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Crítica: Sob a Pele

Crise existencial e a decadência do ser.

Sob a Pele, novo filme de Jonathan Glazer (de Sexy Beast e do bom Reencarnação), teve um certo alvoroço, mais pelo fato de conter Scarlett Johansson completamente nua em algumas cenas do que por seus próprios méritos. As fotos foram devidamente vistas e “esquecidas”. O filme chegou e saiu dos cinemas brasileiros sem muito alarde, e decidi, enfim, assisti-lo. Na mesma semana, coincidentemente, vazaram fotos da atriz Jennifer Lawrence (estrela de Jogos Vorazes e Trapaça) nua, junto com centenas de outras celebridades, postadas por um usuário anônimo de fóruns aleatórios. Isto me fez pensar (mais ainda) no tema central de Sob a Pele, nos apresenta uma perspectiva sobre a natureza e a emoção humana.

Coincidência também, um dos meus últimos textos ser sobre The Rover (leia a crítica: https://cinemacao.com/2014/08/27/critica-the-rover-a-cacada/) , obra de David Michôd que, embora completamente diferente desta de ponto de vista simbólico (uma quase não deixa espaços para interpretações, outra é quase que inteiramente composta delas), toque num tema parecido com esta: a decadência do ser. E com ser, não falo da alien vivida por Scarlett Johansson (numa corajosa interpretação), e sim de nós.

A história, como no já citado The Rover, é bem simples: uma alien vem para a terra na forma de uma bela mulher, e seduz homens ao mesmo tempo em que aprende mais sobre nós, e sobre ela mesma. Há, claro, sua parcela de mensagens e simbolismos, com a bela e hipnotizante fotografia de Daniel Landin, direção competente de Glazer e a perturbadora trilha sonora composta por Mica Levi. Sob a Pele é um filme visual. Ele privilegia as mensagens implícitas numa narrativa para ser sentida, experienciada. Não há nada de errado com essas pretensões. Porém, em suas próprias ambições, Sob a Pele se perde um pouco.

Glazer confunde atmosfera opressiva e simbolismos com falta de história. Assim, o longa fica mal desenvolvido e responsável por sugerir questões interessantes, mas nunca mergulhar nelas de fato. É um filme, que, como a própria Scarlett Johansson na maior parte do tempo, se sustenta apenas pela insinuação.

Como já mencionado, o filme trata da natureza humana como algo vaidoso, superficial, e vazio por dentro. Assim, conforme a alien aprende sobre a humanidade e conhece alguma das boas características da mesma, tem uma epifania, se afundando nas emoções e características do ser humano apenas para se deparar com a maior delas: a (auto)destrutiva.

Em épocas como o “desafio sem make” no Facebook, Sob a Pele vem para erguer um espelho sobre a real face superficial das pessoas. Há, inclusive, neste “desafio ” uma necessidade de auto proclamação disfarçada de falsa aceitação. As mulheres e garotas que aderem este desafio querem provar, no fim, que o que há sob a pele de maquiagem das mesmas é a beleza, mesmo que a beleza física em si seja algo superficial? Ou o simples gesto do desafio.. algo como um “eu te desafio a mostrar como você é de verdade para o mundo”.

Sob a Pele pode ser taxado de muitas coisas: vazio, mal desenvolvido e superficial… mas ingênuo não é uma delas.

E voltando a pensar sobre o assunto da Jennifer Lawrence e suas fotos, algo me ocorreu: Por que tivemos aquela reação? O click instantâneo, aquela ansiedade para ver o que havia sob a pele (sim, a pele, pois o ícone que vemos não é a verdadeira pessoa, e sim, uma pele, ocultando a pessoa Jenifer Lawrence da atriz Jenifer Lawrence) ? Eu poderia, claro, usar o horrível argumento de que “somos homens” e aquela reação foi totalmente impulsiva e instintiva, mas não vamos mentir para nós mesmos. A verdade é que já estamos tão fortemente moldados pela sociedade, fascinada pela perfeição, a autenticidade que, no fim, tudo que queremos é vê-las no vulnerável e íntimo momento sob a pele.

E isso me lembra uma frase de certo personagem na obra que resume, pura e simplesmente o que estou tentando dizer sobre as pessoas:

“Elas são ignorantes.”

  • Nota Geral:
3

Resumo

Sob a Pele é um filme visual. Ele privilegia as mensagens implícitas numa narrativa para ser sentida, experienciada. Não há nada de errado com essas pretensões. Porém, em suas próprias ambições, Sob a Pele se perde um pouco.

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