Crítica: Bingo: O Rei das Manhãs

Crítica: Bingo: O Rei das Manhãs

Bingo: O Rei das Manhãs mostra por que o Brasil não é para iniciantes.

Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Elenco:  Vladimir Brichta, Leandra Leal, Ana Lúcia Torre, Tainá Müller, Soren Hellerup, Augusto Madeira, Domingos Montagner, Emanuelle Araújo, Cauã Martins.
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 24 de agosto de 2017

Sinopse: Baseado na biografia de Arlindo Barreto, “Bingo: O Rei das Manhãs” conta a história de Augusto Mendes, ator de filmes da “pornochanchada” que acaba se tornando o mais famoso palhaço da TV: Bingo. Enquanto se afasta do filho após a fama, ele vive o drama de não poder mostrar aos outros quem realmente é o ator por trás do nariz vermelho.

 

Quando a câmera fica na perpendicular e vemos o protagonista andando em um corredor que escurece gradativamente, é possível notar o domínio de Daniel Rezende sobre sua câmera – e sobre a linguagem cinematográfica.

Bingo: O Rei das Manhãs é a primeira incursão de Rezende na direção, após montar filmes como Diários de Motocicleta, Tropa de Elite, RoboCop, A Árvore da Vida e Cidade de Deus. Se tantos defendem que o filme é todo feito na montagem, então ele é a prova de que essa experiência pode ser uma grande aliada na formação de um diretor.

O filme se propõe a contar a história de Arlindo Barreto e seu palhaço “Bozo”, que foi ícone dos anos 1980, preferiu não utilizar nomes de pessoas, emissoras e marcas registradas para não ferir direitos autorais. Apenas Gretchen é citada. Nomes como Rede Mundial e TVP fazem referências claras a Rede Globo e SBT, por exemplo.

Estudo de personagem, o filme tem um arco dramático extremamente interessante para o protagonista: sua mudança de carreira marcada pela ousadia, seu ápice marcado pelas drogas e excessos que atrapalham a convivência familiar, e sua redenção. Com personagens engraçados (Augusto Madeira está excelente) e situações igualmente impagáveis (como o próprio Augusto imaginando-se seduzindo a diretora) e emocionantes (como as vezes em que ele retira a máscara diante do público), o longa consegue dar espaço para todas as facetas do protagonista, mostrando-o complexo, louco e cheio de nuances.

Se o roteiro de Bolgnesi (Bicho de Sete Cabeças, Uma História de Amor e Fúria) consegue dar todas as nuances dos personagens, as atuações são igualmente notáveis: Brichta mostra toda sua versatilidade, o pequeno Cauã Martins demonstra a fragilidade necessária, Ana Lúcia Torre rouba a cena e Leandra Leal oferece nuances emocionais que poucas atrizes conseguem.

Com a trilha sonora orgânica de Beto Villares e as excelentes escolhas musicais que remetem aos anos 80, Bingo se permite diversos momentos de “respiro”. Entre cenas mais dramáticas e e acontecimentos, podemos ver o relacionamento dos personagens em cena, cada um a seu tempo. E o momento em que Augusto vai de carro à praia com seu filho rende cenas belas e de grande ternura.

A fotografia de Lula Carvalho não teria como não fazer jus a um dos melhores diretores de fotografia do cinema atual: remete à época do filme sem parecer uma filmagem realizada na época, traz elementos que remetem à “falecida” TV de tubo, e ainda emite no protagonista uma luz que remete à luz dos palcos. Por falar em palcos, é interessante como a trama gira em torno da necessidade de que o protagonista esteja nos palcos com base naquilo que ele aprendeu com sua mãe, e o flashback que remete à sua infância é colocado no momento certo e se mostra tocante e singelo, diferente do que certas cinebiografias nacionais recentes.

O plano sequência que salta do clímax do filme para o desfecho da narrativa funciona como elemento narrativo orgânico e uma alusão a Birdman, filme com o qual divide uma mesma temática. As escolhas de Rezende também se mostram sutis, por exemplo, quando no começo do filme vemos Augusto se preparando para entrar em uma simples cena de novela: além de repetir o ritual que sempre faz, nós o vemos fazer isso por uma câmera do estúdio, como se aquilo fosse uma prévia da história de Bingo, mostrando que até mesmo seus momentos fora da câmera teriam reflexo naquilo que faria diante dela.

É uma pena, portanto, que o final seja abrupto e não combine com o personagem que vemos ao longo de toda a projeção. É claro que trata-se do que realmente ocorreu na vida do biografado, mas ainda assim a transformação final do protagonista soa um pouco exagerada ou apressada. Mas isso não faz com que Bingo: O Rei das Manhãs deixe de ser uma obra tão excepcional quanto a vida de Arlindo Barreto.

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