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“Vou rifar meu coração”: uma ode ao AMOR .

“… Já pensei em rifá-lo. Só não o fiz pelo medo de no fim ter de entregá-lo ao ganhador, assim de bandeja… E pelo desejo de no fundo, querer dar a outro alguém…” (griphosmeus)

 Não sou adepto dos documentários. Certo preconceito da minha parte para com o gênero e seus idealizadores/realizadores. Mas parte do meu posicionamento anti-documental é reflexo direto do tendencioso espírito ‘bandeira branca’ que a maior parte deles fazem questão de sustentar em suas narrativas. 

 

“Quem vive não precisa contar. Quem conta é quem testemunhou (e pesquisou) a respeito.”

Eis então que leio uma entrevista do Roberto Carlos, aquele do especial, onde o mesmo diz que ninguém melhor do que ele mesmo para contar sua própria história. Tá bom! Ele conta o que convém contar, e nós ‘compramos’, digo acreditamos, naquilo que o personagem/autor (?) quer que nós acreditemos.

Eu discordo, e retifico vossa afirmação:

 

“Ninguém melhor do que nós para deixarmos passar grandes, amorais e as melhores histórias… Um terceiro olho se faz necessário e é fundamental para enxergar além”.

 

E foi o terceiro – e múltiplo – olho da documentarista, cineasta, antropóloga e geógrafa Ana Rieper que conseguiu captar, em sua forma mais bruta, delgada e sofrida, as histórias daqueles que amam.

O tom coloquial, e em alguns momentos até erótico, presente nas confissões dos entrevistados durante uma hora e vinte minutos de divã popular genuinamente brasileiro, dão o tom peculiar e saboroso do filme.

Eles compartilham suas vidas, suas experiências, seus atos mais banais.

Ana faz do documentário não apenas um mero registro do amor, mas um retrato psicológico e emocional do sentimento mais obscuro da natureza humana.

Paralelo a espontaneidade dos depoimentos, o documentário faz uma merecida homenagem a música brega e a seus eternos interpretes:

Quem nunca em um momento de “sofrência” amorosa ouviu ou se disse que ‘tudo passa, tudo passa… ’? Quem nunca quis ser o fogo e o parceiro a paixão (ou vice-e-versa)? Quem nunca pensou em rifar o próprio coração?

 

– O amor não é um encontro de orgasmos, é um encontro de almas.

 

Gozo! Amo! E faço minhas palavras as suas, Nelson Ned.

Quando as almas se encontram, o amor nasce, renasce. O orgasmo é o resultado natural da plenitude dos seres.

É impossível, em algum momento que seja, não nos enxergarmos ali em cada desilusão, em cada lágrima. Ora na confissão de ser a outra, e se ver conformada com a condição. Ora na desilusão da puta, que ver no amor a descrença romântica do que teimamos em procurar.

Como as letras das músicas bregas, de corno que carrego comigo desde quando era criança e inocentemente só amava o verbo brincar, algumas cenas ficarão marcadas na minha memória cinematográfica.

O vai e vem corpóreo dos dois homens no salão ao som de ‘Deslizes’ de Fagner… A dor em cada passar de fotografia, sob o fardo de ser a amante durante duas décadas.

E essa última, em especial, me faz questionar:

– Será que o meu amor é tão solidário assim?

A tuberculose era o mal do século XIX, o amor é o mal da vida. Hoje, amanhã, depois ele é personagem fixo dessa orquestra de breguice, de verdade, que todos (apesar de me opor a qualquer tipo de generalização) vamos dançar.

Isso não é praga rogada. É condição vital da nossa existência.

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