Crítica: O Estranho que Nós Amamos (2017)

Crítica: O Estranho que Nós Amamos (2017)

Ficha Técnica:

Direção e Roteiro: Sofia Coppola.

Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle fanning, Angourie Rice, Emma Howard, Oona Laurence, Addison Riecke.

Nacionalidade e ano de produção: EUA, 2017.

 

Sinopse:

Durante a Guerra de Secessão, um soldado inimigo é encontrado por uma menina e levado para uma mansão isolada. Ali, ele é cuidado e cortejado por algumas mulheres. Porém, uma forte tensão vai surgindo, culminando em algo trágico.

 

A versão de 1971

A primeira versão do romance de Thomas P. Cullinan – publicado pela primeira vez em 1966 – foi dirigida por Don Siegel e estrelada por Clint Eastwood (eles fizeram alguns filmes juntos). Com o liberalismo sexual em ascensão no início dos anos 70, Siegel conseguiu fazer um filme mais ousado e repleto de insinuações. A cena inicial com a menina achando o cabo John McBurney (Clint) ferido na floresta já chama a atenção pelo fato de John dar um beijo na garota de apenas 12 anos (hoje em dia isso causaria sérios problemas aos produtores).

Aos cuidados da diretora Martha Famsworth (feita pela excelente Geraldine Page) e de suas alunas e professora, John se vê aos poucos em um universo exclusivamente feminino, que aos poucos abre espaço para jogos de sedução. Porém, algo mudará a tranquilidade daquele ambiente. Temos aqui um bom veículo para o estrelato de Eastwood, que está confortável em um de seus papéis que fogem do perfil “homem de poucas palavras” em que o ator se especializaria posteriormente.

Falando novamente em insinuações ousadas, vemos na figura da diretora uma mulher que no passado mantinha uma relação de incesto com seu irmão. Uma outra cena cena envolvendo a diretora, mais especialmente uma cena de sonho, revela algo mais de sua persona. Uma das personagens mais marcantes é da escrava Hallie (Mae Mercer), que tem uma função importante na história, mostrando a John que ambos estão ali como prisioneiros. Não é um filme perfeito, onde em alguns momentos seu ritmo “aventuresco” destoa um pouco do que é basicamente um romance com um misto de suspense. Alguns outros elementos ficaram datados. Ainda assim é um bom trabalho de composição de personagens.

A versão de 2017

O filme que deu o prêmio de melhor direção no Festival de Cannes a Sofia Coppola altera de forma considerável o trabalho feito por Don Siegel em 1971. Uma das primeiras mudanças é notada já no início quando não vemos em cena a escrava Hattie (ela está presente no livro). Aqui sentimos sua falta porque ela no original tem uma forte presença como uma voz da consciência de um período obscuro da história norte-americana. Assim, Sofia optou por um ambiente habitado exclusivamente por pessoas brancas. Aliás, não é apenas Hallie que some na nova versão, mas também alguns soldados e prisioneiros mostrados na versão anterior. Entender o porquê de tais decisões se torna uma tarefa meio difícil, principalmente quando vemos que há outras mudanças perceptíveis no decorrer da história.

Sofia é menos ‘atrevida’ que Siegel, optando por não mostrar certas nuances sexuais, que, por incrível que pareça, poderiam criar certa polêmica nos dias atuais. E estamos aqui comparando um filme de 2017 com uma obra feita há 46 anos.

Colin Farrell está bem como John McBurney. Porém, seu personagem – diferente da versão setentista – tem menos presença em cena. Isso porque Sofia optou por mostrar a história centrando mais no ponto de vista das mulheres. Se antes, Eastwood vagava por vários locais da casa, seduzindo quase todas as mulheres do local, na versão atual vemos Farrell em poucas cenas fora da casa. Reparem na cena em que ele olha uma teia de aranha, em uma clara simbologia de seu próprio estado naquele local. Nada de garotinhas; aqui, John se envolve somente com a professora Edwina (Kirsten Dunst, atriz de outros dois trabalhosde Sofia) e a aluna Alice (Elle Fanning). Seu envolvimento com a diretora (Nicole Kidman, sempre muito bem) – que no original era mais ‘sexualmente’ aberto – na versão de Sofia fica mais contido.

É interessante reparar que estamos diante de uma obra que foge mais das “intrigas palacianas” envolvendo sedução, algo mostrado com mais frequência por Siegel em sua visão, digamos assim, dominantemente machista. Entra na nova versão um olhar mais feminista, onde as mulheres são mostradas sem um aspecto de vilania, e sim com propósitos movidos mais por seus sentimentos.

Não gosto de revelar detalhes da história (há quem ainda não viu nenhuma das versões ou leu a obra literária), por isso irei revelar o mínimo possível o que acontece na segunda parte do filme; direi apenas que algo brutal irá mudar a vida de todos ali, inclusive de John, o que acarretará uma série de situações tensas. E se Sofia até aqui se conteve em mostrar algo mais forte, ela vai mudando o tom de sua obra, tornando-a mais impactante. É aí que vemos uma cena-chave que revela que a diretora não é propriamente uma mulher vingativa – mais uma vez comparando com a versão dos anos 70 – mas uma pessoa justa e que age de forma mais racional. A diretora, porém, evita mostrar a cena da serra (vejam a versão antiga), optando pela discrição.

“O Estranho que Nós Amamos” agradou em Cannes mas dividiu opiniões do público mundo afora. Nenhuma novidade em se tratando de uma diretora que opta por um estilo mais lento, penetrante, econômico, sem acelerar ou mostrar mais do que deveria. Filha do prestigiado diretor Francis Ford Coppola, Sofia herdou do pai o talento na direção depois de algumas tentativas frustradas como atriz (como podemos ver em “O Poderoso Chefão – Parte III).

Obras como “As Virgens Suicidas” (1999), “Encontros e Desencontros” (2003) e “Bling Ring: A Gangue de Hollywood” (2013) revelam uma diretora com um olhar mais direcionado às mulheres. Sendo assim, era de se esperar que sua visão da história de mulheres cercadas por um estranho em uma época de guerras e conflitos, rendesse discussões acerca do comportamento feminino, tirando mais o peso da culpa remetido a elas, e injetando doses maiores de paixão e humanidade em suas ações (e reações).

Não podemos deixar de fora a parte técnica que é impecável; a começar pela esplêndida fotografia de Philippe Le Sourd, com tons realistas, utilizando luz natural, criando uma atmosfera por vezes onírica. A direção de arte é deslumbrante, assim como os figurinos que foram feitos em cima de uma vasta pesquisa histórica. A trilha sonora (que é mais contida) é marcante e pontua muito bem os momentos de paz e aflição da obra.

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