Setembro Amarelo: Precisamos Falar Sobre “As Vantagens de Ser Invisível”

Setembro Amarelo: Precisamos Falar Sobre “As Vantagens de Ser Invisível”

As Vantagens de Ser Invisível mergulha nos motivos que levam uma pessoa a cometer suicídio

Setembro é o mês de conscientização e prevenção ao suicídio, o chamado Setembro Amarelo. O suicídio é um problema que pode afetar a qualquer um de nós, a qualquer família. Em um mundo onde as pessoas sofrem com problemas psicológicos e emocionais, onde nem todos entendem, e alguns até mesmo criticam quem têm depressão, falando que é frescura, que isso não existe, muitos recorrem ao suicídio como única fuga de seus problemas. Segundo números oficiais 32 brasileiros cometem suicídio por dia. E esse número pode ser maior. Por que o Suicídio ainda é um Tabu. Mas precisamos falar sobre ele. E o papel do cinema é justamente esse, discutir, entender o que acontece na cabeça de uma pessoa depressiva.

Nosso autor Kley Coelho já fez um texto elencando filmes que tratam do assunto, ano passado o Cinem(ação) já havia feito uma lista também sobre filmes que tratam do tema. Como tenho caso de suicídio na família, me senti na obrigação de colaborar com essa campanha, e resolvi falar do filme As Vantagens de Ser Invisível, um filme que trata em como o suicídio afeta um jovem e o que pode levar alguém ao suicídio. No Cinem(ação) já temos uma crítica a respeito do filme, por isso o que você verá aqui não é uma crítica, mas uma análise reflexiva e profunda do filme. Ou seja, o texto contém Spoilers.

“A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim as emoções. As perguntas são:’onde dói?’ e ‘como posso ajudá-lo?'” – Dr. Edwin Schneidman

Baseado no livro homônimo de Stephen Chbosky (que também dirigiu e escreveu o roteiro), As Vantagens de Ser Invisível, conta a história Charlie, um garoto de 15 anos que se recupera de uma depressão, e tenta seguir sua vida depois de perder seu único amigo que se matou com um tiro na cabeça. Na escola ele conhece Patrick e Sam que vão ajuda-lo na sua recuperação, no seu crescimento e sua socialização com o mundo exterior.

O que parece ser mais um filme de adolescente, na verdade se trata de um drama, por vezes pesado, que trata de depressão, abuso de crianças e suicídio. O filme não apenas problematiza, mas mergulha nos motivos que levam uma pessoa por esses caminhos. Você já se perguntou: “Por que aquela pessoa que parecia feliz se matou?” Já se pegou pensando: “Ela parecia tão bem, tão feliz, eu não entendo o que houve”. E essa explicação que Stephen Chbosky tenta buscar. E tudo que acontece vemos do ponto de vista de Charlie.

Desde a primeira cena passamos a perceber que Charlie não é um jovem comum. Ele tem seus problemas, e isso fica claro desde as primeiras cenas do filme. E ele escreve para ajudá-lo na sua recuperação. E a escrita é a melhor fuga para os problemas, falo por experiência própria. Através da escrita expressamos nossos medos e preocupações. E é assim que sabemos coisas sobre Charlie, que nos ajudam a começar a entende-lo. Descobrimos que ele parece incomodado com seus pais e irmãos, parece que não confia neles, que tem um pé atrás com eles. Mas não entendemos o porquê. Sabemos que a única pessoa em quem ele confiava era sua tia, que morreu no dia do seu aniversário enquanto buscava um presente para ele. E essa culpa o consome, ou pelo menos parece que é isso que o consome.

Mas Charlie é um garoto que tenta se enturmar, procura amizades, tenta não se isolar. Mas parece que ninguém o entende, talvez por isso ele procure a turma dos desajustados. Essa busca por aceitação e uma turma é comum na adolescência, e é nessa busca que Charlie mergulha. E é quando começa esse mergulho, passamos a entender que Charlie tem traumas, traumas profundos que o faz ter visões. E aí passamos a entender a preocupação da família de Charlie. Não sabemos porque seu amigo se matou, mas sabemos que mesmo antes disso, ele já tinha problemas. Talvez foi na busca de tratamento que ele conheceu seu único amigo. Que o ajudou, mas que infelizmente não aguentou a pressão da vida. E é aí que o filme mostra uma das maiores verdades, não sabemos o que se passa na cabeça de uma pessoa, só conhecendo ela, vivendo juntos que iremos entender.

“Então, esta é a minha vida. E quero que você saiba que sou feliz e triste ao mesmo tempo, e ainda estou tentando entender como posso ser assim.”

Quanto mais vivemos na cabeça de Charlie mais o entendemos, e mais tememos por ele. E mais intrigados ficamos. O que aconteceu com Charlie? Por que um jovem inteligente não consegue seguir em frente? Stephen Chbosky não tem pressa em nos mostrar as coisas, ele simplesmente vai nos entregando em doses homeopáticas o que ocorreu com Charlie. E quanto mais ele mergulha em seu estado depressivo, como quando ele termina com Mary Elizabeth e é obrigado a se afastar de seus amigos, mais tememos por ele. Afinal como ele mesmo diz: “Eu estou piorando.”

Mas como acontece com muitos depressivos parece que ninguém o entende. A cena em que ele liga para Mary Elizabeth pedindo para serem amigos, é de cortar o coração. Principalmente quando ela fala que ele não deve mais ligar mais para os amigos. Aquilo é um grito de socorro. Um grito: “Me ajude! Por favor! Eu não aguento mais!” E ninguém percebe. Ele precisa de ajuda, mas ninguém parece entender, ninguém entende. E embora tenha um momento de “paz” antes da ida de Sam para Faculdade. Ele não está bem.

E é aí que tudo se explica. Quando Sam e Charlie se beijam e ela passa a mão na perna dele. Tudo começa a se explicar. É interessante que alguns instantes antes, Charlie diz a Sam que eles são mais parecidos do que ela imagina. Sam ao que tudo indica sofreu abuso do chefe de seu pai. E ao beijar Sam, um clique é dado. O rosto de Charlie se assusta. Ele se lembra de tudo. Ele então começa a surtar. Seus amigos foram embora. Seu melhor amigo se matou. Sua tia, sua pessoa favorita está morta. Ele se culpa. Ele está sozinho. E ele se culpa ainda mais porque um clique foi dado, uma trava foi solta, e finalmente ele se lembrou. Sua tia abusou dele.

A pessoa de quem ele mais gostava, abusou dele. Tirou sua inocência. Ele não entendia na época. Algo bloqueou. Como ela dizia, era o segredinho deles. Ele bloqueou por cumplicidade. Mas um clique tirou aquela trava. Imagina a decepção de uma pessoa de descobrir que a pessoa que mais amava, que mais confiava, se aproveitou de sua inocência? A carga de um abuso é grande demais para qualquer um aguentar, imagina pra uma criança. Ele bloqueou, e quando a lembrança reapareceu, foi um apanhado de emoções. Um apanhado que fez com que Charlie surtasse. Começando a questionar se não foi ele que quis a morte da sua amada Tia Helen.

No surto, não sabemos realmente como Charlie tentou se matar. Mas antes disso, sabemos que sua tia também tentou se matar cortando os pulsos. Será que era culpa? Mas o que sabemos é que ele não aguentou. Tudo que aconteceu com ele culminou em um surto psicótico que quase tirou lhe vida. Mas Charlie conseguiu se recuperar, porque agora ele tinha apoio. Agora ele sabia que podia contar com sua família e amigos. E o principal ele buscou ajuda médica. E conseguiu ser feliz novamente.

As vantagens de ser invisível nos ensina uma lição. A depressão existe. E ela pode ser causada por muitas coisas. Mas principalmente por traumas. Traumas enrustidos, traumas bloqueados em nossa mente. Enquanto não aceitarmos que algo de ruim aconteceu e que não podemos mudar isso, e que o futuro está em nossas mãos, talvez nunca nos recuperemos. Também nos ensina que as pessoas precisam de nós. Que muitas vezes um telefonema, uma mensagem pode ser um pedido de socorro. Mas acima de tudo nos ajuda a entender que tudo tem uma explicação. Às vezes ela pode ser doída. Pode ser triste. Pode ser amarga. Mas existe. E por mais dura que seja temos de aceitar, enfrentar e seguir em frente.

“Minha médica disse que não escolhemos o passado, mas que podemos decidir o nosso futuro. Sei que não resolve tudo, mas é o bastante pra começar a lidar com o problema.”

E se você sofre de depressão, se já pensou em acabar com tudo, se sente que ninguém te entende. Se você tem um trauma duro de aguentar, se sente culpado mas não sabe o motivo. Não sofra sozinho. Seus pais, seus amigos irão pelo menos tentar entender, ou então procure ajuda especializada, eles vão te entender. Não se isole, não sofra sozinho.

Agora se você é desses que acham que a depressão é uma babaquice, que não existe, que é frescura. Pare e analise bem seus conceitos. Existem coisas escondidas dentro de cada um de nós que não conseguimos explicar. E só quem viveu e vive a depressão, ou conviveu ou convive com alguém que depressivo sabe o que é. Então em vez de zombar de alguém, tente entender. Saiba que às vezes há muito mais envolvido do que podemos imaginar. Não tire conclusões precipitadas, As vantagens de ser invisível nos ensina que nem tudo é o que parece, tem muito mais envolvido. Charlie parecia apenas um garoto que não conseguia lhe dar com o crescimento, com mudanças, mas não era nada disso. Havia muito mais envolvido, que explica todos os seus traumas e suas escolhas.

E falo de novo com você que já pensou em acabar com tudo: “NÃO DESISTA! VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO”. O CVV está 24h por dia pronto para te ouvir. Ligue 144 e fale com pessoas prontas e preparadas para te ajudar. NÃO DESISTA.

Para saber mais acesse:

www.cvv.org.br

www.setembroamarelo.org.br

Gostou? Dê um like e passe adiante!

Leia também:

Apoie o Cinem(ação): contribua com a cultura cinematografica!

  • Críticas cinematográficas
  • Mais de 6 horas de conteúdo inédito por semana
  • Podcasts semanais
  • Grupo no Facebook exclusivo para apoiadores
  • Acompanhamento das nossas conquistas com seu apoio

Abra a porta do armário! Deixe seu comentário: