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Crítica: Confissões de Adolescente

confissoesdeadolescente_posterNão são poucos os filmes a tratar da adolescência. Esta fase de vida vem sempre recheada de temas a serem explorados, e quase todos eles relacionados à descoberta (da vida, da sexualidade, etc), permitindo diversas possibilidades de olhares. O filme “Confissões de Adolescente”, dirigido por Daniel Filho e Cris D’Amato, traz uma nova roupagem à trama do livro de Maria Mariana, que já tinha feito sucesso na TV com o seriado, dirigido pelo mesmo diretor.

Ao contrário dos filmes lineares que Daniel Filho dirigiu, como “Chico Xavier”, este longa consegue absorver a vantagem de uma direção acostumada mais com a TV que o Cinema. Afinal, trata-se de uma trama recheada de personagens e situações diversas que exigem uma visão mais episódica, diferentemente do que Laís Bodanzky fez com “As Melhores Coisas do Mundo” – filme com um tom diferente, mas que compõe uma interessante conversa temática, já que ambos são crônicas da classe média adolescente brasileira.

Em “Confissões de Adolescente”, o pai solteiro Paulo (Cássio Gabus Mendes) tem problemas financeiros e passa a contar com a ajuda das quatro filhas, que aceitam economizar o que for preciso para não mudar de bairro. Assim, o filme gira em torno de quatro momentos diferentes em que estão cada uma das irmãs: Tina (Sophia Abraão) está na faculdade e começa a amadurecer seu relacionamento e sua vida profissional; Bianca (Isabella Camero) precisa lidar com brigas de amigas e incertezas sobre faculdade e sexualidade; Alice (Malu Rodrigues) faz de tudo para perder a virgindade com o namorado; e a pequena Carina (Clara Tiezzi) vive seu primeiro romance.

Eficiente nas referências a elementos da cultura pop, como seriados americanos, livros adolescentes e o constante uso das redes sociais, o filme consegue mostrar diversas situações típicas dos jovens com bom humor e uma dose de ensinamentos bastante interessantes: enquanto Déborah Secco vive uma mãe que dá camisinha ao seu filho e sugere que ele procure uma “ajuda profissional”, o personagem de Cássio Gabus Mendes consegue mostrar que é um pai preocupado com as ações de suas filhas sem nunca repreendê-las, algo que infelizmente ainda é pouco comum nas famílias brasileiras. Dessa forma, o filme funciona não apenas como uma atualização tecnológica do seriado, produzido de 1994 a 1996, mas também comportamental. Aqui, vale destacar a forma madura e bastante imparcial com que o roteiro trata do aborto, o que me surpreendeu positivamente: apesar de questionar e mostrar o problema da falta de informação, nenhuma bandeira é levantada, deixando a cargo do espectador chegar às suas próprias conclusões… ou não.

O longa ainda encontra espaço para contar uma história em formato de flashback, e o diretor se mostra inteligente ao não gritar para o espectador que se trata do passado de Tina, apenas sugerindo isso com diálogos interessantes, como: “Você tem Orkut, ou já foi pro Facebook?”. Mostrar corpos nus e usar imagens malucas para falar da primeira vez (e do primeiro orgasmo) também mostram que os diretores não tiveram muito receio com os “pudores” de quem estabelece a classificação indicativa das salas.

No entanto, nem tudo são flores. Se “Confissões de Adolescente” não é irreal como a novela Malhação, por exemplo, também não é um retrato tão fiel da realidade, tendo alguns diálogos pouco convincentes (uma patricinha jamais diria que sua fama “é tudo que ela tem antes de envelhecer”), além de visões romantizadas de apartamentos da faculdade e namoradinhos apaixonados. A própria visão extremamente positiva desta fase da vida já traz um ar de irrealidade, e a direção de fotografia pasteurizada apenas contribui para as típicas imagens das novelas, não trazendo nada de novo.

Assim sendo, poderíamos dizer que esta versão de “Confissões de Adolescente” é uma Malhação melhorada e com seios, embora possamos também afirmar o mesmo que afirmei na crítica de “As Melhores Coisas do Mundo”: o filme “faz com que queiramos voltar a ser adolescentes – ou pelo respeitemos mais essa fase da vida”. Mas o longa é também uma espécie de bagunça: nos remete à adolescência, apresenta como são as meninas e os meninos de hoje, mostra de tudo, cita muita coisa e diverte… e essa bagunça de referências combina bem com a canção de Djavan que entoa os créditos finais.

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