Crítica (2) | Death Note – Original Netflix

Crítica (2) | Death Note – Original Netflix

Death Note da Netflix renega a seriedade do anime, num terrorzinho B adolescente que cumpre sua proposta

Ficha técnica:

Direção: Adam Wingard
Roteiro:  Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides, Jeremy Slater
Elenco: Nat Wolff, Lakeith Stanfield, Margaret Qualley, Shea Whigham, Willem Dafoe, Jason Liles, Paul Nakauchi
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (25 de agosto de 2017)

Sinopse: Seattle, Estados Unidos. Light Turner (Nat Wolff) é um estudante brilhante que, um dia, encontra um caderno que repentinamente cai do céu. Trata-se do Death Note, que permite ao seu portador matar qualquer pessoa que conheça a partir da mera anotação do nome do alvo numa de suas páginas. Sob a influência de Ruyk (Willem Dafoe), o dono do caderno, Light passa a usá-lo para eliminar criminosos e pessoas que escaparam da justiça. A súbita onda de assassinatos faz com que ele seja endeusado por muitos, que o apelidaram de Kira, mas também atrai a atenção de um enigmático e também brilhante detetive, chamado L (Lakeith Stanfield).

Seja no mangá  de Takeshi Obata ou em sua versão em anime, Death Note é um fenômeno cultural. Ambientada no Japão, a história gira em torno de Light Yagami, um inteligente estudante do ensino médio que recebe de um Shinigami (um deus da morte) chamado Ryuk o “diário da morte” do título, um caderno sobrenatural que concede ao seu dono a habilidade de matar qualquer um que tenha seu nome escrito (com o rosto do indivíduo em mente) nele. Não tarda para que as ambições de resolver crimes de Light cedam espaço para um egocentrismo que envolve “criar um novo mundo” como uma espécie de divindade, e o jovem é perseguido por outra mente brilhante conhecida como L, que parte em seu encalço numa história cerebral de  gato e rato onde se discutem de forma aprofundada as implicações de certo e errado, livre arbítrio e religião – tudo isso embalado por uma atmosfera sombria e dramática.

Assim, não é de se espantar que essa legião de fãs tenha se sentido tão ofendida com o Death Note da Netflix e do diretor Adam Wingard, que, chegando em meio a acusações de whitewashing (substituir personagens de etnia estrangeira por atores norte-americanos ou de cor branca) e se passando em Seattle, nos Estados Unidos e não no Japão, renega toda a seriedade do original e entrega um filminho (literalmente; a obra tem 1h40) de terror adolescente B que remete – propositalmente – às produções do gênero slasher, às comédias besteirois americanas, ao terror satírico de “Pânico”, completando com uma trilha sonora brega de clássicos oitentistas que ironiza ainda mais a obra original. O Death Note de Wingard é estranho, irônico, perverso e debochado, como o divertido Ryuk vivido por Jason Liles (com fantasia no set) e pelo grande Willem Dafoe (fornecendo a performance facial inserida através de captura de movimentos).

Death Note

Light Turner (Nat Wolff) e o sádico e divertido Ryuk (voz de Willem Dafoe) em “Death Note”

Nesse sentido, as pretensões satíricas deste Death Note são escancaradas já em sua sequencia inicial, onde acompanhamos, ao som  do hit Reckless de 1983, as figuras arquetípicas da ” American High School Life”: líderes de torcida (completo com o cigarrinho “cool” na mão), jogadores de futebol americano, valentões da escola – tudo isso em câmera lenta, com abuso de ângulos holandeses que evidenciam ainda mais a estranheza desse mundo estilizado e contraditório em sua mistura de tons, na fotografia saturada de David Tattersall. O cerne do filme fica claro quando Mia, a líder de torcida, lança o olhar de interesse para o inseguro Light, e é só aí que vêm o título, é só aí que entre em cena o diário. Uma adaptação que coloca em segundo plano o cunho psicológico esperado e privilegia essa galhofice interessante mas inegavelmente excêntrica nunca agradaria a maioria dos fãs.

E é aí que entramos nas discussões fundamentais acerca do whitewhasing em Death Note. A diferença essencial entre este filme e um Dragon Ball Evolution (outra obra americana completamente hostilizada não só por fãs do anime, mas por qualquer um que tenha um entendimento básico de cinema): onde aquele claramente era um produto inconsequente na forma com que fazia o white wash em personagens japoneses, é como se o diretor Adam Wingard, diante dos claros problemas que enfrentaria devido à ambientação nos Estados Unidos, aliado ao fato de que existem outras quatro produções orientais de Death Note que se atém à fidelidade do anime e mangá, decidiu se distanciar de todas as formas daquelas produções, e ao invés de entregar um filme genérico de estúdio, pegou o roteiro de Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater e atribuiu estes elementos do cinema de gênero que faz tão bem (Você é o Próximo, O Hóspede e A Bruxa de Blair). Nesse sentido, é quase como se esse Death Note fosse justamente a visão de um oriental de como deve ser um colegial americano, esse cliché que só é superado, talvez, pelo conceito da colegial asiática.

Death Note

Mia ( Margaret Qualley) e o “High School American Life” que o diretor Adam Wingard propõe

Não deixa de ser injusto, então, ver Death Note recebendo críticas tão vorazes, já que a obra deve ser avaliada à parte do material de origem, e é justamente uma adaptação. desta forma, não será incomum ver comparações com o anime quando elas na verdade não deveriam ser feitas. As atuações são todas num tom elevado, novamente nessa ideia de estilização, e onde isso é mais perceptível é na interpretação de Nat Wolff (Cidades de Papel) como Light Turner. Essa abordagem é vista em uma das cenas mais interessantes do filme, que é a primeira aparição de Ryuk. Wingard transita entre suspense, comédia (nos gritos exageradamente agudos de Light) e no terror puro que termina com uma morte extremamente gráfica. É uma mistura arriscada, mas que consegue emular o “terror tipicamente americano” com um final na sequência que é digno de filmes da série Premonição.

Esta mistura de tons e gêneros nem sempre funciona. Em uma cena de perseguição específica, onde os personagens derrubam a tudo e todos em seus caminhos acaba exagerando na sátira, no “exploitation”, e a comicidade não combina com os elementos de ação. Ainda assim, quando explora as raízes do terror, o filme se sai muito bem (uma das personagens assiste à Fantasma, clássico cult de 79 dirigido Dom Coscarelli). A trilha sonora é repleta de sintetizadores, uma marca dos filmes de Wingard que bebem muito de trilhas dos suspenses da década de 70 pra 80 e foram popularizados por John Carpenter, atribuindo um certo estilo e atmosfera, principalmente nas sequências noturnas contrastadas com as luzes neon evidenciadas pela fotografia de Tattersall.

Death Note bebe dos filmes de terror B

As excentricidades B do diretor Adam Wingard alcançam o ápice em seu final, embalado pela brega The Power of Love (You are My Lady), o “como uma deusa” no brasil, e é de uma ironia que quase transforma Death Note em uma comédia de erros. No fim, a impressão que perdura é que se o Death Note da Netflix não fosse uma adaptação, e sim um desses terrores que surgem todo ano, ele talvez fosse encarado com bem menos preconceito, criado por anos de produções desrespeitosas oriundas de obras asiáticas.

Ou talvez a produção de Adam Wingard estivesse sempre fadada ao fracasso. Seu filme é, afinal de contas, um terrorzinho B -daqueles dignos de super cine numa sexta-feira a noite – com elementos pastelões, colocado num contexto de romance colegial, com direito a cena de baile. Podem chamar o Death Note do diretor de muitas coisas, mas ingênuo ele não é, e não é de se duvidar que ele eventualmente se torne, a seu próprio modo, um filme cult.

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  • Osmar Vitor

    Justo. Eu adoro o anime e sei que ele está anos-luz à frente do filme em termos de densidade e de inteligência. Mas o filme, por si só, não é nenhuma abominação como tenho ouvido falar. É um bom filme. Apesar de não ser muito mais do que isso: bom.

  • Cauê Petito

    Valeu pelo comentário, Osmar!