Destrua seus ídolos!

Destrua seus ídolos!

Nas últimas semanas tornaram-se públicas diversas acusações de abuso por parte de grandes, poderosos e influentes atores, produtores e diretores de cinema, em especial os de Hollywood. Isso gerou uma série de debates acerca do posicionamento da indústria cinematográfica diante desses casos e como nós, público de cinema estamos lidando com tais notícias. Afinal, muitos desses acusados tem milhares de fãs espalhados por todos os cantos do mundo e alguns deles são vistos como ídolos de jovens e adultos, o que nos sugere uma reflexão – por que essas pessoas viram ídolos?

 

A origem da palavra ídolo, remete a um termo grego que significa “simulacro”, “aspecto” e “figura”. Ou seja, é a representação de algo ou alguém, originalmente aplicado a deidades mas atualmente aplicado em especial à pessoas mundanas. Atores e atrizes, cantores e cantoras, dançarinos e dançarinas, esportivas e até web-celebrities hoje se tornam ídolos das multidões, as vezes, do dia para noite. Entretanto, esse culto às celebridades não é um fenômeno deste século. Hollywood já vinha se valendo disso há anos.

 

Voltemos para os anos 30, década conhecida como o começo da Era de Ouro do cinema norte-americano. Essa década marca o início do cinema falado (que surgira em 1928) e uma nova maneira de se fazer filmes, onde o artista agora poderia atuar com o corpo e claro, com a voz. Assim começaram as surgir as grandes estrelas de Hollywood, dentre elas, Fred Astaire, Humphrey Bogart, Bette Davis, Greta Garbo, Judy Garland, Vivien Leigh, chegando ao seu ápice na década de 50. Nessa época, Alfred Hitchcock filma três longas (“Janela Indiscreta”, “Ladrão de Casaca” e “Disque M para Matar”) com uma das maiores estrelas do cinema, Grace Kelly. Ali, Hitchcock se consolida como um dos maiores diretores de todos os tempos e entra no rol de grandes ídolos do cinema.

 

Durante esse período, Hollywood se sustentou na figura desses ídolos, que estampavam tanto os pôsteres dos filmes quanto as capas de revistas. Muitos filmes foram sucesso de bilheteria graças a imagem do ídolo. Essa força do ídolo perdura até os dias atuais… quer dizer, perdurava. Vejamos.

 

Como dito no início do artigo, nas últimas semanas, tornaram-se públicas acusações pesadas de abuso por parte de figurões de cinema, e diferentemente do que vinha acontecendo em anos anteriores, o assunto não foi jogado para debaixo do tapete. A repercussão foi gigantesca, em especial no caso do ator Kevin Spacey, que alcançara o auge do sucesso com o personagem Frank Underwood, na série “House of Cards” (2013 – atual). Muitos o tinham como ídolo, não só por seus recentes trabalhos mas também por outros grandes filmes como “Se7en – Os Sete Crimes Capitais” de 1995 e “Beleza Americana” de 1999 que lhe rendeu um Oscar de melhor ator.

 

A reação foi imediata. A imagem Kevin Spacey foi massacrada nas redes sociais e seu nome retirado de futuras produções, inclusive do filme “All the Money in the World”, dirigido por Ridley Scott onde todas as cenas gravadas com o ator serão refilmadas. É bem possível que nunca mais vejamos um filme inédito de Kevin Spacey, o que é um reflexo de uma nova era de Hollywood – uma era onde atitudes de abuso e preconceito não mais passarão incólumes, como acontecera por exemplo, no caso da atriz Maria Schneider que fora abusada durante uma cena do filme “O Último Tango em Paris”, de 1972. A atriz em 2007 em uma entrevista dada ao “Daily Mail” afirma que se sentiu humilhada e “um pouco estuprada” durante as filmagens do filme. A atriz contou que a cena não estava no roteiro original e que foi informada sobre o conteúdo pouco antes da filmagem, mas disse que não houve sexo real. Nessa mesma entrevista Maria disse que se sentira forçada a fazer a cena. Na época o episódio foi abafado, só ganhando força recentemente qual o próprio diretor, Bernardo Bertolucci assumiu o fato. Isso tem dado coragem para que diversas vítimas se manifestem contra os agressores já que felizmente estão tendo vozes para denunciar.

 

Na semana em que esse artigo está sendo publicado, mais um caso de um artista com uma legião de fãs é exposto, desta vez, o ator e comediante Louis CK que é acusado de ter abusado de 5 mulheres (será que voltaremos a rir de suas piadas?). E essa lista de artistas que usaram de seu poder de ídolo para abusar de mulheres e jovens tendem a crescer, trazendo tristes companhias para pessoas como Casey Affleck, Bryan Singer, Jared Leto, Bill Cosby, Steven Seagal, Giuseppe Tornatore, Arnold Schwarzenegger, Brentt Ratner, Harvey Weinstein,  Jonnhy Depp, Woody Allen, Lars Von Trier e Roman Polanski, para citar apenas os que estão vivos. Se formos incluir artistas falecidos, teremos Charles Chaplin, Alfred Hitchcock e Marlon Brando.

 

https://platform.twitter.com/widgets.js

“A HBO diz que Louis CK já não participará de seu programa beneficente Night Of Too Many Stars, e está removendo seus trabalhos anteriores de seu serviço on demand”

 

A verdade é que em tempos onde atitudes como essas não passam mais em branco pela sociedade, a figura do ídolo é cada vez mais questionável. Apegar-se demais ao artista e não a obra pode ser frustrante no dia em se descobre que esse ídolo não corresponde ao que se idealizava dele. Aquele conceito de que “se um ídolo é bom em atuar, logo ele deve ser bom em tudo” precisa ser revisto pois é nessa base que muitos poderosos do cinema se apoiam para dizer e fazer o que quiserem, como se o poder dado a eles os colocassem acima de todos. É um caminho sem volta, a sociedade mudou e Hollywood precisará mudar junto com ela. Movimentos de boicote a filmes que tem em seu elenco atores envolvidos em casos de abuso estão crescendo, e após essa onda de acusações, é possível que cresça ainda mais. Se você, admirável leitor ou leitora, deve ou não aderir a esses movimentos, cabe a você refletir e decidir. E quanto aos filmes antigos de artistas abusadores? Reflita também. O importante é que atitudes machistas, xenófobas, homofóbicas e preconceituosas não passem mais em branco. Se o preço for que um excelente ator como Kevin Spacey não faça mais filmes, ou que um diretor brilhante como Lars Von Trier não faça mais cinema, que paguemos por isso. A arte – o cinema, é muito maior que eles. Destrua seus ídolos. Separe o artista da obra. Valorize o cinema e não as pessoas, por essas, nós sabemos como são.

 

 

Saiba mais em: 

As Mathildas #16: As escorregadas machistas que perdoamos (ou não)

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário: