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Crítica: Guardiões da Galáxia

OOGA CHAKA

Há alguns meses, em minha crítica de Capitão América 2 – O Soldado Invernal (que foi publicada aqui no Cinem(ação) há alguns dias), fiz o seguinte comentário sobre a atual fase cinematográfica da Marvel:

Faz pouco mais de 5 anos, mas a Marvel está finalmente se encontrando, no sentido de dar o devido espaço/desenvolvimento para seus personagens nos filmes solos.”

Pois parece que o estúdio finalmente atingiu sua Era de Ouro. Guardiões da Galáxia chegou aos cinemas com recordes de bilheterias nos EUA, e sucesso também internacionalmente. A ideia de fazer um filme sobre os rejeitados, os “outcasts” da galáxia (e da própria Marvel), ambientada quase que inteiramente no espaço, com personagens como um guaxinim e uma árvore falante parecia arriscada, e, para a surpresa de todos (ou nem tanta) o filme funciona. E mais que isso, o filme é uma ópera espacial com coração, cérebro e alma. E o guaxinim e árvore citados acima são um dos principais motivos do filme justamente funcionar. Mas estou me adiantando, vamos começar com o responsável por tudo isso.

Um filme de James Gunn

Guardiões da Galáxia, mais que um filme da Marvel, para mim, é um filme de James Gunn. Quem me conhece sabe do meu apreço pelo cineasta e toda a sua obra. Os Filmes de Gunn geralmente contam com referências a cultura pop, humor negro, drama, e até existencialismo, solidão… O diretor transita entre gêneros com a estranheza que dirigiu os filmes de sua carreira indie. Entre as bizarrices cult de Gunn estão Tromeo e Julieta (obra prima trash dos anos 90 produzido pela independente e picareta Troma), a web série PG Porn e seu filme mais intimista, SUPER (2010).

E Gunn não podia ser uma escolha melhor. Ele entende das pequenas coisas como ninguém, e sabe das bizarrices que funcionariam para uma audiência maior, o que não significa que Guardiões não contenha características do cineasta. Seu humor negro e doentio continua (uma piada em especial, envolvendo fluidos corporais e arte abstrata quase me fez cair do assento).

Um bando de idiotas

A narrativa começa sem floreios. Acompanhamos o jovem Peter Quill (Chris Pratt) presenciando a morte de sua mãe logo no início da narrativa. Após um tocante momento, estamos do lado de fora do hospital com o protagonista, que é abduzido para o espaço (e devo dizer que o logotipo da Marvel aparecendo gradualmente conforme Peter é abduzido injetou um ânimo de expectativa em mim que há tempos eu não sentia no cinema, criando, ao mesmo tempo, uma elegante transição para o espaço e um clima vintage de histórias em quadrinhos). Logo acompanhamos sua “rotina” como saqueador do espaço, onde, numa homenagem a Indiana Jones, encontra o tal Orb de energia desconhecida que moverá a narrativa. Não tarda para que o guaxinim falante Rocket (Bradley Cooper), a adorável árvore Groot (Vin Diesel), o letal, mas ingênuo Drax (Dave Bautista) e a “mulher mais perigosa da galáxia” e filha de Thanos, Gamora (Zoe Saldaña) cruzem seu caminho. Para piorar, Ronan, temido vilão intergaláctico entra no caminho dos “heróis”. Chris Pratt, Dave Bautista e Zoe Saldaña estão ótimos em seus respectivos papeis (Há pequenos erros, entretanto, na trajetória de personagem da assassina Gamora, que serão abordados mais pra frente nesta crítica). Porém, o coração do  filme reside mesmo nos seguintes personagens gerados por computação gráfica:

“Rocket é o coração do filme de muitas formas. Se o guaxinim falante funcionar, este filme funciona”. Foram com essas palavras que Gunn falou sobre Guardiões para a imprensa durante a produção do filme. E o diretor deve estar orgulhoso. Se Rocket é o coração do filme, Groot, seu capanga/planta pessoal é a alma. Há algo nesta árvore falante que desperta uma sensação de melancolia e ainda sim esperança. Groot, assim como Rocket, é subestimado, caçoado muitas vezes e simplesmente ignorado em outras, e a relação de ambos é um dos melhores aspectos do longa. É difícil não tentar imaginar como o guaxinim e a árvore se conheceram, mas eles são como Han Solo e Chewie. E não só nas piadas e gags visuais que os dois funcionam. Há pelo menos 3 momentos no filme que o deixarão com um nó na garganta (e devo dizer que o momento em que Rocket tem seu pelo acariciado após um evento dramático – e como ele reage ao gesto- me pegou de surpresa, me fazendo sentir um misto de dó/simpatia pelo personagem que eu não sentia há tempos no cinema). E já que falei de Star Wars acima, por que não citar algumas das referências? Indiana Jones, Star Trek, Footloose e Kevin Bacon (!) estão entre as mais inspiradas. Vin Diesel e Bradley Cooper dão um show na dublagem, conferindo devido peso e leveza nos momentos necessários.

Hooked on a Feeling

Ao pensar em um resumo para o início deste texto pensei em algumas coisas. Uma frase do filme? Um trocadilho? Uma piada? A escolha mais sensata, no fim, foi um simples OOGA CHAKA, o que me pareceu correto em seus próprios méritos. Um dos elementos narrativos mais admiráveis no filme é a Awesome Mix Vol.1. A trilha sonora do filme conta com clássicos dos anos 70 como “Cherry Bomb”, “Moonage Daydream”,  “Escape (The Pina Colada Song)”, “O-O-H Child” e a já conhecida dos trailers “Hooked on a Feeling”, e devo admitir que, ao ouvir “Come and Get Your Love” tocar nos créditos iniciais junto ao título do longa, eu imediatamente soube que o filme (com o perdão do trocadilho, novamente) decolaria. O principal é que as músicas não são inseridas gratuitamente para arrancar risos ou dar o tom da cena, elas são um dos elementos principais que movem Peter na narrativa, e seu arco é simpático e ao mesmo tempo emocional. O que falar, também, da trilha orquestrada composta por Tyler Bates (colaborador habitual de Gunn)? É nostálgica, épica, estranha, tudo na medida (e o tema dos Guardiões é memorável e heróico).

We are family

Família é um dos principais temas do filme, assim como “achar o seu lugar no mundo”. Todos os personagens aqui são desajustados, almas danificadas com problemas familiares. Peter está longe da terra e perdeu sua mãe, Drax teve sua esposa e filha assassinadas por Ronan, Rocket é o único de sua espécie no espaço (“não há nada como eu, exceto eu”), e Groot não tem ninguém (a não ser Rocket, sua única “família”) que o entenda. Por último temos Gamora, que teve a família massacrada por Thanos, o titã louco. O titã a adotou e a transformou numa máquina de matar. Vi alguns criticarem a história por essa repetição envolvendo o núcleo familiar, mas o “lance” do filme é justamente esse: Família. E ver como o clímax se resolve ao mesmo tempo em que os dilemas de maneira simples e simbólica (as mãos dadas) me fez sentir uma satisfação imensa por esses desajustados que finalmente encontraram, um no outro, uma família.

Como erros, há apenas o subdesenvolvimento da personagem Gamora e do vilão, Ronan. Entendemos o passado dela, que nos é informado didaticamente, mas nunca a vemos ser mais que um “interesse amoroso” do protagonista. Por exemplo, somos informados durante o filme que ela é “a mulher mais perigosa do universo”, mas não nos é mostrado isso de fato. No máximo ela troca uns socos com alguns capangas, mas longe de apresentar uma real ameaça, assim como o vilão do filme. Porém Lee Pace, como o bom ator que é, dá presença ao vilão Ronan, mesmo com roteiro deficiente em relação a seu personagem.

Deixando esses pequenos problemas de lado, Guardiões da Galáxia é tudo que eu (e você) sempre quis num filme da Marvel: direção, clima, balanceamento no humor, ação, drama. Efeitos de primeira, ótimos atores, e uma equipe que realmente quer contar aquela história. E não há nada mais reconfortante do que, ao final da sessão no IMAX, virar para seu amigo (e para o resto da audiência) e ver que o mesmo esboça o exato sorriso bobo que você, ao presenciar esta obra definitiva da Marvel. E, como diz o cliché dos saudosos marqueteiros: é sim, um filme para toda a família, para ver uma, duas (e porque não três vezes?) no cinema.

 

 

Guardiões da Galáxia é o que justifica a junção Marvel/Disney, onde tudo se complementa. Marketing, Imagem, Brinquedos (e o poder de venda de Rocket e Groot com as crianças), um estúdio que finalmente aprendeu a dar liberdade criativa para seus diretores, confiando num diretor que ama aqueles personagens e a história que está contando. Obrigado Disney, obrigado Marvel, Obrigado James Gunn.

  • Nota Geral:
5

Resumo

Deixando esses pequenos problemas de lado, Guardiões da Galáxia é tudo que eu (e você) sempre quis num filme da Marvel: direção, clima, balanceamento no humor, ação, drama. Efeitos de primeira, ótimos atores, e uma equipe que realmente quer contar aquela história. E não há nada mais reconfortante do que, ao final da sessão no IMAX, virar para seu amigo (e para o resto da audiência) e ver que o mesmo esboça o exato sorriso bobo que você, ao presenciar esta obra definitiva da Marvel. E, como diz o cliché dos saudosos marqueteiros: é sim, um filme para toda a família, para ver uma, duas (e porque não três vezes?) no cinema.

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