabemos o quanto ele nos foi importante ou não, é quando perdemos um ente querido que o corpo chora de saudades. A vista é o nosso sentido mais usado. Como seria estar num restaurante com alguém, acontecimento cotidiano, e de repente tudo ficar escuro, sem luz? Os sons aparecem mais, percebe-se sensações distintas, é o momento que não existe quando antes tudo era visto. Um bom exercício é fechar os olhos, independente do local, e ouvir. É dito nas artes plásticas que o belo vem da simetria, da perfeição, porém e a bela paisagem dita anteriormente, isto é, a beleza da luz do sol? Tal cai fora do âmbito da beleza, pois sendo simples não podem possuir uma beleza fundada na simetria.
E o impacto da escuridão não se dá em quem o sofre fisicamente mas também em quem vive junto. A responsabilidade, o medo de deixar, a dor e a pena de abandonar o amor que agora não enxerga é de tamanha complexidade. Talvez para alguns tal fato não seria o problema, porém o cuidado e o real companheirismo, se existir, mantem o casal junto, por mais que seja doloroso. Deve-se pensar mais sobre nossas necessidades quanto seres humanos, o que temos e o que poderíamos não ter, é bom nos desfazermos de valores que nos aprisionam em refúgios os quais não nos deixam experimentar outros caminhos, é necessário o silêncio para perceber a música, é necessário a escuridão para perceber a luz, a falta é o desejo.

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