As Referências Religiosas em Blade Runner 2049

As Referências Religiosas em Blade Runner 2049

Que Blade Runner foi um marco na história do cinema isso todo mundo sabe. E que a nova obra, dirigida por Denis Villenueve é umas das melhores (talvez a melhor) do ano, também não é segredo… Você inclusive pode ver a nossa crítica completa SEM spoiler clicando aqui. Nela analiso vários aspectos, com foco no visual e desenvolvimento dos personagens.

Já o presente texto, que será COM spoiler (ou seja, vou falar sobre detalhes finais da trama), abordará um dos simbolismos do longa. Digo “um dos”, pois há vários. Daria um texto à parte só a questão da água ou então sobre a natureza do diversos tipos de Replicantes, como fez Aniello Greco no Razão de Aspecto, ou ainda tratar de cada detalhe que referencia o filme anterior – como as propagandas, personagens e citações literárias.

Mas aqui o recorte se deu pois o tema também está no DNA do longa e no cerne de discussões centrais do filme.

Após a imagem, todas as reviravoltas serão abordadas.

DAQUI EM DIANTE SERÃO REVELADOS DETALHES FUNDAMENTAIS DO FILME BLADE RUNNER 2049. RECOMENDA-SE LER APENAS QUEM VIU A OBRA.

1) Um dos grandes motes do filme é a questão do milagre, no caso um replicante poder parir um filho. Não tarda para descobrirmos que Rachael (Sean Young) possui um filho com Deckard (Harrison Ford). Tal acontecimento ganha o status de “milagre”, dada a condição não humana da mãe (e do pai?).

A coisa tem outras proporções quando se vai ao texto bíblico e recordamos que Raquel, a personagem do livro, era estéril e que depois teve dois filhos, no parto do segundo ela morre. À semelhança da narrativa bíblica, Rachael, do filme, também morre no parto, após anos de descrença na possibilidade materna. A importância desse momento é tanta que Sapper Morton (Dave Bautista) aceita morrer pela causa/ pelo milagre.

2) Com uma menção menos bombástica, temos a rápida fala da Comandante Joshi a K (Ryan Gosling), onde ela diz que ele “tem se saído bem sem…” Quando questionada por ele sem o quê, a reposta é curta e grossa: “sem alma”. Essa frase denota uma certa desumanização do personagem, remetendo a discussão central de Blade Runner.

3) Wallace (Jared Leto) é outra figura emblemática na relação Blade Runner / religião. Ele se vê como um deus (um faraó?). O jeito que ele criou para multiplicar os replicantes fez com que o poder subisse à cabeça e esbanjar uma aura divina, no sentido de poder da criação/destruição. Tanto que a aparição dele não tem um começo (o começo está no curta divulgado antes, ou seja fora do tempo do filme em questão) e tampouco um fim. Esse arco além-temporal é condizente com a visão de que deus também não está condicionado às que questões do nosso tempo.

4) Em Blade Runner 2049 vemos algo inédito no universo do filme: um replicante nascendo. Além do signo de cair através de um tubo e de nascer chorando, o barro como elemento intrínseco à criação é citado explicitamente.

5) “um anjo não pode entrar sem ter um presente”, frase de Wallace (de novo ele) para Luv (Sylvia Hoeks). Ele também fala sobre a invasão do Éden em um momento que o filme praticamente para para que tal viés seja posto em tela. Mas atentem-se para o “praticamente”, já que ele não chega a ter o texto pesado ou o ritmo prejudicado por isso.

6) A Dra. Ana Stelline (Carla Juri), responsável pela criação das memórias que serão implantadas nos Replicantes, diz que: “em toda obra há um pouco do criador”. Quando entendemos que a imagem na cabeça de K era na realidade de Ana, fica mais fácil associar a questão à onisciência e ao “feito à imagem e semelhança”. A famosa citação pode ser expandida para a condição de todos os Replicantes, aliás.



Essa foram algumas das várias referências. Quem souber outras, coloque aí nos comentários 😀

Se quiserem me ver (e não só me ler) falando sobre Blade Runner, gravei um vídeo junto com o pessoal do Razão de Aspecto, onde debatemos sobre o longa, alerta de spoiler no vídeo:

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