50º Festival de Brasília – 6º dia: Jeitosinha e O Nó do Diabo

50º Festival de Brasília – 6º dia: Jeitosinha e O Nó do Diabo

Polêmicas no 6º dia do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A Mostra Brasília chega na metade e noite passada exibiu 3 curtas e um longa. Já a Competitiva está se mostrando bem variada e com temas fortes, no sexto dia foram, como de praxe, um curta e um longa.

Veja a nossa cobertura dos demais dias do Festival de Brasília:
Abertura – Não Devore Meu Coração!
2º dia Música Para Quando as Luzes se Apagam, Vazante e mais…
3º dia Pendular
4º dia Café com Canela
5º dia Menina de Barro e Construindo Pontes

MOSTRA BRASÍLIA

Curtas:

Afronte:
Direção: Marcus Azevedo e Bruno Victor. Documentário, 16 min, 2017, DF, livre. Com Victor Hugo Leite e Agostinho Santos.

Documentário dando visibilidade para a questão dos negros gays. É falado sobre coletivos, representatividade e desafios nesta sociedade tão preconceituosa. Apesar da mensagem necessária, ainda mais nesta semana da famigerada Lei da “cura gay”, o curta tem pouco a oferecer cinematograficamente. Fica o tema pelo tema. NOTA: 2 estrelas.

Habilitado Para Morrer:
Direção: Rafael Stadniki. Ficção, 19 min, 2017, DF, 14 anos. Elenco: Matheus de Souza Maia, Milca Orrico da Conceição, João Pedro Cavalcante e Louise Portela Moura

Ótima ideia, um thriller investigativo que envolve a máfia por trás das carteiras de habilitação. A trama é envolvente, porém se boicota ao ter parte dela calcada em uma narração em off (nem todo filme é Tropa de Elite, gente…). As atuações, em especial da investigadora, deixa muito a desejar. Por outro lado há um belo trabalho de produção, com desenhos emulando um quadrinho, e na montagem. Algumas piadas e movimentos na ação ficam aquém, outros encaixam. Mesmo sendo um curta, às vezes se perde um pouco, o que pesa ainda mais. No todo, porém o saldo é positivo. NOTA: 3 estrelas.

A Inviolável Leveza do Ser
Direção: Júlia Zakarewicz. Ficção, 2 min, 2017, DF, livre. Elenco: Carlos Valença, Júlia Zakarewicz e Fernando Quaranta

Micro curta que trata da mulher em foco, mas o tiro é tão curto fica até difícil falar algo. A diretora inclusive falou isso no palco. Ela deve colocar o filme no youtube, então é mais fácil vocês assistirem quando disponível. NOTA: Sem avaliação.

Longa:

Jeitosinha:
Direção: Johil Carvalho e Sérgio Lacerda. Ficção, 90 min, 2017, DF, 12 anos. André Mattos, Bianca Müller, Vinícius Zinn, Carmem Moretzsohn

Eis a polêmica do dia. Jeitosinha (que originalmente tem o título de “Jeitosinha, mas vagabunda”) é a história de uma família que o pai estava injuriado por só ter filhos homens. Após o quinto filho, a mãe resolve esconder do pai que nascera mais um menino e apresenta a criança como mulher. Jeitosinha (o nome peculiar) cresce como mulher – no longa temos a interpretação de uma mulher no papel, o que causa um desconforto no público e demostra uma falta de coragem da obra.

Como tema, a questão trans é exposta de forma incorreta e cheia de clichês alguns que podem ofender os mais sensíveis à causa. Outros vão encarar como comédia e, portanto válido. Mas exatamente aí, como comédia, é que Jeitosinha mais falha.

Um humor bobo, vacilante e que se apoia em toda sorte (ou azar, neste caso) de trocadilho com pênis. Coisas como “a minha vara é de família” é o ápice de criatividade aqui. Personagens pueris, caricatos – da caricatura mais vazia – e sem camadas povoam a narrativa que tem desfechos óbvios.

Na parte técnica, temos uma falta de timming dramático e cômico, por conta de uma montagem que não sabe dar dinâmica à história. Além de abusar do famoso recurso das transições “power point” onde vemos uma linha cruzando a tela. A trilha não combina e tenta forçar um humor torto. E a direção é televisiva e formulaica. NOTA: 1,5 estrelas.

MOSTRA COMPETITIVA:

Curta:

Tentei:
Direção: Laís Melo. Ficção, 15 min, 2017, PR, 14 anos. Elenco: Patricia Saravy, Richard Rebelo, Carlos Henrique Hique Veiga e Janine Mathias


Laís Melo sabe o que fazer em cada segundo dos 15 minutos de filme. A violência doméstica contra a mulher é posta em tela de uma maneira poderosa. Vemos uma lenta construção da personagem, de uma lentidão com propósito. Cada palavra é pesada, dura e sai a fórceps da garganta – tudo muito bem transmitido pelo filme e em diálogo com a dificuldade das mulheres de falarem do assunto. Patrícia Saravy consegue transmitir na medida, sem soar apática e nem caricata. Atriz grandiosa. A fotografia, direção de arte, montagem, tudo perfeito. Obra prima. Mesmo com essas palavras não faço jus ao que vi em tela. NOTA: 5 estrelas

Longa:

O Nó do Diabo:
Direção: Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi. Drama/Suspense/Terror, 124 min, 2016, PB, 16 anos. Elenco: Fernando Teixeira, Isabél Zuaa, Cíntia Lima, Edilson Silva, Tavinho Teixeira, Clebia Sousa, Alexandre Sena, Miuly Felipe da Silva, Yurie Felipe da Silva, Zezé Motta, Everaldo Pontes

Primeiro: eu não gostei de O Nó do Diabo, ele tem muitas falhas que irei apontar. Contudo, a proposta merece aplausos. 5 histórias, muito bem interligadas (diria até indissociáveis), envolvendo dois tipos de terror: o sobrenatural com fantasmas, zumbis e caveiras e um outro, talvez mais assustados, que dá conta do horror da escrevidão – a ‘formal” e a moderna, não institucionalizada.

Inteligentemente as histórias perpassam dois séculos de forma a regredir no tempo, em uma bela alusão ao pensamento retrógrado do racismo. Neste ponto, o roteiro se realiza bem ao traçar um fio que impacta em cada conto.

A irregularidade das direções pesam contra. Sentimos as diferentes mãos no projeto. Por um lado, essa criatividade multiplicada dá contornos únicos. Por outro, pesa na coesão, de modo que por vezes a conexão fica prejudicada.

Dois fatores, contudo, são os maiores responsáveis por O Nó do Diabo não ir além: a trilha e o ritmo. Parte do sucesso de um filme de terror está na construção da tensão. Se essa tensão for ancorada apenas em música alta e susto, então o resultado não é bom, infelizmente foi o caso aqui. E se uma produção opta por um ritmo mais arrastado (ou mais acelerado), há de se justificar com os demais elementos. A dinâmica morosa longa pode ser uma alusão ao peso da dor dos personagens, no entanto arrisco que foi apenas uma opção equivocada mesmo.

Bons detalhes de maquiagem, figurinos, atuações monotônicas e também com altos e baixos e uma cheiro nacional merecem também o destaque. Uma pena que por conta dos problemas o gosto fique um tanto agridoce. NOTA: 2,5 estrelas.

 

 

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