7 pontos positivos e 3 pontos negativos de “Merlí”
Merlí: 7 pontos positivos e 3 pontos negativos de "Merlí"

7 pontos positivos e 3 pontos negativos de “Merlí”

*este texto contém pequenos spoilers da primeira e da segunda temporada de Merlí

 

A esta altura, você já deve ter ouvido falar da série catalã “Merlí”. Produzida pela TV3, emissora que produz conteúdo em catalão, a série se tornou sucesso na região autônoma espanhola e ganhou destaque internacional após ser exibida pela Netflix (que disponibilizou a primeira temporada e deve lançar a segunda em breve).

No momento atual, a série se faz interessante por inúmeros motivos. Ela discute o valor da Filosofia nas escolas, tema importante de ser discutido após a tal “reforma do Ensino Médio”, e ainda cria vínculo do público com a Catalunha, que vive um momento de luta por se tornar independente da Espanha. E como se não bastasse, “Merlí” ainda traz diversos debates importantes para a sociedade (mesmo que com problemas, como apontado mais abaixo), incluindo a exposição nas redes sociais, a transfobia, o conservadorismo de alguns pais, entre muitos outros.

Antes de começar, vale situar o leitor: criada por Héctor Lozano, a série conta a história de Merlí Bergeron, um professor de filosofia que, após ser despejado do apartamento onde mora, vai morar com a mãe e leva seu filho adolescente junto, com quem não tem uma relação tão boa, para logo em seguida ser chamado para dar aulas na escola em que ele estuda. Lá, Merlí demonstra um estilo incomum de dar aulas que provoca diversos problemas – e soluções – na turma e nos colegas professores.

As temporadas possuem 13 episódios. A primeira foi exibida em 2015 e está disponível na Netflix. A segunda deve estrear por lá em breve, mas pode ser facilmente encontrada aqui com legendas em espanhol. A terceira começou a ser exibida semanalmente no dia 25 de setembro deste ano.

Como este texto não pretende ser uma crítica “clássica”, decidi listar pontos positivos e negativos da série.

LEIA A CRÍTICA DA PRIMEIRA TEMPORADA AQUI!

 

Pontos positivos de Merlí:

 

1- Aprendizado sobre filósofos

Se as aulas de filosofia (se é que você as teve) no Ensino Médio eram chatas, “Merlí” conta alguns conceitos filosóficos muito interessantes de forma leve e divertida. Platão e Aristóteles dividem espaço com Judith Butler, Hume, Epicuro, Nietzsche, e muitos outros. Os episódios levam os nomes dos filósofos que são “tema” de cada um.

 

2- Debate sobre educação

Na série, os alunos tiram informações do debate em sala de aula para resolverem seus problemas. Não de forma direta, e nem sempre clara, mas sempre tem um ou mais personagens que aplica o que aprendeu. O próprio personagem “Merlí” se aproveita de situações que acontecem com os alunos e na realidade da escola para escolher o assunto da aula, sem seguir muito o “currículo escolar” exigido pelo sistema.

Se isso não é discutir educação, eu não sei o que é. Além de mostrar uma importância muito grande de se estudar filosofia, a série mostra como a escola pode ser um local de aprendizado para a vida, e não apenas um lugar de acúmulo de conhecimento enciclopédico (é interessante que, em um ou dois momentos, Merlí manda os alunos pesquisarem na Wikipédia).

Intrometido na vida dos alunos (mesmo que, às vezes, contra sua própria vontade), o professor de filosofia ensina, ao seu modo, como os alunos podem lidar com dificuldades reais da vida, como a ausência dos pais, desencontros amorosos, e tantos outros.

 

3- Atores ótimos

Alguns podem argumentar que os adolescentes são interpretados por atores mais velhos, mas eu discordo. Embora os atores estejam na faixa dos 20 anos, interpretando personagens com algo entre 15 e 18, o fato é que eles foram muito bem escolhidos, e garantem a possibilidade de (nem tantas) cenas de sexo e com consumo de bebida e cigarro. O elenco adulto é muito bom, com destaque ao protagonista extremamente carismático de Francesc Orella, e no elenco adolescente merecem destaque Elisabet Casanovas como Tània e Carlos Cuevas como Pol, que dão uma veracidade incrível ao que vivem em tela. Basta notar como a personagem de Tània atua de forma conciliadora sem jamais deixar de ter uma personalidade bem definida, além de exibir caras e bocas impagáveis diante de algumas situações curiosas ou constrangedoras que presencia.

E Pol é simplesmente o personagem mais complexo e interessante da trama. Nos primeiros episódios, é apenas o “repetente pegador e descolado” da sala, do tipo que faz bullying com os outros. Ao longo da série, o espectador é apresentados a outras facetas dele. Além de o personagem ter um arco dramático interessante, o ator consegue imprimir um carinho muito grande em relação aos amigos mais próximos, o que além de trazer bastante veracidade, faz todo o sentido quando conhecemos seu “outro lado” ao longo da trama.

 

4- Personagens clichês desconstruídos

Não é só Pol que tem a imagem de seu arquétipo aprofundada de forma a ir além daquilo que ele parece. Praticamente todos os personagens são mostrados além daquelas imagens típicas das escolas. O “nerd” Joan tira boas notas pela disciplina rígida dos pais, a “menina fácil” Berta sofre com o ambiente machista – e fica muito claro do que ela sente em relação à família, entre outros. Quem explorou muito bem esse debate foi o artigo do Henrique Haddefinir no Série Maníacos (altamente recomendados).

 

5- Momentos brilhantes

Existem alguns momentos de Merlí que são simplesmente belíssimos. No episódio Foucault (S01E07), a montagem que alterna entre cenas de Bruno dançando, Pol chorando e Joan se desfazendo de uma decisão, enquanto o frio personagem-título se emociona ao ver o filho Bruno, é emotiva na medida certa. Mas nada se compara com os momentos finais do episódio Judith Butler (S02E07), em que uma professora trans se sente integrada em um jogo de futebol realizado pelos alunos. Melhor que isso, só o melhor episódio de todos: Descartes (S02E09). Feito de forma a homenagear descaradamente o filme O Clube dos Cinco, o episódio mostra os alunos, após uma detenção, chegando a conclusões relacionadas à filosofia de Descartes de uma forma que vai muito mais além do debate no filme americano homenageado.

As cenas de uma certa “festa na piscina” que a turma faz soam muito mais verossímeis que qualquer festa americana que assistimos nas séries em inglês.

E, por fim, o que dizer da “anedota da vaca”? Quando dita, ela tem o poder de levar alguns personagens – e muitos espectadores – a tomar atitudes importantes. Só que viu é que vai entender.

 

6- Língua diferente (pero no mucho)

É no mínimo interessante assistir a uma série em catalão. Como não há muitas produções no idioma, é certo que a maioria das pessoas não teve muito contato com ela. Apesar de ser semelhante ao espanhol e, consequentemente, ao português, o catalão tem pronúncias diferentes e palavras curiosas. Isso aumenta ainda mais a possibilidade de aprendizado: nunca é demais conhecer uma língua diferente! Quem opta por ver os episódios legendados em espanhol acaba tendo uma aula dupla de línguas estrangeiras.

 

7- Discussões (quase) universais

Pais conservadores, relacionamentos, exposição nas redes sociais. Estes temas estão longe de serem específicos de uma região. O mesmo pode-se dizer sobre homossexuais tentando “sair do armário”, transgêneros e sua inserção na sociedade, e pessoas com agorafobia.

Considerando as situações dos personagens, a realidade das pessoas e até mesmo as dificuldades enfrentadas pela escola pública, podemos adaptar os temas para a realidade de qualquer grande cidade do mundo (ou pelo menos do ocidente). É claro que a realidade de uma escola pública espanhola possui um pouco mais de privilégios do que a maioria das que existem no Brasil, mas o fato é que os temas explorados por “Merlí” são muito mais universais que locais.

Pontos negativos de Merlí:

 

1- Elenco muito branco

No quesito representatividade, “Merlí” não é muito bacana. Não sei qual a proporção étnica da população da Catalunha… mas duvido que seja na mesma proporção que está na série. Além de ter um excesso de personagens brancos, “Merlí” me causou incômodo com alguns poucos personagens negros figurantes, sem absolutamente nenhuma fala. Em alguns momentos, a escola é vista como um ambiente multiétnico, mas no qual não há uma real preocupação com a representatividade.

 

2- Problemas “fáceis de resolver”

Com a quantidade de tramas e arcos dramáticos, “Merlí” é muitas vezes simplória na resolução de problemas. Um pai conservador e incisivo repentinamente se aquieta, uma mãe ausente que descobre “do nada” poder mudar os turnos do trabalho, e até mesmo toda a questão da síndrome do pânico de Ivan é resolvida com certa simplicidade. Algumas tramas também são facilmente esquecidas. Entendo que o objetivo da série é passar por esses temas e apresentá-los, mas em alguns casos, a resolução soa bastante simples: e a questão relacionada ao vídeo de “revenge porn” de uma personagem soou não apenas simples de resolver, como trouxe uma resolução bastante machista. O que nos leva ao último problema que trago neste texto.

 

3- Machismo e protagonismo masculino

Se a falta de representatividade étnica é um problema, o mesmo pode ser dito sobre a falta de representatividade feminina. Enquanto os alunos possuem suas vidas aprofundadas, são poucas as alunas que conquistam tempo de tela para mostrar mais detalhes de suas famílias e suas vidas. Não é um desastre total, mas há problemas. A ausência da família de Tània é sentida, assim como o grande foco da narrativa no charme de Merlí diante das mulheres. Mas nada supera a resolução do problema enfrentado por Mónica após o arco no qual um vídeo com ela circula por toda a escola: o debate é fraco (apenas sobre a questão de se expor nas redes sociais) e o discurso do professor de filosofia é cheio de problemas. Sobre isso, sugiro a leitura deste incrível artigo sobre a misoginia da série (texto em espanhol, facinho de ler).

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