MÃE! Já nasceu explicado e muita gente nem percebeu isso
Mãe! - filme de Darren Aronofsky

MÃE! Já nasceu explicado e muita gente nem percebeu isso

Falar do cinema de Darren Aronofsky sem falar de seus personagens obcecados é uma tarefa quase impossível. Afinal, Aronofsky e obsessão são duas palavras indissociáveis, e isso fica muito evidente quando analisamos toda filmografia do diretor que começou em 1998 com seu primeiro longa-metragem chamado PI. Ali temos um matemático obcecado em encontrar um padrão numérico que explicasse a vida. Essa obsessão o coloca na mira de fanáticos religiosos e de gananciosos investidores da bolsa de valores. Depois em 2000 ele lança RÉQUIEM PARA UM SONHO, desta vez com 4 personagens que transformam suas obsessões em vícios o que os levam a ruína. Então avancemos para 2006 com A FONTE DA VIDA, filme sensível que fala da obsessão de um médico cirurgião que se abdica de viver para encontrar a cura para um câncer que está matando sua esposa.  Dois anos depois temos O LUTADOR (2008), filme que acompanha um lutador e sua obsessão pela carreira mesmo ele estando em declínio físico. Na sequência é lançado CISNE NEGRO (2010) contando a história de uma bailarina obcecada pela perfeição e depois temos NOÉ (2014) que retrata a obsessão cega pela fé.

 

Toda essa trajetória culmina no seu mais recente trabalho, MÃE! que chega aos cinemas brasileiros repleto de polêmicas por conta das vaias recebidas no Festival de Cinema de Veneza, mas ao mesmo tempo cheio de expectativas pois no mesmo festival o filme foi bastante elogiado por outra parte dos críticos ali presente.

 

Como tivemos algumas exibições especiais do filme, além da cabines para críticos e jornalistas, o filme já está sendo discutido por muitas pessoas que alternam opiniões entre “filme maravilhoso, incrível, um dos melhores do ano” e “porcaria, indecifrável, pedante, não entendi nada”. E verdade seja dita, amar ou odiar uma obra como MÃE! é completamente razoável e compreensível. No entanto o que tem chamado a atenção deste que vos escreve é a quantidade de pessoas dizendo que a obra é muito difícil de ser entendida ou quando não, indecifrável, ignorando o fato de o filme já ter nasceu explicado. Como assim?

 

Primeiro eu gostaria de avisar que esse texto terá spoilers, pois como o objetivo dele é fazer com que as obras de Aronofsky se expliquem por si só, é capaz de você entender o filme antes mesmo de assisti-lo, então veja o filme antes. Caso queira ler um texto livre de spoilers clique aqui.

 

Disclaimer feito, MÃE! conta a história de um casal que se isola em uma casa no meio do nada. Ali o personagem de Javier Barden, um poeta famoso busca tranquilidade para superar um bloqueio criativo, enquanto a personagem de Jennifer Lawrence tenta restaurar a casa que está em péssimo estado de conservação. Um dia esse casal recebe a visita de um estranho (Ed Harris) que é recebido como hospede pelo anfitrião, ainda que a anfitriã não concorde muito com a ideia. A partir desss visita, situações das mais absurdas começam a aparecer em tela levando tanto a anfitriã quanto o público ao desespero diante dos acontecimentos.

 

Essa exploração do absurdo em tela já havia sido explorado por Darren Aronofsky em CISNE NEGRO onde ele brinca a todo momento com o que é real e o que é surreal no filme. A transformação visível de Nina (a dançarina) em um cisne começa já na primeira cena, mostra que o filme não se apegará ao que é real e sim ao que é simbólico, metafórico ou alegórico. Tudo em CISNE NEGRO é simbólico. Sua relação com mãe é o retrato de uma dominação moralista que castra a própria filha. A cor rosa é o simbolo da inocência à ela imposta que é perdida ao longo do filme. A rivalidade com Lily, símbolo da paranoia e conflito interno que Nina enfrenta. Agora traga esses elementos para MÃE! e veremos que nada no filme é o que parece. O filme é repleto de simbolismos. Reparem como objetos são mostrados em destaque repetidas vezes assim como foram feitas em CISNE NEGRO. Um objeto chave nesse jogo de símbolos é o cristal na sala de Barden. Ele exibe o objeto ao mesmo que o protege como se fosse um objeto proibido, numa clara referência ao fruto proibido de Gênesis. Aqui então já identificamos que o proprietário desse objeto é o próprio deus, ou como o próprio Aronofsky chamara em NOÉ, o criador.

 

Além dos simbolismos, MÃE! é um filme cercado de temas que se repetiram nas obras de Aronosfky, portanto voltemos para 1998 com PI. Ali temos a paranoia de um homem que é perseguido por lideres religiosos e investidores da bolsa, por aparentar ter a respostas a suas perguntas (religiosas ou financeiras). O mesmo acontece em MÃE! quando a anfitriã é perseguida por fiéis cegos que destroem sua casa para poderem estar próximo de deus, assim como aqueles judeus em PI entendiam que aquele padrão é algo divino e que deveriam tomar posse daquilo. Essa cegueira causada pela fé irracional é um tema que Aronofsky gosta de trazer para seus filmes questionando a forma como nos lidamos com a iconografia.

 

Nesse ponto, o filme NOÉ passa a conversar bastante com o filme MÃE! com sua temática de obsessão e fé. Se Barden aqui é deus, aquela casa seria o planeta Terra, tendo em belo cômodo onde guarda-se o supracitado cristal, um Jardim do Éden. Já Jennifer Lawrence é a mãe-natureza (chamemos de mãe como sugere os créditos finais) que restaura a casa / planeta com todo anelo. Novamente Aronofsky provoca reflexões acerca da fé obcecada que cega da humanidade fazendo com que ela destrua não só o planeta mas também a si próprio como já foi feito em NOÉ. Ligando esses pontos, as demais alegorias do filme começam se tornam óbvias, mas ainda assim interessantes – vamos à elas:

 

  • Ed Harris é Adão, um homem estranho que aparece na Terra e função de deus para adora-lo. Mas enquanto este se distrai com o próprio deus bajulando-o incessantemente, a mãe já percebe os traços da maldade humana e sua pre-disposição de destruir o ambiente em sua volta.
  • Michelle Pfiffer é Eva, a mulher que veio depois do homem, sendo ela aquela a questionar as ações tomadas pela mãe chegando a desafia-la e então, junto do marido, tomando posse e quebrando o cristal proibido, ou fruto proibido, sendo assim expulsos do paraíso mas não da casa, haja visto, deus tê-los perdoados em troca de sua adoração.
  • Os filhos do casal acima, naturalmente são Caim e Abel que se rendem a violência e ao orgulho, o que resulta no assassinato de Abel.
  • Aqueles “convidados” são os humanos que cegados pela obsessão pela fé se entregam a violência, egoismo e vaidade e passam a destruir a casa / planeta onde estão além de distorcerem as palavras do poeta promovendo discursos de ódio e destruindo uns aos outros.
  • O filho que nasce da mãe é facilmente identificado como Jesus, que é morto às mãos da humanidade que chora com a culpa de sua morte, causando a ira da mãe-natureza que diferentemente de deus, não vê esperanças na humanidade e destrói tudo representando ali o Armagedom de Apocalipse.

 

Outra temática presente em MÃE! que vemos em pelo menos um outro filme do diretor é a questão do abuso e dominação psicológica contra as mulheres. Em CISNE NEGRO Nina é completamente abusada, inclusive fisicamente pelo seu diretor de dança. Além disso ela é dominada psicologicamente por sua mãe que controla todos os movimentos da garota. Nesse novo trabalho, Aronofsky expõe sua visão de um deus vaidoso, dominador, frio e abusivo. A mãe nunca consegue se impor diante dele, que utiliza-se de seu poder de “homem-mais-velho-dono-da-casa-e-especialmente-criativo” para colocar todos aos seus pés, oferecendo em troca sua misericórdia.

 

Toda essa relação de um deus egoísta, de uma humanidade auto-destrutiva e de uma natureza renovável já estava presente em NOÉ quando deus desiste da humanidade que se auto-destruía na terra, assim como as alegorias para uma história além do que é visto superficialmente como é apresentado em CISNE NEGRO e todo seu simbolismo. Estava presente também toda temática de perseguição obsessiva da fé cega retratada em PI o que mostra que Aronofsky fez em MÃE! algo que ele já vinha abordando em suas obras anteriores. MÃE! pode não ser filme fácil de se ver, especialmente para aqueles que terão suas crenças criticadas pelo diretor. Mas assisti-lo é uma experiência que raramente temos no cinema, o que faz de Darren Aronofsky um dos diretores mais interessantes de sua geração.

 

Se quiser conhecer mais do meu trabalho, eu escrevo para blog ArteCines, semanalmente falo de cinema no meu Canal no Youtube, Também escrevo para o site Cinematório e tenho um podcast sobre grandes diretores chamado Plano-Sequência.

 

ps. Reparem que o pôster do filme já entrega tudo o que ele é.

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  • Marcelo Castro Moraes

    Nem quis ler muito pois ainda não assisti o filme. Aguardem a minha crítica por lá, no meu blog cinema cem anos de luz. Aliás, eu não era parceiro de vocês? O logotipo do meu blog ficava por aqui.

  • Rafael Arinelli

    Fala Marcelo! Tudo bem?
    Cara, erro nosso. Em alguma atualização o logo deve ter saído. Vamos colocar de novo.
    Abs

  • Minha nossa, tive a mesma opinião sobre do que se tratava o filme, acabei de chegar do cinema e o filme realmente é confuso, porém depois de pensar um pouco sobre, cheguei à mesma conclusão dita aqui.

  • Fernando Machado

    Que legal Erick. É sempre bom quando o filme nos coloca para pensar mesmo após os créditos. Esse texto mesmo, precisei de alguns dias para refletir sobre. E já tenho outras opiniões sobre o filme que não havia observado no texto.

  • mandy

    Daí chega o tipo de pessoa que “ain filme para poucos uma obra-prima poucos irao entender hurrr”
    Eu entendi e achei bem clichê e apelativo, até tava gostando mas aquela última cena final foi tão denecessária que logo quando acabou eu disse pra pessoa que estava comigo “PRA QUE COLOCAR A MESMA CENA DO INÍCIO DO FILME COM UMA PESSOA DIFERENTE SENDO Q OBVIAMENTE SABEMOS QUE >DEUS< O PERSONAGEM PRINCIPAL DO BARDEM IRÁ FAZER A MESMA COISA ~PRA SEMPRE~"
    isso cagou o filme pra mim, broxei demais.
    Fora que realmente se eu tivesse prestado mais atenção ao poster que tem a jlaw segurando o próprio coração e o formato que está no corpo dela é o mesmo do "cristal" da casa já daria pra sacar o filme inteiro.

  • mandy

    Ponto pra atuação da Jennifer Lawrence, não assisti todos os seus filmes mas pra mim foi a melhor atuação dela, achei natural e sem forçação de barra

  • Fernando Machado

    Concordo com vc Mandy. O didatismo do filme me incomodou também, ainda que um ponto negativo diante de vários outros positivos.
    Aquela explicação final foi muito para subestimar o público para que eles não tenham dúvidas do que o diretor quis passar.
    Quanto a JLaw, ela está muito bem mesmo, mas nada fora do comum.
    Ainda sim, vejo o filme como bem acima da média do que costumamos ver em grandes salas comerciais.