Crítica: Atômica (Atomic Blonde, 2017)

Crítica: Atômica (Atomic Blonde, 2017)

Atômica tem as melhores cenas de ação do ano, mas não é só isso.

Ficha técnica:
Direção: David Leitch
Roteiro: Kurt Johnstad
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, Sofia Boutella, John Goodman
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (31 de agosto de 2017 no Brasil)

Atômica ferve! E tal adjetivo soa irônico ao pensarmos que se trata de um longa que se passa no final da guerra fria, em plena queda do Muro de Berlim. Essa trama que respira espionagem se esforça para enveredar por dois caminhos: ou vai te ganhando aos pouquinhos e quando você vê já está no meio daquela intrincada teia. Ou você já é embebecido logo de cara pelo vigor gráfico e aproveitará desde o começo aquelas lindas linhas. Pretensiosamente digo que não há uma terceira via. Quem aprecia uma narrativa com camadas e uma direção robusta vai sair eufórico.

Calma não é bem a palavra – já que a todo instante temos algo acontecendo – porém de fato no primeiro ato a coisa é um pouco menos acelerada que no restante do filme. Contudo, após um prólogo curioso, conhecemos a instigante Lorraine Broughton (Charlize Theron). Ela presta um depoimento e ao ser sabatinada somos conduzidos por ela nos acontecimentos que acompanhamos na maior parte do filme. Esse recurso de narrativa em flashback pode soar preguiçoso para alguns, mas aqui gera um viés essencial, o da dúvida.

E preguiçoso é uma palavra que em nada combina com Atômica. Sem querer plantar tretas, mas quando alguém elogia filmes como Transformers pela ação, eu fico assustado. Na franquia há vários truques para esconder o que (não) está em tela e se torna uma movimentação bagunçada. Em Atômica temos o exato oposto: um vigor fluido que torna todas as cenas do gênero limpas, viscerais…

Tal como a cena da igreja em Kingsman, aqui vamos lembrar, por anos, da cena do prédio. Um falso plano sequência de mais de uma dezena de minutos. As lutas emergem uma fisicalidade sem igual. Nem sonho o tanto de ensaio e dedicação que foi colocado naquele momento. Somos impactados com essa ação que precisa ser premiada de alguma maneira.

Um trabalho em conjunto de direção, som, direção de arte, fotografia, montagem e atuação. Ao contrário de outros filmes que vemos o protagonista vencer inúmeros adversários, mesmo estando em clara desvantagem, aqui temos uma humanização. Lorraine bate, e muito, mas apanha, perde o fôlego, volta para a luta, apanha mais um pouco, volta a bater como nunca… é uma balé dos mais lindos e complexos.

Perdoem a má palavra mas a expressão é a que melhor reflete: Charlize Theron é um mulherão da p*%#$. Ela imprime todas as nuances que a personagem exige, inclusive as mais escusas. No primeiro momento já queremos saber quem é aquela figura. Atração essa que se mantém durante todo o filme. Não é exagero falar que ela supera o que fez em Mad Max: a estrada da fúria. A cena descrita anteriormente exige dela algo que raramente é executável, dada a dificuldade. E aqui foi atingido plenamente.

Os demais atores não ficam muito atrás. James McAvoy, depois de brilhar em Fragmentado, traz uma outra composição de brilho, quase que oposta a de Theron, mas igualmente apaixonante. O simples ato de segurar um cigarro ganha presença. Sofia Boutella seduz e atiça. Ela integra uma cena sexo que você se segura na cadeira. Toby Jones tem uma atuação de pouco tempo em tela, mas por uma expressão em especial que vale todo o destaque. Eddie Marsan também não é dos mais presentes, mas o personagem ganha viço nas mãos dele.

A ambientação se dá por tons dessaturados, usados para refletir o ar tanto de Berlim, quanto de um apagamento que aqueles espiões precisam demostrar. O aparecimento de cores mais quentes vem justamente em momentos que essa máscara supostamente cai ou para denotar um perigo ainda maior. Uma estética visual, herança da origem da HQ que inspirou o longa, urbana e bastante estilizada se faz presente a cada segundo. David Leitch, diretor do filme, vai comandar Deadpool 2, fica quase impossível conter as expectativas.

O único porém, que tira a nota máxima aqui, é a trilha. Sem dúvidas um set list empolgante e variado. Contudo, a trilha quis gritar um pouco além do que devia no primeiro ato. Gosto daquele instante, pois há uma construção que muitos filmes ignoram. O estilo cool estava ali para impulsionar a narrativa. Tudo funcionou na parte gráfica e a trama já estava me instigando. Porém a trilha pareceu um mix de músicas da hora (mais do que propriamente uma trilha em si) e em alguns tons acima do que devia – lembrou de Esquadrão Suicida? Pois é….

Nada que tire o brilha de Atômica. Um longa que reverberá e que espero que sirva de inspiração para outros produtores de conteúdo. Um misto de tiro, porrada e bomba, com a elegância dos espiões. A mescla da frieza com o sangue pulsante. Atômica virá para o Oscar 2018.

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