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DJANGO LIVRE – Quando rir não é engraçado

*Elen Campos Munaier

Não é a primeira vez que se levantam contra Tarantino acusando-o de fazer graça com a violência. Mas é que agora quem deu o grito foi um imporante colega de profissão, Spike Lee. O diretor norte-americano afirmou que se recusaria a assistir a “Django Livre” por considerar um desrespeito a seus ancestrais. “A escravidão nos Estados Unidos não é um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto”, escreveu em sua conta no Twitter.

Acho estranho que uma mente tão privilegiada veja no distanciamento – sim, muitas vezes cômico – usado por Tarantino menosprezo a um tema sério. Se Spike Lee se desse o trabalho de assistir ao filme antes de negá-lo, veria que a crítica ao período escravocrata daquele país em “Django” é tão dura como deveria ser.

De fato, ao longo da sessão nos pegamos rindo em um punhado de cenas de morte e gargalhando na sequência memorável em que o diretor desconstrói a imagem demoníaca que temos da Ku Kux Klan, tornando o bando malfeitor uma reunião de autênticos idiotas. Rimos do que sabemos ser abominável. O que eu só posso achar bom, visto que em nenhum outro lugar, a não ser na arte, poderíamos pensar em fazê-lo.

O fato é que nem os alívios cômicos nem os movimentos ruptivos de câmera nem a trilha sonora extremamente contrastante e, por isso, distanciadora, são capazes de diminuir o rigor das atrocidades cometidas contra os negros neste filme. Elas estão lá, são perfeitamente visíveis e viscerais. E emocionam. Ficamos todos revoltados. É aí que Tarantino doma a nossa torcida politicamente incorreta e nos faz desejar uma vingança tão sangrenta e dolorosa quanto for possível. Sim, nos deixamos levar por toda amoralidade que “habita o nosso ser”.

No filme, Django (Jamie Foxx) é um escravo cujo passado com seus antigos proprietários leva-o ao encontro do caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Dr. King precisa matar três irmãos criminosos – justamente os ex-proprietários de Django -, mas não saberia reconhecê-los. Em troca de sua liberdade, o escravo ajudará o justiceiro a cumprir seu objetivo. E esse é só o começo da história.

Sim, Tarantino traz de volta de “Bastardos Inglórios” o magnífico ator austríaco e, mais do que isso: é quase como se trouxesse o personagem de um filme para o outro. Quase. Se em “Bastardos” Waltz era o grande vilão da trama, o nazista frio e impiedoso que caçava judeus, neste a coisa inverte-se: ele é o mentor do herói em sua trajetória contra a escravidão negra imposta pelos brancos. Um  mentor à la Tarantino, claro, pois que é perfeitamente capaz, por exemplo, de matar friamente um pai diante de um filho.

Guardadas as diferenças de contexto e personagem, Waltz mostra a mesma elegância, domínio e impressionante capacidade de lidar com as sutilezas em situações de tensão. De modo que ficamos a esperar que o Dr. Schultz de “Django” mostre-se, a qualquer momento, novamente o dissimulado e impiedoso vilão de “Bastardos”. O que não me parece defeito senão mais um desejo de Tarantino em embaralhas as noções básicas gerais de mocinhos e bandidos. Trazer o vilão alemão de lá e transformá-lo em um benfeitor aqui é também mostrar ao público que crimes contra a humanidade não foram ou são exclusivos de certos povos. Que quase todas as culturas têm seus iguais duros capítulos para se envergonhar. No caso norte-americano, também a guerra de Secessão: 1861-1865, que precede a história deste filme.

Por fim, outro momento que destaco é a beleza metafórica da cena em que Django, que até então vestira a fantasia e se portara como “um branco” sobre o cavalo, mata os capangas que o estão levando à prisão com dinamite. Após a explosão repentina – como só poderia ser – a poeira sobe e então vemos Django surgir da fumaça todo “sujo” de branco. Em seguida ele joga sobre si um galão de água, lava a alma e volta a ser o escravo selvagem, que agora subirá num cavalo branco sem cela, e irá fazer justiça a sangue frio – como desejava, como desejávamos.

Obviamente que há muito mais o que dizer do novo filme de Tarantino, mas este texto não se pretende uma crítica (aqui mesmo no Cinem(ação) você encontra a crítica de Rafael Arinelli). O que resta, depois de ver um filmaço desses, é agradecer, outra vez, a existência de artistas como Tarantino. Por nos fazer rir quando devemos chorar e vice-versa. Tarantino não é 1 em 10 mil. É 1 em um bilhão.

P.S.: Há um importante crítico de cinema em BH que escreveu que “Tarantino não hesita em sacrificar a emoção em prol dos efeitos”. Não sei dos outros, mas eu saí da sessão emocionada à beça. Genuinamente. Apesar do sorriso e das palmas da “mocinha” ao final do filme, saí de lá triste, e tal como o personagem Waltz, não conseguia tirar cenas como a do cachorro destroçando um homem negro diante do escárnio dos brancos. Mas a sensação de tristeza bateu ainda mais forte quando, em um café após a sessão, notei que todas as atendentes eram negras. Lindas moças negras uniformizadas servindo a clientela de maioria absoluta branca. Não pude deixar de fazer minha interpretação para a cena do filme em que o pior dos vilões fantasticamente vivido por Samuel L. Jackson diz que o castigo de Django após matar o sinhozinho será trabalhar, dia após dia, quebrando pedras grandes em menores, até não aguentar mais e morrer. É triste perceber que evoluímos, mas de fato ainda deixamos o trabalho pesado para eles, e o pagamento menor também. E isso está longe de ser uma coincidência.

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