Crítica: O Último Traje (41ª Mostra de Cinema de São Paulo)

Crítica: O Último Traje (41ª Mostra de Cinema de São Paulo)

“O Último Traje” (El Último Traje) é um filme esteticamente plástico e com roteiro emocionante.

 

Ficha técnica:
Direção e roteiro: Pablo Solarz
Elenco: Miguel Ángel Solá, Ángela Molina, Martín Piroyanski, Natalia Verbeke, Julia Beerhold, Olga Boladz, Jan Mayzel y Maarten Dannenberg
Nacionalidade e lançamento: Argentina, 2017 (19, 20, 21 e 27 de outubro de 2017 no Brasil – Mostra de Cinema de São Paulo)

Engraçado, sutil, leve, engraçado, honesto e incrivelmente emocionante. Estes são os sentimentos que nos acompanham neste belíssimo filme dirigido e roteirizado por Pablo Solarz. A história retrata a ida de Abraham Bursztein, um costureiro judeu de 88 anos que vai de Buenos Aires até a Polônia com o objetivo de reencontrar um homem que o salvou da morte depois que ele conseguiu sobreviver a Auschwitz. Fugindo de sua família, que deseja colocá-lo em um asilo, e sem notícias deste homem há mais de 70 anos, Abraham vai tentar localizar seu velho amigo e cumprir a promessa que lhe fez no passado: contar sobre a vida que teve graças à sua coragem.

Sabe aqueles filmes que te fazem entrar na “situação cinema”? Não? Explico: entrar neste tipo de estado é esquecer-se de que o mundo existe, de que horas são, quem é você. Isso acontece quando você sai do cinema e nem lembra que dia é aquele e quantas horas se passaram. Pois bem. Eu me esqueci de quem eu era.

 

* A partir daqui o texto apresenta spoilers – recomendo que seja lido por alguém que já tenha assistido ao filme! *

Entrei na trama, junto com o Abraham e viajei com ele. Senti seu esforço ao se locomover (no caso, ele é manco). Senti sua coragem ao largar tudo e voltar para sua terra, para encontrar um velho amigo. Senti raiva quando o roubaram e senti uma felicidade tremenda no fim da história. Um alívio. Descobri por fim que era um filme de sensações. De imersão. Sei que hoje em dia existe uma vasta discussão sobre o que é arte, mas confesso, que para mim, esse filme atingiu este patamar.

 

As cores – e suas ausências

Para quem gosta de belas fotografias e repara na parte técnica, tenho certeza de que vai gostar. O diretor encanta porque usa um recurso para lá de simples – o uso de cenas em preto e branco – em praticamente 80% do filme (esse número saiu da minha leitura mesmo tá!). Essa técnica é usada para fazer paralelos à sua vida atual comparada às suas memórias, que são coloridas e cheias de vida. E isso é incrivelmente bonito. Todos os enquadramentos, super detalhados, mostram uma trajetória difícil e conturbada, porém sem pesar nem tornar algo o ritmo monótono demais.

O roteiro de O Último Traje é típico argentinês da vida. Piadas e comentários bem característicos da minha querida terra, com humor ácido e divertido. As conversas são desenvolvidas de maneira bem peculiar, como um notório senhor argentino as conduziria, mesclando seriedade e “zoeira sem limites”. Sem contar o romance lindo, que a gente esquece que pessoas mais velhas podem ter romances, né? Essa parte é bem fofinha.

 

Porque esse filme entrou na minha lista de 10 filmes preferidos:

Para quem não sabe, sou filha de argentino. Um argentino, que por sua vez, é filho de uma mulher (no caso, minha abuela!) que ajudou e acolheu pessoas judias vindas da Europa depois da segunda guerra. Essas pessoas viraram família. E assisti à esse filme com este recorte: alguém que tem, remotamente, uma família com um histórico triste por causa da guerra. Apesar de o longa não apresentar nenhuma cena de combate, lá, eu vi tristeza. Não tive como não pensar nessa família, no quão triste deve ter sido passar por tudo aquilo. Chorei. Fui sozinha ao cinema, mas fiquei sentada ao lado de uma moça que também se entregou às lágrimas. Talvez ela tenha se entregado ao sentimento passado pelo longa, que é tão puro e simples. A representação, por pequena que tenha sido em comparação à imensidade histórica, foi linda.

 

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