Crítica – Os Meyerowitz: A Família Não Se Escolhe (2017 – Netflix)

Crítica – Os Meyerowitz: A Família Não Se Escolhe (2017 – Netflix)

Os Meyerowitz é uma dramédia ácida sobre família e sobre as relações excêntricas que ela nos trás

Sinopse: Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman) é o patriarca da família, casado com Maureen (Emma Thompson) e pai de Matthew (Ben Stiller), Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel). Escultor aposentado e extremamente vaidoso, ele fica satisfeito ao saber que está sendo organizado uma exposição para celebrar seu trabalho artístico. Só que, em meio aos preparativos, Harold adoece e faz com que todos os filhos precisem se unir para ajudá-lo a se recuperar, o que resulta em várias situações que colocam a limpo traumas do passado.

Direção: Noah Baumbach

Roteiro: Noah Baumbach

Elenco: Adam Sandler, Bem Stiler, Elizabeth Marvel, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Grace Van Patten, Judd Hirsch, Rebeca Miller

Estreia: 13 de outubro (Netflix)

Um pai excêntrico, uma esposa alcóolatra, um filho recém divorciado e fracassado, uma filha tímida e triste, um outro filho ausente, uma neta sonhadora. Esses são os Meyerowitz, uma versão renovada dos Excêntricos Tenenbaums. Essa família excêntrica é o ponto focal do novo filme de Noah Baumbach (A Lula e a Baleia, Frances Ha).

Os Meyerowitz estreou no Festival de Cannes desse ano, e ganhou destaque por trazer uma atuação elogiadíssima de Adam Sandler. No filme Sandler é Danny, um músico fracassado e recém divorciado que está tendo de lidar com a ida de sua filha Eliza (Grace Van Patten) para faculdade. Nas vésperas da ida para faculdade eles vão jantar na casa do patriarca da família Meyerowitz, Harold (Dustin Hoffman). Ele um escultor aposentado e desiludido casado com Maureen (Emma Thompson), uma mulher alcóolatra que vive viajando. Nesse jantar conhecemos a Jean (Elizabeth Marvel) a irmã triste e tímida de Danny. Também descobrimos que ele tem um outro irmão Matthew (Bem Stiller) o orgulho do pai, e rival de Danny. A partir desse jantar somos apresentados as manias e problemas da família. E quando Harold adoece, os três irmãos são colocados frente a frente e passam a resolver conflitos, e novos traumas começam a aparecer.

E são esses conflitos que são o grande atrativo do filme, e a forma como eles são abordados é muito inteligente. O filme é dividido em 5 capítulos cada um deles focando em um dos personagens e em seus problemas, ou em alguma situação. Sempre usando um humor sarcástico e ácido, o filme mostra de forma nua e crua os problemas dessa família. A preferência de Harold por Matthew mesmo com o desprezo do filho, o desprezo de Harold por Danny mesmo com toda a dedicação dele ao pai, a necessidade de atenção de Harold, tudo é colocado às claras. A única que é deixada um pouco de lado é Jean, que é totalmente desperdiçada. Sua história é só citada brevemente, e é reduzida a uma fala. Quando Matthew pergunta porque mesmo com tudo isso ela continua a visitar o pai ela responde: “Porque isso é o que pessoas decentes fazem.” E a história termina por ali. Uma história que poderia ter sido muito melhor explorada.

Mas enquanto Jean tem pouco destaque, a relação entre Harold, Danny e Matthew é dissecada até o fim. E essa relação traz à tona problemas que são comuns hoje. Danny tem um zelo pelo pai admirável, se preocupa com ele, passeia e cozinha com ele, mesmo com todo o desprezo de seu pai. Além de ser obrigado a ouvir todas as coisas boas que Matthew fez, todas as conquistas de seu irmão. Enquanto seu pai o humilha, falando que ele não trabalha, que era dono de casa sustentado pela esposa. Mas mesmo assim Danny continua ali, porque aquele é seu pai. Já Matthew faz de tudo para se manter afastado, nem o seu filho o pai dele conhece. Ele acha um grande sacrifício ter de estar junto da família. Ele chega a tomar remédio para conseguir almoçar com o pai, e quer se livrar dele a todo momento. Mas depois o arrependimento vem, diferente de Danny que se mantém mais tranquilo. E isso fica claro nos diálogos ácidos, sarcásticos e diretos. E reflete bem a realidade de hoje, onde filhos muitas vezes se afastam dos seus pais por não aguentar mais eles, mas em contrapartida os pais os idolatram. E aqueles filhos que se desdobram pelos seus pais são deixados de lado por eles.

E o que ajuda e muito para que essa situação seja mostrada de forma natural é a atuação do trio principal. Adam Sandler, que inclusive concorreu ao prêmio de ator em Cannes e concorre ao Gotham Awards de melhor ator, tem sua melhor atuação na história. Por mais que isso talvez não seja tão difícil assim, o que Adam Sandler faz no filme é incrível. A expressão corporal dele mostra exatamente o que o roteiro nos vende, um personagem desanimado, cheio de medos, conflitos e se sentindo um fracasso. A forma de andar, de se portar, a expressão facial, a entonação da voz tudo revela um homem deprimido e fracassado. Embora os gritinhos histéricos dele estejam ali presentes, eles fazem parte do personagem, e até são explicados em uma cena do filme. Você consegue entender cada ação dele, porque ele tem um zelo pelo pai, você entende a preocupação dele. E isso só é possível pela atuação do ator.

Ben Stiller assim como Adam, consegue uma performance elogiável. Embora seu personagem seja, até certo ponto, odioso, você não consegue odiá-lo. Com o olhar e entonação de voz ele consegue nos entregar um personagem bem sucedido mas triste. A forma como fala, como anda e até como olha para as pessoas e coisas é de uma melancolia admirável. Dustin Hoffman como sempre está excelente. Harold é um personagem excêntrico, cheio de manias e chato. Em certos momento ele se torna odioso, que você chega a pensar que “homem chato”. Na verdade na conclusão do filme você chega a sentir ódio dele. Se fosse um ator menos capacitado tudo pareceria caricato. Mas em momento algum o personagem soa caricato. Na verdade dá a impressão que poderíamos encontrar alguém assim em qualquer lugar.

Talvez a única que não está tão bem assim é Emma Thompson, sua personagem soa totalmente caricata e irreal. Já Grace Van Patten ficou meio apagada na trama. Embora ela seja o espírito jovem da família que vai continuar a saga dos Meyerowitz, ela é engolida pelos outros membros do elenco. Quem é desperdiçada no filme é Elizabeth Marvel, que é uma simples coadjuvante. Seus dramas não são aprofundados, e daria uma ótima história. Na verdade parece que o único objetivo de citar o problema dela, é criar um motivo para os dois irmãos, fazerem algo juntos,  e não explicar porque ela é assim.

A direção de Noah Baumbach é interessante. Ele utiliza muitos closes mostrando bem as expressões dos personagens. Quase não vemos planos abertos, o que nos dá uma sensação de proximidade com a história e os personagens. A forma como o diretor filma é cadenciada e lenta, o que pode fazer alguns achar o filme entediante. E embora tenha cortes rápidos, isso não ajuda no ritmo do filme que se torna lento, e por vezes cansativo. Mas o diretor faz algumas escolhas acertadas. Por exemplo nunca vemos o filho de Matthew, só ouvimos sua voz. E as grandes obras de Harold não são mostradas só citadas. Isso cria em nossa mente uma imagem que se torna mais interessante do que se os víssemos.

No fim das contas, Os Meyerowitz é um bom filme. O roteiro que mistura humor e drama na medida certa. Acerta em se aprofundar em alguns pontos, e erra em apenas arranhando outros problemas. O trio principal consegue uma atuação elogiável. A direção tem erros e acertos. Mas ao fim somos brindados com um bom filme, que faz pensar e até mesmo rever nossos conceitos. E até pensar: “Será que minha família é tão problemática assim?”

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