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Análise de diálogo: Gênio Indomável

Atenção: esta análise apenas faz sentido para quem assistiu ao filme “Gênio Indomável” e tem interesse em pensar em questões de uma cena específica.

 

O filme “Gênio Indomável” se tornou um clássico dos anos 90. Com roteiro escrito por Matt Damon e Ben Affleck durante o período da faculdade (os dois são amigos de infância, vale lembrar!), o longa foi um dos melhores do ano em que foi lançado, tanto que teve 9 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor para Gus Van Sant. O longa levou duas estatuetas: Melhor Roteiro Original, para os amigos Matt e Ben, e Melhor Ator Coadjuvante para o já saudoso Robin Williams.

Entre os muitos pontos positivos que podemos destacar, estão os ótimos diálogos do filme, que sempre lançam informações que serão desenvolvidas de forma melhor no decorrer da produção.

Em vez de optar pelo famoso e tantas vezes repetido “monólogo” de Sean (Williams) para fazer seu novo paciente “cair em si”, optei por um diálogo bastante interessante que ocorre entre Sean, o terapeuta de Will (Matt Damon) vivido por Robin Williams, e Gerry, o professor que tenta ajudar o jovem protagonista, vivido por Stellan Skarsgård.

A cena

O diálogo ocorre em um bar, onde Gerry vai se encontrar com Sean, preocupado com o fato de que o jovem Will, o “gênio” do título, precisa encontrar um emprego como pesquisador para usufruir de sua capacidade intelectual.

Leia o diálogo, que tem Gerry (G), Sean (S) e uma fala de Timmy (T), o dono do bar.

 

G: Esse garoto tem um dom. Falta a ele direção, mas isso podemos lhe dar.

S: Hey, Gerry, nos anos 60, um jovem se formou pela Universidade de Michigan. Fez um trabalho brilhante em matemática, especificamente em funções harmônicas. Foi professor em Berkeley, tinha um grande potencial, aí ele foi para Montana e detonou seus adversários.

G: Quem era?

S: Ted Kasczynski.

G: Nunca ouvi falar.

S: Timmy! (se dirige ao dono do bar). Quem é Ted Kasczynski?

T: O Unabomber! (obs: matemático que ficou famosos por matar e ferir pessoas em atentados a bomba devido ao seu ativismo anticivilização).

G: É a isso que me refiro. Temos que dar direção ao garoto. Ele pode contribuir com o mundo e nós podemos ajudá-lo nisso.

S: Direção é uma coisa, manipulação é outra. Você tem que deixá-lo…

G: Sean, eu não passo as noites mexendo no meu bigode e tramando um plano para arruinar a vida dele. Com 18 anos, eu já fazia matemática avançada e ainda levei 20 anos para fazer ago digno de ganhar a Medalha Field.

S: Talvez ele não queira o que você quer. Existem mais coisas na vida além de uma porcaria de Medalha Field.

G: Isso é muito importante, Sean. E está acima da nossa rivalidade pessoal.

S: Espere, Gerry. Vamos falar do garoto. Por que não damos tempo a ele para saber o que ele quer?

G: Esta é uma ótima teoria. Funcionou com você, não funcionou?

S: É, funcionou mesmo, seu babaca arrogante!

G: Desculpe, foi bobagem ter vindo aqui. Eu vim por cortesia. Queria te deixar a par.

S: Ah, me deixar a par!

G: O menino está em uma entrevista na McNeil.

Análise:

A partir do diálogo, conseguimos perceber diversos elementos importantes que, como dito, serão melhor desenvolvidos um pouco depois. Vamos a eles:

O primeiro ponto a pensar ao longo deste diálogo é a diferença de posicionamento entre os dois personagens. Enquanto Gerry é um professor importante e vencedor de um dos maiores prêmios de sua área, Sean é um bom professor que perdeu oportunidades de crescer na carreira. Ao longo do filme, entendemos que ele deixou suas atividades profissionais por conta de um amor verdadeiro – algo que será feito justamente por Will Hunting.

O segundo ponto interessante é o debate justo do longa sobre os “gênios” que podem existir em diversos lugares e apenas precisam de incentivos. Ao mesmo tempo, até que ponto uma inteligência precisa ser forçada a servir a um “propósito maior”? Afinal, caso Einstein tivesse feito a escolha de beber com os amigos em vez de estudar, como Gerry cita alguns segundos antes do diálogo transcrito, seria uma escolha à qual ele tinha direito.

Quanto à trama, o diálogo apresenta, de forma orgânica, a rivalidade entre os dois personagens, e que terá continuidade em cenas posteriores. Quando Sean diz que “há coisas mais importantes que uma Medalha Field”, e Gerry diz que isto está “acima da rivalidade”, vemos que, de alguma forma, Sean também poderia ter vencido o mesmo prêmio. Em seguida, Sean diz que é importante “dar tempo  a ele”, e recebe a resposta irônica: “funcionou com você, não funcionou?”. Neste momento vemos que, não importa o que tenha ocorrido no passado, Sean precisou de mais tempo para tomar algumas decisões, e por isso teria sido “ultrapassado” por Gerry.

Em meio a diversos outros diálogos interessantes, o roteiro de Gênio Indomável é um excelente texto a ser analisado. Assusta saber que ele foi escrito por dois jovens atores em início de carreira. Ao mesmo tempo, é uma pena saber que tanto Damon quanto Affleck possuem tão poucas incursões no cinema como roteiristas ao longo destes anos.

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