Eu Cinéfilo #33: Bingo – O Rei das Manhãs: nostalgia como forma de arte

Eu Cinéfilo #33: Bingo – O Rei das Manhãs: nostalgia como forma de arte

Eu não vivi os Anos 80, mas, ao sair da sala de cinema após Bingo – O Rei das Manhãs, eu me senti como se tivesse vivido. A nostalgia inerente ao filme é contagiante até mesmo para aqueles que, como eu, não vivenciaram tal período.

Ao longo da película acompanhamos a trajetória de Augusto Mendes (Vladimir Brichta), abertamente inspirado na vida de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo na metade dos anos oitenta. Vemos seu início nas pornochanchadas, a relação com seu filho Gabriel (Cauã Martins), suas desavenças com a diretora, Lúcia (Leandra Leal), seu vício em uísque e cocaína, tudo isso sem cair num fácil e preguiçoso lugar comum. Outra virtude do roteiro é a imparcialidade com a qual ele trata o vício de Augusto, sem clichês baratos e sem fazer qualquer juízo de valor. Sem qualquer tipo de sutileza, o filme não se leva a sério a ponto de ser uma cinebiografia, tomando liberdades artísticas no roteiro (colocando Augusto como primeiro intérprete do palhaço, sendo que Arlindo foi o terceiro) adaptando nomes sem qualquer intenção de omitir seu verdadeiro significado. Por exemplo, a Rede Globo é chamada de TV Mundial, o SBT de TVP, além, é claro, do epíteto que dá nome à obra.

Além de um belíssimo drama com seus momentos cômicos, o filme é também um semi-documentário sobre o Brasil da época (e por que não atual?), dos exageros comportamentais aos figurinos extravagantes, enriquecidos pelo exuberante design de produção que reproduz com maestria a época sem ser demasiadamente excessivo. Tecnicamente, inclusive, a obra é impecável. Da fotografia esfumaçada que remete aos filmes de película à delicadeza e preocupação com os detalhes da direção de arte. As decisões do roteiro, escrito por Luiz Bolognesi e do diretor de primeira viagem, Daniel Rezende, são em sua grande maioria acertadas, à exceção de alguns diálogos inverossímeis, sendo esses os raros momentos em que o filme cai no clichê. A sutileza com a qual o roteiro trata cada personagem dá margem para o diretor se aproveitar de pequenos momentos e aprofundar-se na psique de cada um deles, como no momento em que a mãe de Augusto, Marta (Ana Lúcia Torre), frustrada com o fato de ter sido substituída para um papel, apaga as luzes que iluminam um quadro de si mesma, num nítido simbolismo do apagar de luzes de sua carreira como atriz. Outro momento de extremo cuidado é quando presenciamos alguns delírios da cabeça de Augusto, nos mostrando como sua mente funciona e entregando metáforas visuais fascinantes, como a em que ele é carregado pelas crianças como um ser superior. A atuação de Vladimir Brichta é digna de nota, aliás. O ator quebra completamente o estigma de “ator de novela” e entrega um Augusto com várias nuances, autodestrutivo e carinhoso, e, ao mesmo tempo, um Bingo que vai de carismático à sociopata em breves momentos.

Em suma, Bingo – O Rei das Manhãs é um filme honesto e nostálgico. Um drama tragicômico sobre ascensão e declínio de um homem que não soube lidar com o anonimato de seu sucesso, sem cair no lugar-comum de trabalhar apenas a depressão do palhaço.

Henrique, 11 de Setembro de 2017.

 

 

Sobre o autor: Henrique Lopes, 25 de Junho de 1997, é um estudante de cinema quinzenalmente se aventurando no mundo da escrita. Qualquer crítica, elogio ou dica de tema, entrar em contato com o e-mail henrique@42filmes.com.br

Bingo – O Rei das Manhãs

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