50º Festival de Brasília – 2º dia – Vazante, Nada e outros 7 filmes

50º Festival de Brasília – 2º dia – Vazante, Nada e outros 7 filmes

O 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chega no segundo dia (primeiro valendo taça) com duas mostras: Esses Corpos Indóceis e Competitiva. A primeira, cuja temática prioriza a questão de identidade e de dar protagonismo a grupos marginalizados, parece estar mais preocupada com a mensagem do que com a qualidade cinematográfica, uma pena não conseguir a união das duas coisas. Já na Competitiva, que contará com 9 longas e 12 curtas, há a tradição de filmes bem diferentes entre si, tanto em temática, quanto em qualidade.

Confira aqui a nossa cobertura do primeiro dia do Festival. Recheado de homenagens e com a exibição especial de Não Devore Meu Coração.

No segundo dia em Brasília, 16/9, sábado, foram exibidos ao todo 5 longas e 4 curtas e consegui ver todos. A qualidade foi bem irregular. Teve produções que deixaram muito a desejar, outras foram na média e duas sensacionais. Vamos aos filmes:


MOSTRA ESSES CORPOS INDÓCEIS:

Baronesa: 

Direção: Juliana Antunes. Ficção, 70 min, 2017, MG, 16 anos
O longa traz uma história ambientada em uma favela em BH. Acompanhamos duas mulheres que tentam sobreviver ante a guerra que se instaura no local. Baronesa tenta ganhar pelo carisma de retratar de modo cru a realidade. Falta sutileza em alguns momentos. Em outros, como no começo ou na morte de um personagem a coisa vai melhor. Temas como masturbação feminina, drogas e pedofilia são postos rapidamente. A câmera é um pouco preguiçosa preguiçosa e a montagem dura. NOTA: 2,5 estrelas.

Com o Terceiro Olho na Terra da Profanação:
Direção: Catu Rizo. Ficção, 66 min, 2016, RJ, 12 anos
3 amigas ocupam o espaço urbano de dia, à noite e em meio a rituais de magia se empoderam. A linguagem luta o tempo inteiro contra. Há uma narração vazia, praticamente não temos diálogos. Falta timming em todas as cenas, a diretora optou por deixar a câmera filmando e entrega um produto chato ao invés de evocativo. Som errado, alto – vi pessoas colocando a mão na orelha. Arte tem sim que provocar, mas de uma provocação que instigue e não que incomode pura e simplesmente. Mas parece que o Festival de Brasília gosta desse tipo de filme, lembrou O Último Trago exibido em 2016. NOTA: 1 estrela.

Estamos Todos Aqui:
Direção: Rafael Mellim e Chico Santos. Ficção, 21 min, 2017, SP, 14 anos
Uma mescla de ficção e realidade com boa dose de metalinguagem, Estamos Todos Aqui traz dois assuntos na pauta: a questão trans e a ocupação de terras. A história é contada a partir da criação dos moradores da região (e vemos parte dessa construção em tela). A protagonista Rosa foi expulsa de casa após assumir a transexualidade para o pai. Quando a trama se foca nela, vigorosa, dona de si e buscando o próprio caminho, o filme vai melhor. Quando se volta a discussão para o confronto rico x pobre, empresário x moradores a mensagem grita e o filme se desgarra. NOTA: 2 estrelas.

Meu Corpo é Político:
Direção Alice Riff. Documentário, 71 min, 2017, SP, 12 anos.
O documentário é o que mais tem cara de ficção, e sem desmerecer os documentários, isso foi um elogio aqui. Facilmente nos interessamos pela história dos 4 personagens LGBT que estão em posições diferentes, mas todos dentro da periferia. Havia potencial, mas a história demora pra engrenar e aquele interesse inicial vai se esvaindo. Não tenho dúvida que Giu Nonato, Paula Beatriz, Fernando Ribeiro e Linn da Quebrada tem muito mais do que foi mostrado. NOTA: 2 estrelas.


MOSTRA COMPETITIVA:

Curtas:

Peixe:
Direção: Jonathas de Andrade. Ficção/Documentário, 23 min, 2016, PE, livre
Há pouco aqui. Pescadores pescando peixes. Após a captura eles acariciam os bichos. Falta propósito, cansa e fica monótono. NOTA: 1 estrela. 

Nada: 
Direção: Gabriel Martins. Ficção, 27 min, 2017, MG, livre
Nada é oposto do antecessor e o oposto do título: temos tanta coisa aqui… Bia é uma jovem que está prestes a fazer o ENEM, mas diferente dos colegas ele quer nada. A menina questiona o sistema que impõe um lugar para ela. Bia desperta uma empatia a partir de um mau humor bem humorado. Com ela e os excelentes coadjuvantes, o filme consegue levantar discussões e promover debates melhor do que muita roda de intelectuais por aí. Tecnicamente muito bom vide o plano inicial e a brincadeira com a música não diegética e se tornando diegética. O final tem o que todo filme deveria: saber cortar na hora certa. Já tenho meu favorito. NOTA: 5 estrelas

Peripatético: 
Direção: Jéssica Queiroz. Ficção, 15 min, 2017, SP, livre
A periferia dominou o dia. Desta vez a história acompanha três jovens com sonhos e atitudes diferentes. Temas como desemprego, violência e impunidade são levantados. O problema do curta é uma linguagem que emula o Ilha das Flores, chegando a citar a famosa frase do polegar opositor. Quando você lembra para o público que há um filme melhor, acaba sendo um tiro no pé. A narração aqui funciona quase sempre. No todo, principalmente no final, falta sutileza em vários aspectos. Ainda assim, apesar de tudo, a brincadeira com a linguagem merece elogios. NOTA 3 estrelas. 

Longas:

Música Para Quando as Luzes se Apagam:
Direção: de Ismael Caneppele. Documentário, 70 min, 2017, RS, 14 anos
A personagem (sem nome) de Julia Lemmentz acompanha Emelyn, uma adolescente que passa por mudanças físicas e psicológicas. Surge, em Emelyn mesmo, Bernardo. Lemmentz conduz, conversa e tenta fazer com que Emelyn/Bernardo se descubra. Apesar do potencial, o roteiro é a parte mais fraca. Quando o foco está apenas no núcleo adolescente o longa perde em qualidade. No fim das contas a fotografia é o ponto mais elogioso. Uma brincadeira com a razão de aspecto, tipo de filmagem e toda a estrutura, além de belos planos, tornam Música Para Quando as Luzes se Apagam um deleite neste quesito, mas que sozinho não dá conta de uma narrativa arrastada e que se boicota. NOTA: 2 estrelas.

Vazante:
Direção: Daniela Thomas. Ficção, 116 min, 2017, SP, 14 anos
Daniela Thomas sabe o que faz, provou a qualidade em Abril Despedaçado e Linha de Passe (só para citar alguns da grande carreira). Aqui ela entrega uma monumental obra prima. Passado em 1821, Vazante transborda visceralidade. A escravidão é vista aqui como plano de fundo e objeto central para uma trama familiar. O longa usa o preto e branco não por um capricho, mas para revelar uma das grandes fotografias do ano. A direção de arte não é caricata, afasta-se de uma novela das seis. As atuação dão conta, ao colocar dor quando precisa, paixão quando precisa e tensão quando precisa. Vazante é pesado. O público sente cada movimento. Mas todo o peso é recompensado no final, como a diretora avisara antes de começar a sessão. O filme já é um forte candidato a vencer o Festival de Brasília NOTA: 5 Estrelas

OBS: Vazante estava na lista para tentar disputar o Oscar pelo Brasil. Bingo, o escolhido, tem muitos méritos e tem uma entrada na academia por conta do diretor que já concorreu antes. Porém Vazante é a cara da categoria. Uma pena não estar mais na disputa.


O Festival de Brasília  segue no segundo das mostras Esses Corpos Indóceis e Competitiva e abre para a mostra 50 anos em 5 dias. A Mostra Brasília começa na segunda-feira.

Filmes exibidos no terceiro dia, 17/09:

 

Mostra Esses Corpos Indóceis

Modo de produção, Dea Ferraz, 2017, 75min, PE, Livre

Mostra Esses Corpos Indóceis

Antes do fim, Cristiano Burlan, 86 min, SP, 14 anos

Diários de Classe, Maria Carolina da Silva e Igor Souza, 2017, 76 min, BA, 12 anos

Mostra 50 anos em 5 dias

A Hora e a Vez de Augusto Matraga, Roberto Santos, 1965, 109 min, MG, 10 anos

Mostra Competitiva

Inocentes, Douglas Soares, 2017, 18 min, RJ, 16 anos

Pendular, Julia Murat, 2017, 108 min, RJ, 16 anos

Para a programação completa do Festival de Brasília cliquem aqui

 

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