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Amour: a vida como ela é, e como ela termina

*Elen Campos Munaier

Muitas vezes assistimos a um filme para experimentar outra realidade. Para rir das mazelas dos outros, para viver aventuras dos outros, para se apaixonar pelas histórias dos outros. Muitas vezes vamos ao cinema e ao teatro para saciar essa necessidade de viver vidas que jamais viveremos. Mas acendem-se as luzes e pronto. Somos resgatados de dramas e tragédias a que fomos submetidos por duas horas, e tudo está bem de novo. A menos que seja um filme como “Amour”.

Os atores veteranos Jean-Louis Trintignant (Un homme et une femme) e Emmanuelle Riva (Hiroshima Mon Amour), não à toa ex-ícones de juventude e beleza do cinema dos anos 60, formam em “Amour” um casal que, no alto da terceira idade, leva uma vida aparentemente feliz até que ela é acometida por uma doença incurável. Idosos e sozinhos, eles se veem na difícil tarefa de enfrentar o fim da vida.

Ah, o fim… Esse que virá para todos e sobre o qual nem queremos pensar aparece na tela com uma avalanche de verdade e honestidade, mostrando que aquela história é a nossa história. Não há como fugir. É cinema, mas trata de algo que não escaparemos quando o filme terminar. E não termina. Com interpretações fenomenais, sem trilha sonora, com ângulos firmes, quase sempre estáticos, “Amour” não facilita nossa empreitada de assistir a uma esposa perder toda sua humanidade, virar de novo criança, morrer aos poucos diante do companheiro que a admirava e com quem dividiu um passado de memórias felizes.

Sim, é sobre velhice, doença e morte, mas é de amor que Michael Haneke trata no seu filme. Sem lançar de instrumentos melodramáticos, é de amor que Haneke fala quando mostra singelos e quase imperceptíveis momentos de leveza, seja em um elogio, na forma como se portam à mesa, na volta para casa de ônibus, no passo que parece de dança, mas é só ele tentando erguê-la do vaso sanitário para colocá-la em uma cadeira de rodas. É de amor que Haneke fala quando mostra o esforço do casal em viver seus últimos dias com dignidade.

Não há romantismo no filme que leva como título palavra tão carregada de sentido. Há só verdade. Tirando a humanidade obrigatória que se espera no trato de alguém que não responde mais por si, sobra só sentimento. Puro, transparente, duro e verdadeiro. E então se pode compreender como o mais desumano dos atos pode transformar-se na mais poderosa e sincera prova de amor.

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