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Entrevista exclusiva: dublador fala como é o processo de dublagem

Já faz algum tempo que o Cinem(ação) não fala sobre o eterno debate sobre a dublagem. Boa parte da discussão foi feita no Podcast 39 e desde então nada mais foi dissertado a respeito. Artigos foram publicados em maio de 2011, outubro de 2011 e junho de 2012.

No entanto, uma notícia recente chamou a atenção: de acordo com o crítico de cinema Pablo Villaça, o personagem Olaf, do filme “Frozen”, foi dublado originalmente por Gustavo Pereira. O ator, dublador e músico tem vasto currículo, que inclui personagens como Nemo (Procurando Nemo), Cadu Maverick (Tá Dando Onda) e Blu (Rio).

Ainda segundo o crítico de cinema, que publicou sobre o assunto em seu blog, Gustavo teria sido notificado de que seu trabalho não seria usado, já que Fábio Porchat foi escalado para o mesmo papel, como exigência da Disney. A distribuidora vem sempre buscando promover seus lançamentos com atores famosos – como fez no anterior “Enrolados”.

De fato, escalar um ator como Fábio Porchat é ‘menos pior’ que colocar Luciano Huck em “Enrolados”, mas ainda assim abre espaço para debate sobre o assunto: afinal, será que a presença de uma “celebridade” aumenta a bilheteria de um filme? Por que a distribuidora se planeja mal a ponto de desperdiçar o trabalho de um profissional? O quanto a distribuidora se preocupa com a qualidade da dublagem?

Para entender um pouco melhor sobre o processo de dublagem, de forma que cada um tire suas conclusões sobre o tempo dado à dublagem de filmes (animações ou não), procuramos o dublador Gustavo Pereira para responder a algumas perguntas. No entanto, Gustavo se reservou ao direito de não responder às perguntas que se referiam à dublagem de Frozen e à substituição de sua voz pela de Fábio Porchat. Mesmo assim, a entrevista se revelou muito interessante. Confira:

*ATENÇÃO: a pedido do entrevistado, as respostas não foram editadas nem sofreram qualquer modificação em sua escrita, incluindo correções estilísticas ou ortográficas.

Gostaria de saber como é a sua preparação para dublar um filme. Quanto tempo antes você fica sabendo e como é feita a preparação da voz?
Gostaria de começar dizendo que todas as perguntas respondidas aqui representam a minha opinião pessoal e intransferível.  : P Não sou dono da verdade da dublagem, apenas da minha. Considerem isso na hora de ler, por favor.  : D
Na verdade o processo da dublagem, pelo menos do que participo, é mais rápido do que muita gente costuma pensar, no que diz respeito à gravação do áudio pelos atores. Não existe uma preparação longa para o trabalho. Geralmente entramos em contato com o filme no momento em que vamos pro estúdio. Eu, particularmente, gosto de extrair o máximo de informações possíveis do diretor para ter o máximo de respaldo pra ajudar a construir com o meu trabalho a versão brasileira dos filmes. Apesar disso, acho que o trabalho de dublagem se encaixa num formato que já existe, e não há muita necessidade de se “inventar a roda”, apenas emprestar a sua voz da melhor e mais natural maneira possível com respeito à obra original.

Você dubla muito desenho. É mais fácil do que dublar filmes live-action?
Acho que não há muita regra quando se trata disso. Já fiz “live-actions” bastante simples do ponto de vista técnico e outros extremamente difíceis. Isso também acontece nos desenhos animados. Apesar da animação receber mais facilmente o formato da dublagem (por ter a concepção de se receber uma voz “externa” desde a sua origem), acho que a maior dificuldade de todas para um dublador passeia pelos dois tipos de filme. Deixar aquele personagem natural, e crível. Na minha humilde opinião, o sincronismo é fundamental na dublagem, mas mais do que isso é o personagem dublado parecer “vivo”, e o ideal de bom trabalho é quando ele nem parece estar sendo dublado.

O que você acha da prática de colocarem artistas famosos (independentemente do talento) para dublar personagens?
Chamamos os “artistas famosos” de “star talents” na dublagem. Do ponto de vista artístico, que é o que eu conheço e posso falar, não vejo, sinceramente, o menor problema em tê-los nesse ofício. A única exigência legal para se dublar é que você seja ator profissional. Nós que trabalhamos com isso no dia-a-dia somos, e os atores consagrados pela grande mídia que vem trabalhar nessas produções também são. Do ponto de vista da qualidade acho que todos nós somos atores. Famosos, não famosos, atores que apenas dublam… E acho que em todas as áreas encontramos profissionais cujo trabalho nos agrada ou não nos agrada. Fica a critério do contratante, que costuma conhecer bem o seu público, decidir o melhor profissional para atuar no seu produto.

Para você, o que faz a dublagem de um filme ser boa?
Pra mim, a dublagem boa é a que consegue combinar respeito e fidelidade ao original com verdade e naturalidade na versão brasileira. Digo isso não só dos dubladores, mas de todos os profissionais envolvidos. Na parte de tradução e adaptação, direção, captação de áudio, edição, checagem, mixagem… Enfim. Buscar mais do que traduzir um filme com palavras em português, fazer um trabalho fiel, mas com a cara do nosso público. Afinal de contas, antes de qualquer filme dublado não ouvimos a voz dizer que o estúdio responsável faz tradução, e sim, “versão brasileira”.

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