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Crítica: A Caça

Jagten-01Filme dinamarquês intitulado de “A Caça”, ou Jagten (título original), é um filme reflexivo e sombrio, um drama que nos coloca frente a frente com nosso maior defeito humano, o julgamento.

Então você amigo(a) internauta estará pensando: “Imagina! Eu não não sou do tipo que julga os outros”, e eu lhe contrariarei dizendo que todo  ser humano é, sim, um julgador por natureza. Seja sincero consigo mesmo, admita que é um julgador(a) por natureza, pois essa é a mais pura verdade sobre nós. Será que você não seria um daqueles que atiraria pedras naquele que dizia ser um “enviado” de Deus? Será que se hoje aparecesse alguém (como já aparece), dizendo que é um enviado de Deus, você não acharia bobagem, tiraria sarro dele, e o condenaria? Então o que nos diferencia daqueles que julgaram Jesus, por exemplo? Outros tempos, outra formas de julgamento, porém, o mesmo propósito, a condenação simples e pura. Então vamos ser claros, somos julgadores, isto está no nosso ser.

“A Caça” é um filme que abraça exatamente essa natureza humana, ela mergulha da forma mais “covarde” que um ser humano pode chegar a tal julgamento com o ser mais puro que conhecemos…as crianças.

O filme conta a história de Lucas, ex-professor de adolescentes que acaba indo trabalhar em uma creche. O professor é considerado por todos um bom amigo, bom professor, aquele tipo de pessoa que gostamos de ter ao lado. Porém, apesar de viver essa condição social favorável, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Convivendo com tudo isso, e buscando essa reaproximação do filho, Lucas acaba se vendo imerso a uma situação nem um pouco confortável, pois a pequena Klara, filha de seu melhor amigo e com apenas cinco anos, fica perturbada quando o irmão mostra uma foto “sexual” e ela acabando dizendo que a diretora que Lucas mostrou sua genital à ela. Começa aí um inferno sem tamanho para o ex-professor.

Um adulto, sem histórico criminal, amigo de todos, pode ser na verdade um tarado sexual que abusa de crianças inocentes? Pode! E é exatamente isso que todos passam a acreditar. Amigos, colegas de trabalho, e até as próprias crianças começam a desenhar em Lucas a imagem de um monstro.

É filme é muito bem escrito, é tenso do começo ao fim. Ele oscila entre momentos de tranquilidade e uma tensão muito próxima do pânico entre os personagens, e isso é sem dúvida uma de suas qualidades. Outro bom ponto em temos na história é justamente este conflito entre a inocência infantil e a infantilidade adulta, digo isso, porque temos momentos claros do filme em que a pequena Klara afirma que falou besteiras e que Lucas não fez nada, mas as pessoas acreditam plenamente que ela está confusa e perturbada, e não a escutam, ou seja, é um fato curioso, escutar apenas quando o tema da conversa é “perigoso”, “feio” e não escutar quando é “verdadeiro” ou “autêntico”. Este é um ponto, aliás, que o filme trata de uma forma bem sutil, pois no começo vemos que os pais de Klara literamente a perdem! Ou seja, não sabem onde ela está, para onde foi, e Lucas a encontra e a leva de volta para casa: este fato não acontece uma vez, mas várias, fica aí uma relação clara entre o bem e o mal, pois a menina quando era inocente, e não tinha sofrido nenhum tipo de trauma era uma menina “perdível”, e agora, maltratada, abusada, ela vira o centro das atenções, uma “coitada”! Uma crítica direta aos próprios pais, avós, parentes, etc…que acabam favorecendo muito mais, atitudes negativas e coisas erradas que as certas, “cuidado para não cair” ao invés de “se cair não tenha medo”….”Não corra!” ao invés de “Você é muito rápido!”…etc…

Além deste lado filosófico que o filme nos propõe a pensar, ele também mostra ter uma direção bem segura, e isso deve ser credenciado ao diretor Thomas Vinterberg, que também ajudou a escrever o filme. Ele consegue nos guiar pelo filme de uma forma que nos mostra vários pontos de vista e isso nos dá uma noção muito clara do tamanho da situação, e até mesmo a gravidade que ela toma. A direção de arte e a fotografia são outros ótimos pontos do filme, isto porque existem algumas sequências que são muito bem feitas, saindo de tomadas externos para internas, e a qualidade se mantém da mesma maneira. Um exemplo disso é justamente quando Lucas entrega Klara aos pais depois que a pequena se perdeu, ela entra dentro de casa e brinca com o cachorro com a luz da porta ao fundo, isso deixa amostra apenas sua pequena silhueta.

No elenco temos Mads Mikkelsen, conhecido do grande público por ter sido o vilão de 007 Casino Royale, além dele Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold e Anne Louise Hassing, todos dinamarqueses. Mads por sinal, levou o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes 2012, e sem dúvida foi um prêmio muito merecido. Assim como falei de Marion Cotillard em crítica de Ferrugem e Osso, acredito que estes atores se sentem mais à vontade em seus países, pelo menos nestes dois filmes, vi atuações brilhantes de atores que tinham papéis coadjuvantes nos EUA.

O cinema dinamarquês nunca foi tão vangloriado como o italiano, por exemplo, porém já produziu filmes de altíssima qualidade, como A Palavra (1995), Festa de Família (1998) e Dogville (2003), porém acredito que “A Caça” chegou para elevar o nome do país, e quem sabe conseguir mostrar mais da cultura deste país que é tão rico.

Confira o trailer de “A Caça”:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=G-Da4LmCYWg]

Nota: 5 claquetes

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