Crítica: Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)

Crítica: Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)

Ficha técnica:

Direção: Robert Zemeckis

Roteiro: Jeffrey Price e Peter S. Seaman

Nacionalidade e lançamento: Estados Unidos, 21 de junho de 1988

 

Sinopse:

Um magnata cômico flerta com a bela Jessica Rabbit, e pouco tempo depois é assassinado.  As suspeitas recaem sobre o marido de Jessica, o coelho Roger Rabbit, astro do cinema. Agora, somente o detetive Eddie Valiant poderá salvar Roger das garras do temível juiz Doom.

 

Corra, Roger, corra

Divertida homenagem aos filmes de detetive dos anos 40 e 50, unindo animação e atores reais em uma produção classe A que resistiu muito bem ao tempo. Um projeto arriscado feito como superprodução que deu muito certo e se tornou um grande sucesso de crítica e bilheteria.

Los Angeles, 1947. Eddie Valiant (Bob Hoskins) odeia os desenhos que habitam a cidade de Los Angeles desde que algo trágico mudou completamente sua vida, fazendo dele uma pessoa solitária, recebendo apoio apenas da namorada (Joanna Cassidy). Ele investiga um caso de possível adultério envolvendo a bela Jessica Rabbit (voz de Kathleen Turner nos diálogos e de Amy Irving nas canções). Roger Rabbit, marido de Jessica, fica muito abalado ao ver as fotos que supostamente provariam a traição de sua esposa. Tudo se complica quando o “amante” é encontrado morto. Roger se torna o principal suspeito. Porém, ao invés de prender e julgar o coelho, o juiz Doom (Christopher Lloyd) quer também executá-lo. Em fuga, a única pessoa que Roger poderá confiar é o detetive Eddie. Começa aí uma alucinada “caça ao culpado” pelas ruas de Los Angeles e a Desenholândia.

Steven Spielberg, ao produzir a adaptação do romance “Who Censored Roger Rabbit?”, de Gary K. Wolf, trabalhou novamente com seu ‘afilhado’ Robert Zemeckis; ambos haviam feito antes o sucesso “De Volta para o Futuro” (1985). Foi uma decisão super acertada chamar Zemeckis para a direção, porque ele é ótimo com filmes que utilizam efeitos visuais convincentes a serviço de uma boa história.

Em 1988, o cinema experimentava grandes avanços na área técnica. Filmes como a trilogia “Star Wars” e “Aliens – O Resgate” mostraram que o cinema estava pronto para ousar em projetos que antes pareciam impossíveis. Mesclar atores reais com animação tradicional não era algo inédito, e filmes como “Você Já Foi à Bahia?” (1944), “A Canção do Sul” (1946), “Mary Poppins” (1964), “Se Minha Cama Voasse” (1971) e “Meu Amigo, o Dragão” (1977) já haviam utilizado essa técnica. Porém, o projeto de “Uma Cilada para Roger Rabbit” era diferente e mais ambicioso, porque pela primeira vez era necessário criar dois mundos, um real e um de animação, e os personagens animados contracenam aqui o tempo todo com pessoas reais. A interação teria que ser feita pra valer, sem nada ficar em segundo plano. E o público já estava se acostumando com efeitos visuais de última geração; assim, era essencial que os efeitos de “Roger Rabbit” fossem bastante convincentes.

A direção de animação ficou a cargo do especialista Richard Williams. Para a supervisão dos efeitos visuais foi chamado o genial Ken Ralston, gênio que até então havia ajudado a revolucionar os efeitos no cinema, com filmes como “Star Wars – O Retorno de Jedi” (1983), “Cocoon” (1985) e “De Volta para o Futuro”, tornando-se depois um habitual colaborador do diretor Zemeckis. A empresa “Industrial Light & Magic” (uma das melhores do mundo) fez um trabalho brilhante (hoje, alguns efeitos podem soar datados por conta das evoluções técnicas que vieram depois). Na época, o Chroma Key e o CGI não faziam tantos “milagres” como hoje; assim, os efeitos de animação eram fundidos com efeitos práticos. Um exemplo: o que as doninhas estão segurando são réplicas de revólveres de verdade e não algo criado por computação gráfica. Neste caso, os técnicos tinham todo um trabalho em manipular a arma de acordo com os movimentos dos desenhos em cena. Só por aí já dá pra se ter uma ideia do trabalhão que a equipe técnica teve; isso sem falar de efeitos muito mais complicados e elaborados, como Eddie em alta velocidade no táxi Benny (um personagem animado).

“Uma Cilada para Roger Rabbit” foi produzido pela Disney, que, além da participação de alguns de seus personagens famosos como Mickey, Donald, Pateta, Dumbo, Pinóquio e Zé Carioca no longa, conseguiu o empréstimo de alguns personagens de outros estúdios, como Pernalonga, Gaguinho, Patolino, Piu-Piu e Betty Boop (esta aparece em preto e branco).

Alguns atores fizeram testes para o papel principal, mas não pareciam convincentes ao contracenarem com o ‘nada’. O saudoso Bob Hoskins – que até então fazia papéis mais sérios no cinema – fez o teste e agradou a produção. Para interpretar o vilão, foi chamado Christopher Lloyd, que já havia trabalhado com o diretor em “De Volta para o Futuro” e se especializaria em papéis cômicos e excêntricos. O ator e dublador Charles Fleischer faz de forma brilhante a voz de Roger Rabbit e outros personagens.

O filme tem vários momentos marcantes: o início com uma divertida animação com Roger Rabbit cuidando do Baby Herman; o duelo de piano entre Pato Donald e Patolino, seguido de um número musical de Jessica; Roger se escondendo no apartamento de Eddie; a fuga dos protagonistas no táxi Benny; Eddie entrando na Desenholândia; o final repleto de reviravoltas.

É interessante perceber que “Uma Cilada para Roger Rabbit”, mesmo sendo uma aventura com misto de comédia que reúne diversos personagens animados, não é propriamente um filme infantil. Basta ver uma série de diálogos de leve teor sexual envolvendo o corpo esbelto de Jessica Rabbit, e a cena em que o Baby Herman fala sobre sua babá. Tais diálogos e situações remetem aos filmes noir norte-americanos que eram cheios de frases de duplo sentido.

Quase 30 anos depois, “Uma Cilada para Roger Rabbit” continua sendo o melhor filme moderno que mistura atores reais e animação convencional. Em 1992, o diretor Ralph Bakshi dirigiu Kim Basinger e Brad Pitt em “Mundo Proibido”, filme que utilizou também a junção de live-action com animação, mas o resultado não agradou muito. “Uma Cilada para Roger Rabbit” foi premiado com os Oscars de efeitos visuais, edição, edição de som e um prêmio especial para o animador Richard Williams por seu trabalho inovador.

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário: