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Crítica: Somos Tão Jovens

somostaojovens_poster2Ele foi um dos roqueiros mais importantes da música brasileira, que morreu prematuramente em decorrência da AIDS. Quem lê essa frase pode ser levado a pensar tanto em Renato Russo quanto em Cazuza. Mas o cinema brasileiro já tem um grande filme sobre Cazuza, e os produtores de “Somos Tão Jovens” (também a pedido da mãe de Renato Russo) foram inteligentes ao fugir deste estigma.

Somos Tão Jovens” conta o início da carreira musical de Renato Manfredini Júnior, que mais tarde se tornaria Renato Russo. Após se tornar pioneiro na cena do punk rock de Brasília com a banda Aborto Elétrico, Renato passa por transformações que o fazem se tornar menos “punk” e fundar a banda Legião Urbana. O filme de Antônio Carlos da Fontoura começa bem ao delimitar um espaço de tempo, tornando-o menos audacioso.

É uma pena, no entanto, que falte audácia ao roteiro, que traz diálogos forçados, sempre buscando explicar inspirações para todas as canções mais famosas, cujas letras saíram da cabeça do jovem e revoltado Renato Russo. Apesar de conseguir retratar a Brasília dos anos 1970 a 1980 de forma interessante – com ajuda da ótima fotografia de Alexandre Ermel – o filme comete um pecado ao exagerar em diversos planos com profundidade de campo muito pequena, formando fundos “borrados”, em uma linguagem bastante televisiva. Apesar de tentar mostrar a realidade de um Brasil que vivia sob ditadura militar, o filme falha ao não conseguir colocar a situação política do país como um elemento importante para a formação de Renato, já que tudo se limita a uma discussão quase artificial com seu pai e mais algumas poucas situações que nunca se mostram realmente opressivas – nem mesmo quando ele canta “Que País é Esse” diante de alguns militares em uma cidade de Minas Gerais.  Há de se valorizar, mesmo assim, a maneira respeitosa como o roteiro trata da sexualidade de Renato Russo, sem fazer com que a trama levante bandeiras em prol de alguma luta, mas que tampouco trate da questão com preconceito.

Mesmo assim, “Somos Tão Jovens” faz bem em focar suas atenções naquilo que Renato Russo tinha de melhor: a capacidade de criar letras fortes e impactantes. Ao filmar os amigos que viviam e respiravam a cena musical de Brasília, o longa também é feliz ao mostrar jovens vivendo com realismo os acontecimentos da juventude, mesmo que alguns atores pouco experientes não consigam dar tanta veracidade às suas falas, como o personagem sul-africano que participou do início da banda Aborto Elétrico – apesar de ser responsável por uma interessante cena dramática.

Ainda que com algumas atuações mais fracas, o grande mérito do filme está nas atuações dos personagens principais. Enquanto Sandra Corveloni, como mãe de Renato, continua mostrando seu talento já concretizado (com um prêmio do festival de Cannes por “Linha de Passe”), Laila Zaid demonstra maturidade ao fazer uma personagem que não existiu de verdade, mas que combina diversas amigas de Renato em uma só. O ator Bruno Torres consegue fazer o baterista Fê Lemos com expressões que mostram exigência e teimosia, mas que nunca deixam de transmitir a amizade e o carinho pelo amigo complicado. E nada seria mais importante que o mergulho profundo que Thiago Mendonça fez na personalidade complexa de Renato Russo, com direito a músicas cantadas “ao vivo” durante as filmagens, trejeitos, voz e maneirismos muito parecidos ao de Renato Russo, além de uma carga dramática ideal para valorizar o personagem. Vale destacar a beleza da cena em que Renato homenageia sua amiga com “Ainda é cedo”, canção escrita para ela, na qual a química entre os atores é responsável por uma bela demonstração de afeto.

É uma pena que o início atribulado e o final repentino de “Somos Tão Jovens” façam com que o filme, mesmo com suas qualidades, não seja uma homenagem à altura da importância do protagonista. Pelo menos, o filme traz um pouco da juventude e força da banda Legião Urbana aos adultos que, hoje, se esquecem que todos nós temos nosso próprio tempo.

Nota: 3 Claquetes

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