Crítica | It – A Coisa

Crítica | It – A Coisa

Entre erros e acertos, It – A Coisa consegue fazer jus ao peso da obra original

Ficha técnica:

Direção: Andrés Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman 
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Wyatt Oleff, Chosen Jacobs , Jack Dylan Grazer e Nicholas Hamilton
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (7 de setembro de 2017)

Sinopse: Quando crianças começam a desaparecer misteriosamente na pequena cidade de Derry, no estado de Maine, um grupo de jovens é obrigado a enfrentar seus maiores medos ao desafiar um palhaço maligno chamado Pennywise, que há séculos deixa um rastro de morte e violência.

It - A Coisa

A primeira aparição do palhaço Pennywise em IT – A Coisa beira à perfeição do terror: construindo um suspense e clima de apreensão desde os enquadramentos até ao próprio tempo nublado, o diretor registra a conversa entre o palhaço no bueiro e o pequeno Georgie (o garoto da capa amarela usado majoritariamente na divulgação do filme) com segurança, utilizando a escandalosa trilha sonora de Benjamin Wallfisch não para provocar o jumpscare em si, mas para deixar o espectador extremamente desconfortável. Este desconforto vem do próprio contexto e dos temas que o filme de  Andrés Muschietti (diretor do irregular Mama) abordará eventualmente: tememos por saber que aquela inquietante figura não planeja nada além de mal para aquela criança, que é “sabotada” pela sua própria e natural inocência. Ela é punida, afinal de contas, por ser criança.

Punição que vem de forma abrupta e extrema, numa escalação repentina do horror e da violência gráfica que surpreende não só por ser explícita, mas por ser infligida numa criança. Se na maioria dos casos esta escolha soaria gratuita, um choque pelo choque, aqui ela funciona por possuir algumas interessantes funções narrativas, como estabelecer, desde cedo, a crueldade impiedosa da qual seu principal antagonista é capaz, já que não poupa nem mesmo as crianças; e com isto, aplicar em nós a angústia que seus protagonistas começarão a sentir durante a maior parte da projeção: ninguém está a salvo, e todos podem sofrer uma morte dolorosa e até mesmo gráfica, nos fazendo temer pelos personagens – o tal “Clube dos Perdedores”.

It - A Coisa

O palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) conversa com Georgie (Jackson Robert Scott) em “It- A Coisa”

Após o incidente, acompanhamos o irmão mais velho de Georgie, Bill (Jaeden Lieberher), e mais seis  adolescentes de Derry, uma cidade no Maine: Ben (Jeremy Ray Taylor), Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things), Eddie (Jack Dylan Grazer), Stanley (Wyatt Oleff),Mike (Chosen Jacobs) e Beverly (Sophia Lillis). Juntos, eles formam o auto-intitulado “Losers Club” – o clube dos perdedores. A pacata rotina da cidade é abalada quando crianças começam a desaparecer e tudo o que pode ser encontrado delas são partes de seus corpos. Logo, os integrantes do “Losers Club” acabam ficando face a face com o responsável pelos crimes: o palhaço Pennywise.

Segunda grande adaptação da obra de Stephen King (a primeira foi a minissérie transformada em filme de 1990, lembrada mais pela icônica interpretação de Tim Curry como Pennywise do que por sua qualidade), Muschietti e seus três escritores – Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman – sabiamente escolheram por dividir as mais de mil páginas do livro em duas produções. Enquanto a primeira acompanha justamente o primeiro encontro do grupo com o palhaço transmorfo que assume a forma dos medos daqueles jovens, a segunda focará no seu segundo embate, com o “Losers Club” já adulto. Esta escolha funciona do ponto de vista criativo e também é útil para o estúdio, que pode transformar It numa “franquia”.

It - A Coisa

O “Clube dos Perdedores”: Bill (Jaeden Lieberher), Ben (Jeremy Ray Taylor), Richie (Finn Wolfhard, de Stranger Things), Eddie (Jack Dylan Grazer), Stanley (Wyatt Oleff),Mike (Chosen Jacobs) e Beverly (Sophia Lillis).

Mudando a ambientação do filme dos anos 50 para os 80 (ainda que os subúrbios tão característicos das obras de King continuem idênticos),  Muschietti deixa claro suas intenções: ele quer estar ao lado de obras definitivas como Conta Comigo nas adaptações de King, e para isso, filma seu It como se fosse desde já um clássico, com imagens fortes e icônicas que, se por um lado são eficientes em evocar King clássico, por outro acabam por soar um pouco pretensiosas, em seus anseios por agradar aos fãs. E isto se reflete nas escolhas tonais que adota: o cineasta utiliza de todas as armas que possui para causar o medo, mesmo que elas sejam equivocadas pontualmente e não dialoguem tão bem entre si. São jumpscares (o susto fácil), trilha sonora chamativa e irregular (que funciona tão bem na primeira cena e em outros momentos mas no geral compromete um pouco a atmosfera) e o abuso de computação gráfica, como ocorria no já mencionado Mama. Dessa forma, o filme acaba sendo um tanto descontrolado, e isso se deve em parte, à quantidade de jornadas e medos pessoais dos jovens que deve ser abordada.

Jornadas pessoais que são abordadas de forma eficiente na maioria dos casos, mas ficam devendo em outros. Se o diretor é sábio em dar tempo à sua história, apresentando cada membro do “Clube dos Perdedores” – e seus respectivos medos e conflitos – com calma, ele peca por perder a oportunidade de se aprofundar em alguns deles, como a de Mike, que deve tomar conta do abatedouro de seu falecido pai. O contexto social do personagem (que é negro) somado a época em que o filme se passa poderia ser melhor explorado e dentre todos, o seu crescimento é o que menos acaba possuindo catarse, ainda que seu embate com o redneck da vez seja eficaz.

It - A Coisa

Mike (Chosen Jacobs) em “It – A Coisa”

Tendo consciência de que a relação entre o grupo deve ser o foco para que se tornem pessoas reais, o diretor e seus escritores se divertem ao estabelecer a dinâmica do grupo, com o divertido  Richie de Finn Wolfhard sendo o destaque. Antes de mais nada eles são adolescentes, e com a adolescência vem a insegurança, os hormônios em fúria, a expectativa do desabrochar sexual e as piadas tolas envolvendo sexo e falos. Ainda assim, todos possuem em si a pureza inerente dessa idade, e o diálogo que a adaptação propõe é muito interessante nesse sentido. O que define a perda de pureza? Nos trabalhos de King, as crianças possuem essa força quase sobrenatural do espírito diante dos adultos – aborrecidos e desiludidos pelo amadurecimento e responsabilidade.

E a representação dos adultos aqui é exatamente essa: figuras quase tão desumanizadas quanto o palhaço Pennywise, eles são manipuladores, agressivos, não confiáveis e – nos casos mais extremos – predadores sexuais. Muschietti contrapõe essa frieza com sequências leves onde o grupo aproveita as “férias de verão”. Enquanto a maioria dos diretores se concentraria apenas na urgência dos assassinatos e do ameaçador palhaço, o cineasta nos concede um respiro de tudo aquilo, como no ótimo e sensível momento onde o grupo vai à um riacho. Todas as performances do clube estão boas, com destaque também para a Beverly de Sophia Lillis.

It

O jovem elenco é destaque em “It – A Coisa”

O que nos leva ao Pennywise de Bill Skarsgård. Se a versão do grande Tim Curry parecia, de início, um palhaço de circo comum (o que o tornava suas inflexões e explosões de raiva mais inquietantes e perturbadoras), o vilão de Skarsgård é escancarado já em sua maquiagem como uma figura maligna, e tendo consciência de que deveria seguir por um caminho oposto da performance de voz contida e perturbadora de Curry, o jovem ator consegue ser eficaz no que propõe, recorrendo à uma interpretação cheia de tiques, entonações de voz e “firulas”, é verdade, mas que funcionam e o tornam até mais complexo e – quem diria – patético, criando uma figura que recorre ao histrionismo para causar medo (e o leve estrabismo divergente do ator atribui uma certa inquietação).

It – A Coisa acaba sendo, então, um esforço competente que acaba deslizando pontualmente em suas pretensões de se colocar entre as melhores adaptações de Stephen King. Se eventualmente ele consegue alcançar esse patamar, porém, é graças aos momentos em que deseja acompanhar a jornada daquelas crianças de forma sincera, rompendo qualquer manipulação emocional do cinema e se apegando à preciosa inocência de seus protagonistas antes que ela se perca.


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