Entrevista é embate: pensamentos sobre o caso Danilo Gentili e Diego Bargas

Entrevista é embate: pensamentos sobre o caso Danilo Gentili e Diego Bargas

Para que serve uma entrevista?

Quando eu frequentei as aulas de jornalismo, aprendi que toda entrevista é um embate. Entrevistar é provocar. Caso contrário, é apenas um bate-papo que não muda nada. Em outras palavras, vale sempre lembrar quando Millôr Fernandes disse que “Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

Dito isto, gostaria de lembrar de um jornalista britânico no Channel 4, Krishnan Guru-Murthy. Preocupado em falar sobre questões mais sérias que apenas “secos e molhados”, o jornalista já se indispôs com pelo menos dois grandes nomes de Hollywood: Robert Downey Jr e Quentin Tarantino. Ao astro de “Homem de Ferro”, Murthy perguntou sobre a relação do ator com o pai e as drogas. “Nós estamos promovendo um filme?”, questionou o ator, antes de sair da entrevista. O jornalista chegou a publicar um artigo sobre isso no The Guardian.

Com Tarantino, não foi diferente. Murthy perguntou por que a violência de seus filmes não está conectada com a violência da vida real, provocando o cineasta. “Eu estou aqui para vender o meu filme”, disse o diretor de Django Livre, que depois reforçou que não queria falar sobre o assunto, visivelmente irritado.

Corta.

 

O que isso tem a ver com Danilo Gentili:

Em uma entrevista recente para a divulgação do filme “Como se tornar o pior aluno da escola”, estrelado pelo humorista e dirigido por Fabrício Bittar, o jornalista Diego Bargas tentou ser provocativo e questionou os “limites do humor”. Ele queria saber até que ponto as gags do filme podiam ser engraçadas, já que envolvem bullying e pedofilia (segundo a matéria e algumas críticas, já que eu não assisti ao filme).

Quem conhece Danilo Gentili não se surpreenderia com a reação dele. Além de responder de forma mais ríspida, o apresentador fez questão de acusar o jornalista no Twitter, levando seus seguidores a perseguirem-no. A notícia mais recente é de que Diego foi demitido da Folha, jornal pelo qual realizou a entrevista.

O Edu Sacer, do Loggado, fez um podcast sobre o assunto.

 

Então entrevista não pode ser embate?

Seria muito mais fácil criticar Danilo Gentili, falar mal dos “artistas egocêntricos” e reclamar de como a cultura de massa tem se “emburrecido”.

Mas eu gostaria de refletir aqui sobre o verdadeiro sentido de uma entrevista.

Afinal de contas, entrevista deve, por definição, ser um tipo de embate. Não precisa ser no sentido “acusatório” como vemos em alguns casos com políticos. Algumas vezes, é mais uma questão de querer entender um posicionamento. É isso que ocorria entre Diego e Danilo.

No caso de um filme como esse e de um humorista tão “polêmico”  (vou segurar a vontade de usar outros adjetivos) como Danilo, qualquer jornalista que se preocupe em ir além dos “secos e molhados” eventualmente perguntaria sobre “os limites do humor” (mesmo sem usar esses termos). Afinal, trata-se de uma persona do “showbiz” brasileiro que de fato não se preocupa em ter limites, e ainda se isenta de responsabilidades sobre a horda de fiéis que o segue (ainda que se aproveite desse poder de influenciador sempre que se manifesta nas redes sociais).

É uma pena que tanto o apresentador do SBT quanto muitos de seus colegas – brasileiros ou gringos – se incomodem quando são provocados. Afinal, uma pessoa que vive de provocar os outros, mas não aceita uma provocação contra si mesmo, certamente tem um problema de entendimento do próprio trabalho.

Arte é provocação. Aparecer nu em uma exibição, contracenar uma piada sobre pedofilia ou desenhar homens transando com cabras são formas de provocar. Todos têm o direito de fazer seus filmes e suas obras, exibi-los, e então se abrir para a crítica que vier depois – venha ela de qualquer natureza ideológica que vier.

 

Tem gente que ainda acha que o jornalismo vai morrer. Não é a internet que vai acabar com ele. Nem mesmo as redações enxutas dos jornais. Tampouco a flexível regulamentação que permite que “qualquer um” seja jornalista. Mas o jornalismo morre um pouquinho toda vez que entrevistas deixam de ser entrevistas por parte de egocêntricos acovardados, que só se preocupam em divulgar seus filmes, isentando-se do debate.

Pior ainda, quando jornalistas que tentam fazer a coisa certa são demitidos.

 

ps: vale a pena ler esta narrativa do humorista Ronald Rios

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  • Tô escrevendo com os pés porque com as mãos eu tô aplaudindo. Bravo, Dani!

  • Excelente reflexão. Parabéns pelo posicionamento. Em tempos dessa onda de agir por instintos é muito bom ver alguém refletindo.

  • Daniel

    Um jornalista não é só um provocador, pq além do ato de provocar, o jornalista é também capaz de publicar matéria em jornal de grande circulação com o nome do entrevistado no título.
    No caso o Danilo alega que a matéria era mentirosa e, como defesa, publicou o vídeo da entrevista sem cortes ou edições, além de publicações em redes sociais feitas pelo próprio jornalista, coisa que outros jornalistas fazem costumeiramente e ninguém reclama.
    E se tem algum problema com a demissão do mesmo, penso que deveria se dirigir à Folha de SP cujo dono, pelo q eu saiba, não tem sobrenome Gentilli.

  • Daniel Lemos Cury

    Então… o entrevistado teve oportunidades de resposta na própria entrevista, creio eu. E entendo que ele poderia criticar o jornalista e dizer que a entrevista não foi boa ou se defender da crítica, sem problema nenhum. Acho que o grande problema foi promover a “caçada” ao jornalista, atacando-o de volta por simplesmente discordar dele. E a demissão da Folha é questionável, ainda que não saibamos o real motivo de ter ocorrido (ou ser algo nebuloso).

    Mais que isso, no meu texto eu proponho um debate sobre a natureza da entrevista: elas devem ser sempre para fazer propaganda dos filmes e não podem ser críticas a eles? É um questionamento importante…

  • Luis Henrique Borges

    O debate era sobre o filme. A unica coisa que ele tentou fazer foi trazer assuntos polêmicos atuais e relacionar o filme dele dentro destes mesmo temas tentando colocar o danilo em uma saia justa! Assisto muitos destes debates e inclusive gosto muito, te garanto que em 90% desse tipo de publicação as pessoas apenas vão para debater sobre o filme! E quem assiste também!

    Outro ponto é sobre um o embate que você mencionou, este tipo de embate acho que deveria ser deixado para outros tipos de entrevistas,gosto desses tipos de entrevistas justamente para saber o que rolou no set e como foi as gravações, dos poucas entrevistas desse tipo que eu vi, simplesmente fechei e ignorei.

    Agora uma coisa eu concordo com você a demissão deste rapaz da folha é questionavel. Eu achei a entrevista muito nada haver com o tema que tava sendo tratado mas não acho que o posicionamento do rapaz chega ao ponto de uma demisão. A verdade que para falar disso teriamos que saber o motivo real da folha.

  • Daniel Lemos Cury

    Concordo, Luis Henrique! O que eu defendo é que o jornalista tem o direito de fazer as perguntas que ele quiser, e o entrevistado responde se quiser, ou não. Isso independe de ser um bom profissional ou não. Entendo que vc quer saber como foram os bastidores do filme, mas muita gente quer debater assuntos mais profundos que um filme traz, por exemplo… e o jornalismo tem esse papel, de “questionar”.
    E de fato, foi uma demissão questionável.
    Ah, e fica de olho que logo vamos publicar um podcast que fala sobre isso!

  • FELIPE AGUIAR

    Até hoje eu procuro essa tal caçada levantada…

    “Aaah, ele divulgou o vídeo para seus milhões de seguidores!!!”

    Sim, e quantos leitores têm a Folha de São Paulo mesmo?!

    Perguntas provocativas (e até mesmo tendenciosas) devem ser feitas, sem sombra de dúvidas. Mas que ao menos sejam inteligentes e bem elaboradas, e não apenas uma colcha de retalhos com o único intuito de levantar polêmica barata, como foi o caso.

    Posso estar enganado, mas acredito que o autor do texto não leu o artigo do Diego e nem viu o vídeo da íntegra da entrevista, e por isso está aproveitando o assunto badalado para tratar desse tema (que de fato é importantíssimo). Caso contrário, passo a acreditar que a opinião exposta já está influenciada pela visão já criada em relação ao comediante. Daí o diálogo fica prejudicado.

  • Daniel Lemos Cury

    Felipe… eu interpreto que é diferente fazer uma análise crítica de um filme (independente de como ela é embasada) e fazer uma crítica a uma pessoa.
    Sim, as perguntas foram focadas na polêmica e podem não ter sido boas… mas defendo que um jornalista tem esse direito, sim.
    E não existe leitura e interpretação isenta de opiniões prévias. O simples fato de fazer acusações da preferência política de uma pessoa também já se baseia em opiniões prévias. Somos todos formados por tudo o que vivemos antes.
    Brigadão por comentar! 🙂

  • FELIPE AGUIAR

    Concordamos que o jornalista tem de perguntar. Mas pelo menos que ele tenha competência para isso.

    Como sugestão, caso já não o tenha feito, indico que assista o vídeo da entrevista. Garanto que você vai perceber que o pobre Diego Bargas é indefensável no que diz respeito a ser contestador.

    Ps.: Não conhecia o site. Vou dar uma conferida no restante do material. Parece ser bem interessante.
    Abraços!

  • Rubens

    Daniel, o que mais pegou mesmo não foi a entrevista em si, mas a matéria que ele publicou. Distorções, contradições e mentiras. Tanto é que, ao ver a entrevista na integra, você percebe que a entrevista foi bem diferente da matéria publicada. ACREDITO EU que ele tenha sido demitido por esse ponto (e também por conta da entrevista, mas esse detalhe foi o menor)

    Não creio, de forma alguma, que o Danilo tenha alguma influencia na folha, até por que esta midia em questão é uma das que ele mais debocha.

  • Marcus Benetti

    Publiquei um comentário sobre o assunto na página do pai do jornalista, que foi deletado. Ele não continha qualquer ofensa ou desrespeito. Entretanto o pai do jornalista demitido, Osmar Bargas, achou que poderia sumir com o post.

    Isso sim é um desrespeito. O que me leva a inferir que o jornalista possa não ter tido bons exemplos paternos. Pelo menos no que diz respeito a opiniões contrárias. E isso é fundamental no jornalismo: opiniões divergentes, em convivência respeitosa.

    Eis o meu post que foi apagado pelo senhor Osmar Bargas, pai do jornalista Diego Bargas:

    “Não concordo com o endeusamento que alguns de vocês estão fazendo do jornalista demitido. Não desejo, de forma alguma, mal a ele. Mas ele precisa e deve entender que no caso da entrevista ele foi infeliz. Se portou mal. Já vi as imagens e li a transcrição algumas vezes, e não consigo ver qualidade na atitude do jornalista. Nem vou falar do Danilo Gentilli, que foi um babaca. Mas como entrevistador, Diego Bargas tirou nota vermelha.”
    Lamentável, hein, senhor Osmar Bargas? Seu filho não merecia tamanha insensatez.

    (em tempo: não adianta deletar pela terceira vez. Agora foi publicado, propositalmente, em diversos outros veículos)

  • Daniel Lemos Cury

    Marcus, entendo perfeitamente a sua opinião… mas sugiro que vc pense melhor antes de considerar que apagar um post na rede social… ele pode ter feito isso para evitar outros comentários. Acho que vale a pena considerar que a situação pode ter sido um pouco dolorosa para ele a ponto de ele ter preferido apagar.
    Fique à vontade para comentar por aqui… mas não julgar um pai por uma ação apenas.